Mãos dadas

O Estado, por meio de seu Leviatã, serve para evitar a guerra declarada dos indivíduos, exatamente porque os sentidos e consequentes interesses são múltiplos

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Abro a revista, que não é mais de papel, e vejo uma notícia retardada sobre Bolsonaro e seu dedo na cara e mãos ao alto. Veja bem, retardada não apenas pelo conteúdo reacionário e simplista, caráter condizente com a indigníssima excelência tal qual o meio de massa (para o povo e não por ele), mas porque é um absurdo atraso ainda haver qualquer pedra no caminho, grilhão sobrevivente que impeça indivíduos de terem reconhecimento legal das escolhas suas que de modo algum fazem mal ao coletivo, a menos que estejamos falando de argumentos irracionais – e estamos – sustentados por tradições culturais ou desejos inconscientes muito mal resolvidos. Ressaltemos: a tragédia maior não reside na insistência de vozes boçais, e sim na perpetuação de ouvidos carentes de sentidos puristas, de “assim que tem que ser”. Na realidade – e me perdoem, ela existe -, não tem que ser de modo algum, nós que criamos sentidos e limites dentro destes, pois o homem é “livre” por natureza. O Estado, o grande delimitador, por meio de seu Leviatã, serve para evitar a guerra declarada dos indivíduos, exatamente porque os sentidos e consequentes interesses são múltiplos. Só que ele, assim como o pai, nem sempre agrada a totalidade dos seus filhotes ou subalternos, pela natureza das relações: é impossível fazer um feijão agradável ao mesmo tempo para quem tem problema de pressão alta e para alguém que faz questão de muito sal - e faz questão porque é gostoso! Sob a égide da Lei, as coisas são não como todos querem que seja, são antes resultado do conjunto de forças existente – e você sabe, há uns mais fortes que outros. Em todos os cantos, gregorianos ou desafinados.

Uma voz me chama. Não tem nada de Razão, não quer convidar Stuart Mill à conversa. Dou ouvido porque cabe a mim, cabe em mim, porque é particular, porque não se vive sem afeto, sem desejo. Ela diz Oi, amor, já sabe com que roupa vai no aniversário de casamento da minha vó? Ela quis dizer dos meus avós, mas a avó é de tal maneira imperativa, que a festa parece ser mais dela – mesmo que a fortuna da vida não tenha lhe feito muito chegada aos sorrisos e celebrações, porém às regras. Eu não queria ir, amor, sinceramente. Vou por você – viu, leitor, você pode não ter gostado muito da pontuação com déficit de aspas neste parágrafo, só que eu que mando aqui, eu que tenho a caneta na mão. Mas, por favor, seja todo ouvidos, olhos. Sentidos!

A cerimônia de bodas de ouro dos avós dela vai ser na igreja que ela frequentava, onde a família ainda bate ponto semanalmente, lugar crucial na decisão dela entre a racionalidade material e o dogma metafísico ou, convenhamos, eu e a religião. É que olho para o céu e não avisto algo além de nuvens – às vezes, garças. A família dela não gosta disso. A igreja não gosta disso. Mas a família gosta de mim, sou um cara legal. Vou pro inferno – tô levando ela junto -, mas sou. E eles... bem, eu respeito, cada qual com suas necessidades do estômago e das fantasias, só não aceito que queiram determinar meus caminhos dessa maneira. Cito sabe-se lá quem, sem a mínima defesa da propriedade intelectual: “O horizonte supremo da ética é não respeitar as ilusões do Outro”.

