Reuters: diplomatas estão constrangidos e envergonhados com chanceler

O discurso em que o chanceler Ernesto Araújo criticou o 'globalismo' – o que, na prática, significa criticar o multilateralismo e e defender o imperialismo dos Estados Unidos – causou perplexidade entre o corpo técnico do Itamaraty, segundo relata a agência de notícias Reuters. "O discurso do novo chanceler foi recebido com claro constrangimento entre os presentes. Ao final, puxados por alguns convidados, alguns se levantaram, mas nem sequer aplaudiram. Outros, o fizeram claramente sem vontade"

Reuters: diplomatas estão constrangidos e envergonhados com chanceler
Reuters: diplomatas estão constrangidos e envergonhados com chanceler (Foto: Fábio Pozzebom / Agência Brasil)

247 – O discurso em que o chanceler Ernesto Araújo criticou o 'globalismo' – o que, na prática, significa criticar o multilateralismo e e defender o imperialismo dos Estados Unidos – causou perplexidade entre o corpo técnico do Itamaraty, segundo relata a agência de notícias Reuters. "O discurso do novo chanceler foi recebido com claro constrangimento entre os presentes. Ao final, puxados por alguns convidados, alguns se levantaram, mas nem sequer aplaudiram. Outros, o fizeram claramente sem vontade". Confira, abaixo, o relato da agência:

BRASÍLIA (Reuters) - Em um discurso com várias críticas à própria casa que vai comandar, o novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou, ao assumir o cargo nesta quarta-feira, que a política externa brasileira se atrofiou nos últimos anos por medo de ser criticada e que lutará para reverter o globalismo e provar que é possível ter comércio exterior com ideias e valores.

"Lembrar-se da pátria não é lembrar-se da ordem global, do que diz o último artigo da Foreigner Affairs ou da última matéria do New York Times. Não estamos aqui para trabalhar pela ordem global. Aqui é o Brasil e não tenham medo de ser Brasil", disse o novo chanceler.

"Acho que nossa política externa vem se atrofiando por medo de ser criticada. Não tenham medo de ser criticados."

Para uma plateia basicamente formada por diplomatas de carreira e alguns poucos convidados externos, como o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, Araújo afirmou que o Brasil havia perdido sua voz e falava para agradar os administradores da ordem global.

"Queríamos ser um bom aluno na escola do globalismo e achávamos que isso era tudo. O Brasil volta a dizer o que sente e sentir o que é", afirmou.

Em longo discurso na cerimônia de transmissão de cargo, que começou com o versículo da Bíblia de João 8:22, um dos bordões da campanha de Bolsonaro —"E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"—, Araújo fez largos elogios ao novo presidente. Para ele, Bolsonaro está libertando o Brasil e agora eles irão libertar a política externa brasileira.

Citou, também, o escritor Olavo de Carvalho, a quem atribuiu o papel de estar mudando o país junto com Bolsonaro. Diplomata de carreira, Araújo se aproximou de Carvalho e, através dele, dos filhos de Bolsonaro.

Por ser embaixador há menos de um ano e não ter comandado nenhuma embaixada no exterior, o novo chanceler não teria, de acordo com a praxe hierárquica do Itamaraty, estatura para ocupar o cargo. No entanto, a proximidade com a família Bolsonaro e a disposição de seguir as ideias do novo presidente lhe garantiram o posto.

Em seu discurso de posse, Araújo desfilou temas e ideias que já vinham sendo exploradas em um blog que criou em julho deste ano e em artigos que escreveu. Entre eles, o ataque ao chamado globalismo e a teoria de que há uma política internacional querendo acabar com as nações e suplantar o conceito de Deus entre a população mundial.

"O globalismo se constitui no ódio através das suas várias ramificações ideológicas e seus instrumentos contrários à nação, à natureza humana e ao próprio nascimento humano", afirmou. "O problema do mundo não é a xenofobia. É a Oikofobia, é odiar o próprio lar, o próprio povo."

Araújo também citou a "teofobia", o ódio a Deus, que, segundo ele, perfaz toda a "agenda global". "Para destruir a humanidade é preciso acabar com as nações e afastar o homem de Deus. É isso que estão tentando e é contra isso que nos insurgimos", disse.

Durante o longo discurso, Araújo foi aplaudido apenas em um momento, quando afirmou que Bolsonaro está libertando o Brasil e que "vamos libertar a política externa e vamos libertar o Itamaraty".

Os aplausos, no entanto, foram concentrados nos convidados. Do lado dos diplomatas, o silêncio se manteve.

O discurso do novo chanceler foi recebido com claro constrangimento entre os presentes. Ao final, puxados por alguns convidados, alguns se levantaram, mas nem sequer aplaudiram. Outros, o fizeram claramente sem vontade.

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