Brasília, JK e a corrupção nunca comprovada

Colunista do 247, a jornalista Tereza Cruvinel analisa o ambiente histórico da construção da capital federal, 55 anos atrás; “Cinco anos e meio antes da inauguração de Brasília, Getúlio se matara com um tiro no peito sob uma forte campanha que o acusava de transformar o pais num mar de lama”; lembra que Juscelino se elegeu, a UDN jurou que não seria empossado e não governaria, que enfrentou duas tentativas de golpe, que tomou posse, governou, fez Brasília e implementou uma forte agenda desenvolvimentista; “Não estou dizendo que não houve corrupção na construção de Brasília, mas lembrando que a corrupção sempre vira bandeira quando há interesses contrariados no Brasil”

Colunista do 247, a jornalista Tereza Cruvinel analisa o ambiente histórico da construção da capital federal, 55 anos atrás; “Cinco anos e meio antes da inauguração de Brasília, Getúlio se matara com um tiro no peito sob uma forte campanha que o acusava de transformar o pais num mar de lama”; lembra que Juscelino se elegeu, a UDN jurou que não seria empossado e não governaria, que enfrentou duas tentativas de golpe, que tomou posse, governou, fez Brasília e implementou uma forte agenda desenvolvimentista; “Não estou dizendo que não houve corrupção na construção de Brasília, mas lembrando que a corrupção sempre vira bandeira quando há interesses contrariados no Brasil”
Colunista do 247, a jornalista Tereza Cruvinel analisa o ambiente histórico da construção da capital federal, 55 anos atrás; “Cinco anos e meio antes da inauguração de Brasília, Getúlio se matara com um tiro no peito sob uma forte campanha que o acusava de transformar o pais num mar de lama”; lembra que Juscelino se elegeu, a UDN jurou que não seria empossado e não governaria, que enfrentou duas tentativas de golpe, que tomou posse, governou, fez Brasília e implementou uma forte agenda desenvolvimentista; “Não estou dizendo que não houve corrupção na construção de Brasília, mas lembrando que a corrupção sempre vira bandeira quando há interesses contrariados no Brasil” (Foto: Realle Palazzo-Martini)

Por Tereza Cruvinel

Brasília faz 55 anos hoje. Como seria o Brasil sem Brasília? Antes, tudo isso aqui era o sertão. Não muito longe, nas Gerais em que nasci,  Goiás era uma palavra que evocava o ermo, o desconhecido. Onças, índios, mato e solidão. De longe em longe, uma cidadela deixada pela passagem das bandeiras do ciclo do ouro. E muito além de Goiás, o Brasil que nem nossos era, o Pantanal, a Amazônia, a fronteira oeste, Brasis desconhecidos dos que viviam na costa.  Juscelino não foi o primeiro a perceber o sentido estratégico da mudança da capital para o interior, ideia que já fora lançada pelos inconfidentes, por José Bonifácio de Andrada e Silva e pelos constituintes de 1891. Mas foi ele que a agarrou com determinação furiosa e a transformou em concreto e realidade.

Os que o combateram, inicialmente para detonar a transferência da capital, e depois para tirá-lo de cena abrindo o caminho para o prolongamento da ditadura, criaram a mística da corrupção sem limites que teria permitido a construção da cidade em quatro anos.  Quando veio o golpe, em 1964, ele era um candidato imbatível às eleições presidenciais de 1965. Foi pressionado a desistir da candidatura. Não desistiu. Então foi cassado, investigado, acusado de corrupção. Exilou-se. Voltou e morreu anos depois num acidente que até hoje suscita dúvidas. As acusações de corrupção contra JK nunca foram provadas. Quando morreu, deixou patrimônio modestíssimo, ao ponto de dona Sarah ter morrido num apartamento alugado em Brasília. Alguns ganharam dinheiro com as obras, é verdade. Seu plano de metas, que incluía outras grandes obras além da construção da cidade no deserto, propiciou o crescimento de muitas das empreiteiras que hoje estão hoje por aí, enfrentando a Lava Jato.  O que o pais ganhou com a interiorização do desenvolvimento, entretanto, é infinitamente superior ao capital acumulado por empreiteiras ou empresários que atuaram na empreitada.

Cinco anos e meio antes da inauguração de Brasília, Getúlio se matara com um tiro no peito sob uma forte campanha que o acusava de transformar o pais num mar de lama. A UDN o fustigava com denúncias de corrupção antes de estourar o caso dos tiros contra o adversário impiedoso Carlos Lacerda. Com o tiro ele adiou o golpe por dez anos. Juscelino se elegeu, a UDN jurou que não seria empossado e não governaria. Enfrentou duas tentativas de golpe, tomou posse, governou, fez Brasília e implementou uma forte agenda desenvolvimentista.  Depois sim, veio o golpe e o ditadura que durou 21 anos.

Não estou dizendo que não houve corrupção na construção de Brasília mas lembrando que a corrupção sempre vira bandeira quando há interesses contrariados no Brasil. Hoje, Juscelino é louvado por gregos e troianos mas nunca houve um pedido de desculpas à sua memória por todas as acusações que lhe foram lançadas. A história o absolveu mas ele pagou um custo alto enquanto viveu. Sua história nos recomenda desconfiar dos acusadores de plantão.

Falemos de Brasília mesmo, em seus 55 anos. Quando eu cheguei a Esplanada já não tinha esqueletos, mas prédios mesmos, com o traço do arquiteto.  Ainda havia muita poeira e muito sendo feito. A W-3 Norte ainda era uma rua de terra, mais tarde ligada à W3-Sul.  Mas para fazer a passagem sob os viadutos, acabaram com a fonte luminosa que me encantava, o rosa diáfano das águas dançando uma valsa.  Os “lacerdinhas”, redemoinhos que levantavam a poeira vermelha, ainda sujavam o céu límpido aqui e ali. Ventava muito na planície aberta e ainda vazia. Lembro do frio cortante de julho, que nestes tempos de aquecimento global não existe mais.  Dos falares de tantas partes do Brasil que me causavam estranhamento.  Das coisas do Nordeste e do Sul que conheci aqui. Lembro, enquanto escrevo, das coisas que não existem mais: a boutique Bi-Ba-Bô, a SAB, o Chaplin e o primeiro sanduiche fast-food, os mercadinhos das quadras 700, a igreja de São Judas Tadeu ainda em madeira, do cerrado onde hoje é o parque Sarah,  que  eu atravessava de Kombi voltando da gráfica em que trabalhava

Ainda era a ditadura e sentíamos, talvez mais que outros brasileiros, o peso da espada e o olhar do SNI. Havia tortura no Ministério do Exército, em plena Esplanada. Vocês aí, que pedem a volta dos militares, sabiam disso? Pendurava-se no pau-de-arara no quarto andar enquanto no gramado os ipês floresciam em amarelo.  Mas tudo isso passou e os brasilienses ajudaram, pedindo diretas, direito ao voto e Constituinte.

Não falem de Brasília sem conhecer a sua gente verdadeira, composta pelos que vieram de todo os lados acreditando num sonho e o realizaram. Pela Esplanada, muitos já passaram: ditadores, falastrões, enganadores, ladrões da coisa publica. Mas também heróis sem tumba, candangos anônimos que tudo ergueram, funcionários públicos que tocaram o Estado com dedicação e zelo. Os do poder passam.  Nós, brasilienses, ficamos sempre, assim como  pôr-do-sol sempre esplenderoso que ninguém pode levar.

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