Livro de Janot confirma: PGR foi um botequim

Nem só da intenção de assassinar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes vive o livro de memórias do ex-procurador-geral da República (PGR) Rodrigo Janot. Em 20 capítulos, distribuídos em 256 páginas, “Nada menos que tudo – bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque”, lançado neste mês, mais parece um exercício de egolatria com algumas pitadas de prevaricação. Para acompanhar, muito vinho, uísque, gim, cachaça, rum, vodca e cerveja

(Foto: Reprodução)
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247 – Nem só da intenção de assassinar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes vive o livro de memórias do ex-procurador-geral da República (PGR) Rodrigo Janot. Em 20 capítulos, distribuídos em 256 páginas, “Nada menos que tudo – bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque”, lançado neste mês, mais parece um exercício de egolatria com algumas pitadas de prevaricação. Para acompanhar, muito vinho, uísque, gim, cachaça, rum, vodca e cerveja.

Da narrativa, surge um procurador ilibado, incorruptível e sem nenhuma espécie de viés ideológico. Trata-se de uma versão de Janot que não resiste a uma pesquisa no Google. Das entrelinhas, se extrai um homem vaidoso e narcisista. Para quem acompanhou a sua atuação na Procuradoria-Geral da República, custa-se a crer que ele próprio acredite em suas palavras.

O livro começa com o relato de um encontro de Janot com o então vice-presidente da República, Michel Temer (MDB), e o deputado federal Henrique Eduardo Alves (MDB-RN) no Palácio do Jaburu. Eles teriam pedido que o PGR arquivasse investigação sobre o deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ).  

"Eu chamei o senhor aqui porque quero conversar não com o procurador-geral da República, mas com um brasileiro preocupado com o Brasil, com um patriota", disse Temer, segundo Janot.

"Cunha é um louco, pode reagir de forma imprevisível e colocar o Brasil em risco. Confiamos no senhor como brasileiro e como patriota para manter a estabilidade do país", disse Alves.

De acordo com o próprio Janot, ele teria respondido: “(...) o que os senhores estão me propondo é um crime de prevaricação. Isso eu não farei jamais”.

O então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, chegou a participar da reunião sem dar uma palavra. Depois, em outro encontro, disse: “Você chutou o balde” e colocou-se à disposição para, no futuro, testemunhar a favor de Janot. 

A veemência que sobrou na resposta a Temer e a Alves faltou a Janot no momento de tomar alguma atitude. Segundo especialistas, Janot cometeu mesmo crime de prevaricação porque "deixou de agir" diante dos supostos pedidos, considerados "corrupção ativa contra a administração pública". O procurador-geral teria incorrido em crime pois uma das funções do cargo é justamente apresentar denúncia contra autoridades com foro privilegiado. 

No livro, em alguns momentos, Janot deixa de lado a pose de fiscal-chefe da lei para dar lugar ao ser humano dotado de sentimentos. Foi assim quando pediu ao STF a prisão do ex-deputado José Genoino, a quem trata como ídolo. “Fazer uma petição que significaria sua prisão foi muito doloroso. Naquele dia, voltei para casa angustiado, e confesso que não pude conter as lágrimas, afinal, era como se estivesse aprisionado parte da minha juventude ou, em outro sentido, enterrando de vez o sonho de uma geração”, escreve Janot.

Algum ingênuo pode achar que, ao tratar o petista Genoino como ídolo, Janot tenha um viés ideológico mais à esquerda. Nada mais enganoso. Que o diga o deputado federal Aécio Neves, supostamente envolvido em casos de corrupção em Furnas e que foi poupado pelo PGR na famosa “lista do Janot”. 

“O caso de Aécio Neves era um pouco diferente. [O doleiro Alberto] Yousseff disse que, segundo o ex-deputado José Janene, já falecido à época da delação, o dono da empresa bauruense, Airton Dairé, pagava uma mesada para o senador em troca de vantagens em Furnas, uma área de influência do ex-presidente do PSDB mesmo durante o governo do PT. A acusação parecia crível, mas tínhamos um problema: as duas testemunhas que poderiam confirmar a mesa, Janene e Dairé, estavam mortas (...). E foi assim que o senador Aécio Neves se viu livre do primeiro inquérito”, admite Janot.

A lista de Janot trazia 31 políticos do PP, oito do PT, sete do MDB, um do PSDB, um do PTB e um do SD. Num rompante de sincericídio, na página 51, ele confessa: “PT e MDB eram, obviamente, os mais atingidos, dada a expressividade dos representantes dos dois partidos incluídos na relação de políticos a serem investigados por ordem do Supremo”. O tucano Aécio Neves só veio aparecer a segunda “lista do Janot”.

Em 2 de dezembro de 2015, o presidente da Câmara à época, Eduardo Cunha, deu seguimento ao pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Somente duas semanas depois, em 16 de dezembro, Janot pediu o afastamento de Cunha das suas funções na Câmara. Os críticos dizem que o procurador-geral esperou o ex-deputado perder a serventia para investigá-lo. Janot tenta se explicar dizendo que nesses 14 dias mais informações foram coletadas sobre a atuação de Cunha.

O livro guarda um imenso espaço para a egolatria de Janot. Um dos pontos altos de sua vaidade ocorre quando, dois dias antes da divulgação da lista de Janot, ele é homenageado em uma manifestação daquelas que culminaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O próprio Janot narra sem nenhuma modéstia. “No caso, era uma manifestação a favor das investigações. Estavam lá segurando velas, fazendo orações, gravando vídeos nos celulares. Deixei a minha equipe ultimando alguns detalhes e desci para falar com os manifestantes (...). Foi assim que me fotografaram segurando um cartaz com a frase ‘Janot vc é a esperança do Brasil’. Na saída, eu disse uma frase acaciana: ‘Quem tiver que pagar, vai pagar’”.