É aí que reside a dialética [sem travessões] dessa historinha. Vamos trocar uma ideia, mesmo que eu não escute vocês, no melhor estilo Sócrates e Glauco, o grande escada da Filosofia – diria puxa-saco, mas coitado. Existe um fato, do qual não fugimos: o Universo existe antes de nós, enquanto indivíduos. E, dentre tantas coisas dele, antes de nós, decerto vieram nossos pais. Nós, eu e você, só existimos porque antes havia nosso pai e nossa mãe e, para que existamos, consumaram a relação sexual, não interromperam o coito, um espermatozoide do pai fecundou o óvulo da mãe, não houve aborto, aconteceu um parto bem sucedido. Se você é minimamente esperto, sabe que a relação sexual dos pais não era suficiente para garantir nosso nascimento, uma vez que existe um sem-número de outros fatores capazes de interferir. Daí, concluímos que não escolhemos nascer, que alguém traçou esse caminho por nós e, tomando isso como exemplo, deduzimos que mesmo depois de nascermos, uma vez que somos envolvidos numa rede gigante de acontecimentos, influenciamos pessoas e coisas no Universo assim como ocorre o contrário. Por isso, as aspas na palavra 'livre' no começo do texto: não existe Liberdade plena, só a sensação dela, somos sempre causa e efeito. Meus caminhos, minhas histórias, são guiados e escritos com mãos incontáveis e inimagináveis – contudo, jamais invisíveis.

Voltemos para a festa. Estamos na festa. Mas aperta o FF, porque esses ritos são ora desinteressantes, ora intermináveis e incabíveis numa diminuta crônica. Pronto, paremos aqui. Próximos ao final do evento não só familiar como religioso, Julya, minha Ela, foi chamada para acompanhar o pessoal na cantoria. Me olha, se indaga e vai. Faz parte à contragosto, parte por amor aos avós; parte saudosista da época sem questionamentos à religião, parte feliz por não ser subserviente a dogmas impalpáveis.

De alguma maneira, ela cabia ali. Contudo, para subir ao palco, teve de soltar minhas mãos. Afinal, não tinha lugar pra mim lá em cima, do mesmo modo que não tinha para a igreja dentro de mim. Tal paradoxo, para ela, só não se efetivava em contradição por se distanciar do cotidiano, uma vez que não haveria cobrança posterior ou mesmo temor por punições divinas. A cena fora, então, conciliável.

Saímos de lá em tempo, fomos pra Lapa. Não há pecado algum nisso. Não há pecado algum. Cercados de amigos, de gente esquisita, estranhos, de uma massa um tanto amorfa. Muita coisa pra ver, muita coisa a fazer, poucos parágrafos restantes para descrever – então, corto a rima e faço da introdução, do miolo e do desfecho do passeio, algo insignificante em absoluto. Quero apenas uma cena.

No meio dessa multidão, de tantos caminhos, Julya, com nome próprio, um cado menos minha, solta minha mão. Não por conclusão lógica, mas desejo de liberdade. Certa vontade de exibicionismo – que também tenho, não é segredo – somada à negação veemente de ser submissa. Eu, sistemático e receoso de uma eventual confusão, peço que não me solte. Ela não atende, acha que quero dominar seus passos. Brigamos. Dizemos o indizível. Passa tempo, e um cara passa a mão em uma de nossas amigas. É ridículo que tenha servido de exemplo, é absurdo que a ameaça de algo tão esdrúxulo seja cultural, mas é assim que é – e assim não deve ser.

Calma, tudo está em calma. Mas, senhores, a paz é a vitória de um lado da guerra. Seja qual for a relação, para que haja conciliação, existe alguma força – da metralhadora de balas ou de palavras. E no amor não é diferente. Para que ele exista, é preciso haver ao menos duas vozes – quem sabe, uma terceira... ou quinta -, quatro ouvidos, ora igreja, ora juntinhos na Lapa, e força, mas não do grilhão, decerto do laço, a força do um mais um é igual a um. Um namoro, uma namoradinha, tão dispensável para o estômago, se faz irremissível pela fantasia de que, se é pra escrever a própria história em co-autoria, que não vivamos na melancolia da falta de sentido ou propósito de viver, mas percebamos a quantidade incontável de coincidências absolutamente improváveis para que estejamos lado a lado – não porque assim tem que ser por ordem de alguém, sim porque assim queremos e temos o direito. Vem, meu amor, me dá a mão?

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