Colunista do New York Times chama de ‘cruzada hipócrita’ embate entre Moro e Bolsonaro

Cientista político Gaspard Estrada, especialista em política latino-americana, adverte que Sérgio Moro inaugurou o uso político da Justiça com a Lava Jato e se calou diante dos ataques de Bolsonaro à democracia. “A Justiça não deve parar de questionar os métodos de Moro quando era juiz e seu silêncio e cumplicidade quando membro do governo Bolsonaro”

Governo entrega vídeo de reunião ministerial citada por Moro de cobrança de Bolsonaro sobre PF.
Governo entrega vídeo de reunião ministerial citada por Moro de cobrança de Bolsonaro sobre PF. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Rede Brasil Atual - Agora que deixou o governo Bolsonaro, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro parece redescobrir os benefícios do Estado de direito e da liberdade de imprensa que, ele próprio, contribuiu para colocar em risco. “Não devemos nos esquecer disso.” A advertência é do cientista político Gaspard Estrada, diretor executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (OPALC) da Sciences-Po, de Paris. 

Em sua coluna no The New York Times – um dos maiores jornais do mundo –, Estrada propõe um exercício de memória. E observa que o mesmo Moro que se afasta do bolsonarismo mergulhou nas águas que hoje levam a democracia brasileira ao perigo. 

“A Justiça e os cidadãos não devem parar de questionar (e investigar) os métodos de Moro em sua cruzada anticorrupção quando ele era juiz e seu silêncio e cumplicidade quando ele era membro do governo Bolsonaro”, destaca o cientista político. 

Uso político da Justiça

Estrada lembra que antes da chegada do ex-ministro ao gabinete de Bolsonaro, Moro já “dava sinais claros de não respeitar o Estado de direito”. Como juiz da Operação Lava Jato, ele inaugurou o uso político da Justiça. Condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por “atos indeterminados”.

Quando todo o esquema arbitrário foi exposto pelo jornalista Glenn Greenwald, no que ficou conhecido como Vaza Jato, Moro respondeu adotando a mesma estratégia de Bolsonaro sobre a imprensa livre. Intimidou quem protestasse contra seus métodos, associando-os a criminosos e tentando destruir evidências. 

Contudo, “hoje conhecemos sua ideia do Estado de direito: conluio entre o juiz e a promotoria, seletividade nas investigações, manipulação de reclamações e motivações financeiras por trás da faixa ‘anticorrupção’“, ressalta o cientista político. 

Calado e aliado: o capanga

Agora, quando Moro acusa Bolsonaro de querer politizar a justiça, ao tentar interferir na Polícia Federal para obter informações de investigações em andamento, “faríamos bem ver a ironia”, destaca Estrada. Ele recorda que o ex-ministro que se calou “diante de vários ultrajes democráticos”. 

Como quando o próprio presidente da República disse que Moro deu informações privilegiadas sobre operações da PF em curso. Ou ainda quando Bolsonaro começou a intervir nos principais organismos estaduais para controlá-los. Até a sugestão do então ministro em reduzir os poderes de inspeção do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam). 

Destituído do governo que ajudou a eleger, Moro limitou-se a pedir desculpas ao Supremo. O analista finaliza seu artigo com uma sugestão. “Se o próprio Moro quis defender a democracia do país para impedir que os reveses autoritários aprofundassem a distopia brasileira, ele deveria desistir de suas ambições políticas e reconhecer que a corrupção não pode ser combatida usando métodos corruptos. Um pedido de desculpas não é suficiente.”

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