Segundo ele, só soube o que estava escrito no cartaz ao voltar ao seu gabinete e ver a foto se espalhar pela internet. “Na verdade, só fui falar com os manifestantes, que não passavam de 30 pessoas, porque achava, de fato, importante receber apoio popular”, completou.

Janot se jacta da fama sem perder a pseudo-humildade. “No primeiro semestre de 2016, a Lava Jato seguia de vento em popa. Eu só não diria que éramos mais populares que Jesus Cristo porque não quero cometer o mesmo erro de um dos Beatles, que ousou tocar em um mito religioso, sem se dar conta do peso da religião, inclusive no mundo pop. O fato é que nós, procuradores, juízes e policiais, experimentávamos uma popularidade nunca vista antes no meio jurídico”. 

Como se fosse uma das almas mais honestas do país, Janot repete, ao longo do livro, o seu mantra: “a gente faz o que tem que fazer”. E não poupa o leitor dos seus autoelogios. “Alguns amigos me acham sanguíneo, mercurial. Não é bem assim. Eu não gosto de esconder emoções. Abomino hipocrisia. Não suporto teatralidade que alguns homens públicos impõem a si mesmos com receio de desagradar a uma determinada plateia. Isso para mim é demagogia barata. Prefiro dizer o que penso, mesmo que isso implique choque de opinião, a agradar a quem quer que seja com uma falsa ideia a meu respeito.”

Orgulha-se de ter criado a Farmacinha, talvez seu maior legado à frente da Procuradoria Geral da República. “Farmacinha” foi o nome da geladeira que ficava ao lado do gabinete do procurador-geral. “Eu resolvera incrementar o ambiente com uma geladeira abastecida com bebidas (vinho, cerveja, uísque, cachaça, rum, vodca, gim etc)”, relata e completa: “Nos momentos mais tensos, geralmente no fim do expediente, quase sempre noite alta, quando eu sentia as nuvens da desconfiança, da fúria ou do desânimo pairando sobre nossas cabeças, buscava o que podemos chamar de uma solução heterodoxia. ‘Para tudo, moçada! Todo mundo para a farmacinha, sô!’”, conta no livro. Com o tempo, transformou a PGR num botequim.

Assim, nos momentos de tensão, Janot estava sempre acompanhado de uma bebida. No dia da divulgação da lista do Janot, procuradores “esvaziaram algumas garrafas de vinho”. Antes do primeiro encontro com Dilma Rousseff, passou mal por conta do vinho. Ao ouvir as conversas gravadas entre Sérgio Machado, Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros havia tomado uma garrafa de vinho.

Não são poucas as vezes em que os encontros, o trabalho e as conversas são regados a muita bebida. Tanto que passou a ser presenteado. Henrique Eduardo Alves lhe mandou uma garrafa de cachaça. Do ex-presidente do Senado Eunício Oliveira recebeu uma garrafa de uísque. Do comandante do Exército, general Villas Bôas – o mesmo que advertiu o STF sobre Lula -, ganhou também uma garrafa de cachaça do Rio Grande do Sul com a seguinte frase: “nunca fiz amigos tomando leite”. Janot respondeu: “nem eu”. Segundo ele, “foi o início de uma nova amizade”.

No livro, Janot encontra espaço para exercícios de futurologia e divagações eleitorais. Numa análise que surpreende pelo senso comum, ele acredita que se o Eduardo Cunha não tivesse sido cassado se tornaria o próximo presidente do Brasil, em vez de Jair Bolsonaro.

“Agora, quando escrevo esse livro, ninguém mais parece se lembrar, mas em 2015, antes de receber o carimbo de corrupto e mentiroso, Cunha vinha recebendo crescente apoio do empresariado, dos evangélicos e dos grupos de direita que lideravam grandes manifestações contra a corrupção. Bolsonaro só passou a catalisar o sentimento anti-PT, que se traduzia nos protestos contra a corrupção na Petrobras, depois que Cunha perdeu o mandato, foi preso e saiu de cena. Nesse sentido, não seria errado dizer que Bolsonaro também deve parte da vitória na eleição presidencial ao sucesso da investigação contra Cunha, o que não deixa de ser um contrassenso no contexto geral”. Uma típica “analise” com a profundidade de um pires. 

Para encerrar, no capítulo “Nada será como antes”, último do livro, Janot rasga elogios à Operação Lava Jato sem contestar os seus métodos. “A Lava Jato teve papel crucial para mostrar a vasta cadeia de corrupção que enreda empresários e políticos no Brasil desde sempre”. Diz que houve certos erros “na política de comunicação”. “Deveríamos ter sido mais proativos na defesa pública das investigações”.

Tirante alguns episódios de bastidores, o livro de Janot oferece pouca coisa. Além dos autoelogios, fica a sensação de que ele busca justificar muitas das suas atitudes, numa tentativa frustrada de recuperar sua reputação.. O lançamento das suas memórias parece mais um desespero de Janot em não se contentar com o anonimato.

NADA MENOS QUE TUDO - BASTIDORES DA OPERAÇÃO QUE COLOCOU O SISTEMA POLÍTICO EM XEQUE

Preço R$ 55,90 (256 págs.)

Autor Rodrigo Janot, Jailton de Carvalho, Guilherme Evelin

Editora Planeta do Brasil

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