Igreja Universal deve reaproximar-se do PT e pode apoiar Lula em 2022, afirma Mathias Alencastro

Há uma crise de grandes proporções na relação entre a Igreja Universal e o governo Bolsonaro e que pode levar a uma ruptura em breve. Edir Macedo pode apoiar Lula em 2022, como aconteceu em 2006

Lula e Edir Macedo em 2007, na inauguração da Record News
Lula e Edir Macedo em 2007, na inauguração da Record News (Foto: Ricardo Stuckert)
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247 - A crise entre a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e o governo Bolsonaro está a ponto de ruptura e pode levar a uma reaproximação entre a instituição e o PT. A avaliação é de Mathias Alencastro, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford em artigo na Folha de S.Paulo. O colapso do projeto da Igreja em Angola, onde enfrenta hostilidades crescentes do governo local, sem o suporte esperado do governo Bolsonaro, está levando à ruptura entre o poderoso bispo Edir Macedo e Jair Bolsonaro.

A Iurd, que hostilizou o PT durante o governo FHC, acabou aderindo ao governo de Lula em 2003 e só rompeu com o petismo em 2016, no contexto do golpe contra Dilma. Durante anos, as relações entre os principais líderes petistas e a cúpula da Iurd foi amigável e Marcelo Crivella, sobrinho de Macedo, foi ministro da Pesca e Aquicultura no governo Dilma, entre 2012 e 2014.

Desde o rompimento em 2016, Macedo realinhou-se politicamente à direita, apoiando o golpe, o governo Temer e, finalmente, a candidatura Bolsonaro, que teve um de seus eixos na aliança com o fundamentalismo católico e evangélico e a aliança com os líderes empresariais-midiáticos evangélicos.

Angola está no epicentro da crise entre Macedo e Bolsonaro. “Componente essencial do projeto de poder da Igreja Universal desde os anos 1980, a expansão internacional tornara-se ainda mais importante a partir dos anos 2010. A presença na África, e especialmente em Angola e Moçambique, era o principal diferencial em relação às suas concorrentes nesse momento mais fragmentado e competitivo da comunidade evangélica no Brasil”, escreveu Alencastro.

Com apoio do governo do PT, o projeto da Iurd mudou de caráter no governo Bolsonaro, tornando-se, segundo Alencastro, “um processo de evangelização com fortes tons neocoloniais. Essa atitude caricatural rendeu o desprezo da maioria dos interlocutores africanos e um conflito aberto com as autoridades angolanas, que se recusaram a aceitar o governo brasileiro como mediador da sua relação institucional com a Igreja Universal, implantada no país há décadas.

A crise diplomática, que já dura mais de um ano, deixa claro que a boa inserção da Igreja Universal em Angola, além da tolerância aos seus métodos autoritários e centralizadores, dava-se no contexto de uma relação mais ampla e generosa com o governo brasileiro” -relação dos governos do PT com a África em geral e Angola em particular.

A ruptura da Iurd com o bolsonarismo, que parece inevitável, deve reaproximar uma das principais igrejas evangélicas do PT, segundo Alencastro: “[Macedo]  sabe que Lula, o único responsável político em condições de reconstruir a ponte entre Brasil e África a tempo de salvar os interesses da Igreja Universal, também é o principal rival de Bolsonaro nas eleições de 2022”. Concluiu o cientista político: “Não seria, portanto, uma surpresa se a crise na África marcasse o começo de uma reaproximação da Igreja Universal com o Partido dos Trabalhadores, num movimento consistente com as mudanças no comportamento do eleitorado evangélico detectadas pelo Datafolha”.

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