Fogo amigo na Fazenda

Enquanto foi fraco, Mantega era forte. Agora, já é tido como forte demais

Assim como existem as leis de Moore, na física, e de Murphy, no humor, há também a lei de Mantega, no que diz respeito do poder. Ela pode ser descrita da seguinte forma: “Fraqueza é sinônimo de força; fortaleza significa fragilidade”. E Guido Mantega é o exemplo perfeito desse axioma. Escolhido ministro da Fazenda no início de 2006, após os primeiros escândalos, ainda no governo Lula, envolvendo Antonio Palocci, ele já vai para o sétimo ano à frente da economia brasileira. Uma marca e tanto, num cargo tão disputado e tão conturbado.

Durante boa parte desse tempo, Mantega foi percebido como um homem que havia chegado lá quase por acaso, sentando numa cadeira que já pertenceu a “czares”, como Delfim Netto, e a superministros, como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan e o próprio Palocci. Mantega, ao contrário, era o ministro acidental. A tal ponto que ganhou o apelido de “Forrest Mantega”, inspirado no personagem Forrest Gump.

Durante muito tempo, essa imagem o ajudou. Sem ambições políticas, Mantega conquistou a confiança dos chefes e teve papel decisivo na adoção de políticas anticíclicas, após a crise internacional de 2008, e na aceleração do crescimento, que fizeram com que o segundo mandato do presidente Lula fosse muito melhor do que o primeiro. E foram também essas condições econômicas que ajudaram a eleger a presidente Dilma Rousseff. Além disso, na era Mantega, o Brasil fortaleceu seu papel em organismos internacionais, como o FMI, e em foros como o G-20, passando a ser mais respeitado.

Mas Mantega era forte porque aparentava ser fraco. Ocorre que, na estrutura do Estado brasileiro, não há estrutura de poder mais poderosa do que o Ministério da Fazenda, que estende seus tentáculos sobre o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras, o BNDES e diversas outras máquinas econômicas. Guido, ou “Guidinho”, como Dilma o chama, tratou de ocupar discretamente todos os espaços de poder disponíveis e hoje está mais para czar do que para Forrest Gump.

Por isso mesmo, começou a sentir as primeiras labaredas do fogo amigo. Meses atrás, espalhou-se o rumor de que ele deixaria o governo para acompanhar o tratamento de saúde de sua esposa. Depois, uma reportagem revelou o tamanho do seu patrimônio imobiliário, que é maior do que o do desafeto Antonio Palocci e envolve um apartamento em Paris. Agora, ele é acusado de ter prevaricado no escândalo da Casa da Moeda, em que seu subordinado Luiz Felipe Denucci é suspeito de ter recebido propinas de US$ 25 milhões, fora do Brasil.

Foram vários avisos, que revelam um único desejo: querem o cargo de Guido Mantega. Se ele ou a presidente Dilma irão ceder, é outra história, mas pretendentes há aos montes: Luciano Coutinho, Fernando Pimentel, Nelson Barbosa...

Fraqueza é sinônimo de força; fortaleza significa fragilidade.

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