Venezuela recebe mais de 100 representantes do Mnoal

Venezuela recebe a reunião ministerial do Movimento dos Países Não-Alinhados (Mnoal), composta por 120 países; "Venezuela, assim como Cuba, Irã, Síria, Nicarágua, República Popular Democrática da Coreia [ Coreia do Norte], somos vítimas do intervencionismo, de estrangeiros que insistem em uma mudança de governo, que apostam em um regime servil a seus interesses”, afirmou o chanceler Jorge Arreaza

(Foto: Cancelaria da Venezuela)

Fania Rodrigues, Brasil de Fato - A Venezuela recebe, nesse sábado (20) e domingo (21), a reunião ministerial do Movimento dos Países Não-Alinhados (Mnoal), composto por 120 países. Desde 2016 o governo venezuelano preside esse organismo internacional que defende um mundo multipolar.

Na abertura do evento o ministro do Poder Popular para Relações Exteriores, Jorge Arreaza, destacou o fato de alguns países-membros do Mnoal terem em comum a relação conflituosa com os Estados Unidos. "Venezuela, assim como Cuba, Irã, Síria, Nicarágua, República Popular Democrática da Coreia [ Coreia do Norte], somos vítimas do intervencionismo, de estrangeiros que insistem em uma mudança de governo, que apostam em um regime servil a seus interesses”, afirmou Arreaza.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reconhecido pela maioria dos países desse organismo, esteve presente no encontro e fez um discurso no final da jornada desse sábado. O líder venezuelano falou sobre a necessidade luta em conjunto contra o bloqueio econômico. "Somos vítimas de uma perseguição econômica. Roubaram mais de 30 bilhões de dólares do povo venezuelano [em ativos fora da Venezuela]. Agora estão impedindo os navios de abastecer a Venezuela, existe na prática um bloqueio naval contra nosso país", ressaltou o presidente venezuelano diante dos representantes estrangeiros

Durante a reunião os ministros de Estado, de forma geral, condenaram as ações de intervenção estrangeira e ameaças de invasão militar. Ademais, defenderam o respeito ao direito internacional, a integridade territorial das nações ameaçadas e autodeterminação dos povos.

O ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohamad Yavad Zarif, sintetizou: "A onda radical dos Estados Unidos é o desafio mais importante que todos enfrentamos. Isso está minando o direito internacional e ameaça, de diferentes formas, a paz e a estabilidade em todo o mundo ", sintetizou o ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohamad Yavad Zarif.

DESAFIOS DOS NÃO-ALINHADOS

O representante de Myanmar, Kyaw Tin, lembrou a origem do bloco e ressaltou a necessidade de reivindicar as bandeiras pacíficas de seus membros fundadores. “Quero recordar que o Mnoal foi fundado no auge da Guerra Fria e está baseado nos princípios do multilateralismo. Seus fundadores defenderam um mundo próspero e pacífico, uma ordem mundial justa, onde cada país pode decidir seu próprio destino”, recordou.

Desde sua fundação o mundo passou por profundas mudanças. “Presenciamos o final da Guerra Fria, depois passamos a ser um mundo unipolar e agora vivemos uma nova Guerra Fria, com competições entre países. Essa guerra comercial tem consequências também para os países menos desenvolvidos”, afirmou o ministro de Myanmar.

O total de países-membros do Mnoal representam 66% (dois terços) dos integrantes da Organização das Nações Unidas, assim como 55% da população mundial e 80% das reservas provadas de petróleo. Porém, a diferença de outros organismos importantes, nesse as grandes potências estrangeiras como os Estados Unidos e os países europeus não são integrantes. Da América Latina e Caribe fazem parte 26 países, entre eles alguns com governos de esquerda como Bolívia, Nicaragua, Cuba, mas também nações governadas por partidos de direita, como Colômbia, Peru e Chile.

O grande desafio do momento, segundo o ministro da Nicaragua, Dennis Moncada, é fortalecer as relações internacionais multilaterais e regionais. “Vivemos uma época em que o unilateralismo quer se impor de forma perigosa ao multilateralismo e ao direito internacional. Devemos trabalhar para consolidar a zona de paz, como estabelecemos na Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe). Aqui não pode haver mais ameaças de golpes de estados e medidas coercitivas, como as sanções imperiais”, disse o nicaraguense.

Já o vice-ministro de Relações Exteriores da África Sul, Alvin Boltin, defendeu mudanças nas estruturas da ONU. “O grupo dos países africanos defendemos uma reforma da Organização das Nações Unidas e sobretudo do Conselho de Segurança da ONU”, reforçou. Atualmente o Conselho de Segurança possuiu apenas cinco membros permanentes: Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China.

A reforma da ONU é uma antiga reivindicação do Mnoal. Presidenta da Assembleia Geral da ONU, a diplomata equatoriana Maria Fernanda Espinosa falou sobre o tema, em uma mensagem, em vídeo, enviado aos participantes do encontro em Caracas. “Quero fazer um chamado Movimento dos Países Não-Alinhados para revitalizar o trabalho das Nações Unidas. Isso requer aproximar as Nações Unidas das pessoas. Os convoco a recorrer a Assembleia Geral da ONU, o órgão mais democrático do mundo, para reformar suas instituições”.

A diplomata equatoriana também falou sobre o papel do bloco diante dos conflitos internacionais. “O Mnoal tem uma tarefa importante já que abriga 55% da população mundial. Deve continuar promovendo a paz e em defesa de países que sofrem ocupações estrangeiras”.

Ministros defendem respeito à soberania dos povos e ao direito internacional (Foto: Chancelaria da Venezuela)

VENEZUELA FICTÍCIA

O embaixador da Bielorrússia na ONU, Valentín Rybakov, e da Bolívia, Diego Pary Rodríguez, chamaram a atenção para o fato de encontrar na Venezuela um país diferente àquele retratado pela grande mídia. “Caracas é muito diferente daquela cidade que vemos através da CNN (canal de notícias dos EUA)”, destacou o diplomata da Bielorrússia. O boliviano também falou sobre suas impressões sobre a cidade: “Ao chegar em Caracas sentimos que o país está em paz. Apesar das tentativas de desestabilização o povo venezuelano continua exercendo sua soberania”, frisou Diego Pary Rodríguez.

Ao referir às crises polícias no mundo o embaixador da Bielorrússia deixou claro que posição é o diálogo. “Os conflitos não podem ser uma maneira de resolver os problemas. Estabelecemos, na Bielorrússia, uma plataforma para o diálogo na Ucrânia. Porque acreditamos que essa é a única forma de superar as diferenças”.

Valentín disse ainda estar otimista para o próximo encontro do Mnoal, que será realizado no Azerbaijão, em outubro desse ano, com presença dos chefes de Estado. “A próxima cúpula, que reunirá os chefes de Estado, será realizada na Europa. Depois de 30 anos esse grupo de países volta a reunir-se no continente europeu. Azerbaijão é um membro entrante [ingressou em 2011] e terá um importante papel”. A última cúpula na Europa foi em 1989, em Belgrado, Iugoslávia, assim como a fundação do bloco, em 1961.

Esse encontro na Venezuela, que termina domingo, faz parte de uma série de reuniões internacionais que o país vai receber nos próximos dias. Na semana que vem Caracas será sede do Foro de São Paulo, evento que vai reunir 150 partidos e organizações de esquerda.

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247