Censo da população de rua não condiz com a realidade, criticam ativistas

Movimento e Pastoral que acompanham a situação temem que dado subestimado prejudique políticas públicas. "Teve caso de, três horas antes do censo, acontecer ação de zeladoria da prefeitura, varrendo a população de rua para outros lugares para não ser recenseada", diz Anderson Lopes de Miranda, do Movimento Nacional da População de Rua

População de rua desperta preconceito, ódio e a habitual falta de educação da classe média.
População de rua desperta preconceito, ódio e a habitual falta de educação da classe média. (Foto: Agência Brasil)
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Rodrigo Gomes, RBA - Segundo o governo do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), hoje há 24.344 pessoas em situação de rua na capital paulista, o que representa um aumento de 60% no número de pessoas nessa situação, em quatro anos. O último censo foi realizado em 2016 e constatou que haviam 16 mil pessoas nas ruas da cidade. No entanto, coordenadores de organizações que trabalham com a população de rua avaliam que o número está fora da realidade e que isso pode prejudicar o desenvolvimento das políticas públicas para atendimento assistencial, de saúde ou de trabalho.

“A gente viu muitas irregularidades. Teve caso de, três horas antes do censo, acontecer ação de zeladoria da prefeitura, varrendo a população de rua para outros lugares para não ser recenseada. Fomos fazer o recenseamento na Cracolândia e horas antes teve ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Os dados não batem com as informações obtidas no Cadastro Único da própria prefeitura, que registra cerca de 30 mil pessoas em situação de rua”, diz Anderson Lopes de Miranda, coordenador do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR).

O coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo, padre Júlio Lancellotti, concorda com Miranda sobre o resultado do levantamento feito pelo governo Covas. “Não é realista. Muitas pessoas não foram cobertas por que não deixou de realizar ações de ‘rapa’, expulsando as pessoas dos locais antes dos recenseadores passarem. Os serviços já estão sucateados e esse número subestimado vai piorar ainda mais a situação. Logo não vai ter alimentação suficiente nos centros de acolhida, por exemplo, porque a estimativa de atendimento vai estar sempre fora da realidade”, afirma.

Segundo Alan Silva de Souza, gerente técnico da Qualitest, empresa contratada pelo governo Covas, a cidade foi dividida em regiões e setores censitários, onde os 184 pesquisadores atuaram em busca ativa, entre os dias 9 e 30 de outubro do ano passado. Do total, 11.693 pessoas foram identificadas em centros de acolhida e 12.651 nas ruas. No entanto, cada local foi visitado uma única vez, o que, para Lancellotti e Miranda, é insuficiente para conseguir identificar todas as pessoas que vivem em situação de rua em determinada região.

“A população de rua tem uma dinâmica complexa, passa a noite em um local, busca outro local para almoçar, outra região para tentar ganhar algum dinheiro. Um único dia não é suficiente para cobrir essa condição peculiar. Além disso, houve uma regionalização dos serviços, que deixou algumas regiões sem atendimento, dificultando a vida da população de rua que tem que se deslocar mais para acessar os equipamentos”, explica Miranda.

“Nós estamos vivendo um momento muito grave a prefeitura não tem condições de atender nem esse número (de 24 mil). Hoje chegaram aqui na igreja alguns muito machucados, muito sujos, sem condições de roupas, que não encontram lugar para dormir. Estão dormindo ao relento, fazendo acampamentos em volta dos Centros Temporários de Acolhimento (CTA)”, pontua Lancellotti.

A secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Berenice Gianella, disse que o aumento do desemprego está “diretamente relacionado ao aumento da população em situação de rua”. Entre 2016 e 2016, o desemprego na capital paulista subiu de 12,8% para 16,4%. No mesmo período, a população de rua cresceu de 16 mil para 24 mil. Ela defendeu que o governo está preparando para atender a demanda, relacionando 136 serviços na assistência social, com 20 mil vagas de atendimento.

O governo Covas anunciou a criação um plano de ação e um projeto piloto para atendimento integral da população em situação de rua. A proposta é selecionar 100 pessoas que estejam vivendo nas ruas a mais de seis meses e oferecer um atendimento de 15 meses, pagando à entidade assistencial pelo resultado completo do atendimento.

Segundo o secretário de Governo, Mauro Ricardo, hoje a prefeitura investe R$ 14 mil por atendimento, mas de forma fragmentada, sem garantia de que a pessoa consiga voltar ao convívio familiar ou assuma autonomia. A ideia é pagar R$ 15 mil pelo ciclo completo, apenas ao final do serviço. Além disso, o governo Covas pretende alterar a fórmula de remuneração das abordagens de pessoas de rua. Hoje, as entidades recebem R$ 356,69 por qualquer abordagem. A prefeitura quer que sejam R$ 200 por abordagem simples e R$ 500 por abordagem que resulte em encaminhamento aos serviços municipais.

A pesquisa identificou que 85% da população em situação de rua é composta por homens, sendo que 386 pessoas se declararam transexuais. A faixa etária prevalente é a de 31 a 49 anos, com 46,6% do total. 68% são negros ou pardos e 28% brancos. O principal motivo que as pessoas declaram para ter ido viver nas ruas foi o conflito familiar (50%), seguido pelo uso de drogas ou álcool (33%), o desemprego (23%) e a perda de moradia (13%). Cada entrevistado podia selecionar mais de um motivo.

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