"Não podemos deixar de nos indignar com as injustiças", diz líder comunitária de Heliópolis

Moradores da maior favela de São Paulo, localizada na zona sul, contam como funciona o Observatório da Quebrada, uma espécie de censo da comunidade, e veem com esperança a iniciativa do governo de reagir com investimentos nas periferias depois da tragédia de Paraisópolis

Antonia Cleide Alves
Antonia Cleide Alves (Foto: Douglas Cavalcante/Comunicação UNAS)
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247 - Em participação na TV 247 juntamente com o ex-ministro Aloizio Mercadante, moradores de Heliópolis e lideranças de movimentos populares da comunidade falaram dos projetos que tocam e do Observatório da Quebrada, uma espécie de censo na maior favela da capital paulista.

A presidenta da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (UNAS), Antonia Cleide Alves, contou um pouco do que é morar em Heliópolis e dos relatos que ouve de violentas abordagens policiais na região. Recentemente, a Polícia Militar promoveu a morte de nove jovens que estavam em um baile funk na segunda maior favela de São Paulo, Paraisópolis. 

“Para a gente que mora em favela - eu tinha 6 anos de idade quando fui morar em Heliópolis - é muito difícil porque tudo é para criminalizar, tudo é para excluir. No nosso país não cabe mais essa fala, não cabe mais a polícia entrar de qualquer jeito na comunidade, não cabe a gente ser tratado como qualquer coisa. Em Heliópolis e Paraisópolis, e em tantas outras favelas, a gente quer ser tratado como cidadão. A nossa luta sempre foi com que Heliópolis fizesse parte do bairro, a nossa luta foi sempre por direitos”.

Ela chamou a atenção para o fato de que as ações policiais nas favelas não são como as ações em bairros de classe média, são mais violentas. “Em todas as favelas e zonas periféricas é dessa forma as abordagens. Quando um governador ou um presidente vem e fala: ‘não, é isso mesmo, tem que entrar dessa forma’. Isso é uma coisa que a gente não pode aceitar na sociedade, a sociedade achar que isso é natural. Nós da favela não achamos que isso é natural, não é natural a forma como abordam um jovem nosso ou qualquer pessoa e a forma como abordam outra pessoa, entrar no baile funk de uma forma e no outro baile entrar de outra forma”.

Cleide Alves pontuou a importância de continuar a se indignar com as injustiças. “A gente não tem que se conformar com as injustiças. Na minha vida tenho aprendido que o ser humano vai perder muito que ele imaginar que ele é melhor que o outro, que vai se fechar com medo do outro. A gente vê Heliópolis dessa forma, a gente que integrar com o bairro, integrar as pessoas. Esse sentido da solidariedade, da preocupação com o outro, essa questão da empatia, de a gente se indignar com a injustiça o ser humano não pode perder”.

O coordenador do Observatório da Quebrada, Reginaldo José, explicou que a criminalização da periferia não ocorre somente pelos bailes funk, como aconteceu em Paraisópolis. Ele disse ainda que os bailes precisam ser alvos de políticas públicas que os tornem mais seguros, impedindo, por exemplo, o acesso facilitado ao álcool e drogas. “Quando a gente fala na questão do baile funk e a criminalização, a gente tem que entender a criminalização não é só em relação ao baile funk, e da periferia em geral. A gente já vem debatendo alternativas à população jovem de Heliópolis, contrapondo exatamente o que acontece no baile funk. O baile funk é uma alternativa que os jovens encontraram para poderem se divertir, poder namorar, fazer novas amizades e é feito na rua. Na rua tem muita coisa bacana, tem muita coisa legal, mas também tem muita coisa negativa. O jovem quer se divertir e ele tem esse direito, se a gente não cria políticas públicas que possam oferecer ao jovem essa diversão, eles vão fazer da maneira que eles encontrarem”.

O doutorando da UFABC (Universidade Federal do ABC) Aluizio Marinho, coordenador técnico e professor no Observatório da Quebrada, orienta pesquisas de jovens moradores de Heliópolis. Ele contou dados interessantes sobre a relação dos jovens da comunidade com os bailes, como por exemplo o fato de que 75% dos adolescentes que relataram já terem ido ao baile afirmarem que presenciaram violência policial no evento. “O projeto do Observatório de Heliópolis, que se chama “De Olho na Quebrada”, é também um processo pedagógico. São sete jovens que produzem as pesquisas e ao mesmo tempo as pesquisas temáticas são levantadas a partir das demandas desses jovens. O primeiro exercício que a gente fez com eles foi o mapa afetivo, para eles pensarem o que é o meu bairro, qual esse lugar que eu vivo? Curiosamente, a questão do baile, do fluxo, do pancadão surgiu em tofo os mapas afetivos, tanto como espaço de lazer quanto de espaço de conflito, do barulho, do abuso do álcool e das drogas”.

“A gente resolveu fazer pesquisa sobre o baile. Algumas coisas que a gente levantou: que algumas pessoas que vão ao baile são de fora, o baile é uma centralidade; oito em cada dez jovens de Heliópolis já foi ao menos uma vez no baile; desses jovens que já foram ao baile, 75% já presenciou algum tipo de violência policial”, complementou.

Inscreva-se na TV 247 e assista à entrevista na íntegra:

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