Imigrantes são alvo de pesquisa para ações de controle da tuberculose

A pedido da Organização Mundial da Saúde, estudo conduzido pela Universidade Federal do Espírito Santo está avaliando as condições de moradia e saúde de estrangeiros para elaboração de políticas públicas voltadas ao controle da doença

Radiografia de pulmão
Radiografia de pulmão (Foto: Reprodução)
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Cristiane Bomfim, da Agência Einstein - Para desenvolver políticas públicas para o combate e tratamento da tuberculose entre estrangeiros que vivem no Brasil, pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) apresentarão nos próximos dias à Organização Mundial da Saúde (OMS) uma avaliação epidemiológica com imigrantes que vivem nas capitais Boa Vista, Curitiba, Manaus e São Paulo. Principais destinos de imigrantes, estas cidades têm registrado aumento no número de refugiados, que na maioria das vezes vivem em condições propícias para a transmissão da doença, como abrigos e alojamentos.

“Nos últimos três anos, os números referentes à tuberculose têm aumentado e sabemos que os casos se concentram em grupos vulneráveis, como migrantes, índios, pessoas em situação de pobreza, sem moradia, alimentação e condições de higiene adequadas”, afirma Ethel Maciel, pesquisadora e enfermeira com pós-doutorado em Epidemiologia. 

O estudo conduzido por ela foi dividido em três fases. Na primeira, foram analisadas todas as informações já existentes sobre os imigrantes nestas cidades, tais como quantidade, procedência, situação de moradia e saúde. Na segunda etapa, a equipe de pesquisadores foi a campo para realizar o teste tuberculínico nos estrangeiros. O exame identifica a presença da Mycobacterium tuberculosis bactéria da doença no organismo. Por último, foram realizadas entrevistas eletrônicas com profissionais da saúde para entender os desafios do atendimento desta população em Manaus, que segundo dados mais recentes (2019) do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA) somam 15.447 pessoas. De acordo com os dados, Boa Vista tem 46.638 imigrantes. 

Tanto em Manaus quanto em Roraima os imigrantes são, na maioria, venezuelanos. A imigração se intensificou a partir de 2017 com o agravamento da crise econômica, política e social naquele país. “Isso trouxe um impacto muito grande nas cidades do ponto de vista de saúde, educação, trabalho. Outro componente é que muitos deles são da etnia indígena warao. Não entendem português e espanhol e estão em situação de mais vulnerabilidade. É preciso entender a situação real para poder desenvolver uma política pública de saúde”, explica Ethel. Em São Paulo e Rio de Janeiro, os imigrantes mais vulneráveis e com mais risco de infecção por tuberculose são os bolivianos e os haitianos. Em Curitiba, são os sírios.

Os resultados da pesquisa ressaltam as diferenças de prevalência dos testes tuberculínicos entre as cidades estudadas. Em Manaus, por exemplo, 46% dos estrangeiros submetidos ao teste tiveram diagnóstico positivo para a presença da bactéria no corpo, o que não caracteriza que a doença esteja ativa. Em Curitiba, o percentual foi de 28% e em Boa Vista, 23%. Para entender os números é importante conhecer a situação de moradia dessas pessoas.

Em Boa Vista e Manaus 96,7% dos imigrantes viviam em abrigos ou albergues no momento das entrevistas. Em Manaus, o percentual era de 95,6%. Os locais têm, no geral, características que facilitam a transmissão da tuberculose: grande número de pessoas convivendo, pouca ventilação e condições ruins de higiene. 

“A partir da interiorização e saída dessas pessoas dos abrigamentos da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) e da operação acolhida nas cidades de Manaus e Boa vista, essa população se torna ainda mais vulnerável, com dificuldade de abordagem em locais fixos, ficando reservado aos grupos religiosos, os principais apoios sociais para essa população. Essa condição social impõe às pessoas refugiadas e migrantes condições ainda mais fragilizadas”, conta a pesquisadora.

O estudo verificou ainda que metade dos imigrantes está desempregada e a maioria afirmou ter recebido auxílio governamental no auge da pandemia pelo novo coronavírus. Cerca de 30% dos investigados tiveram Covid-19.

Dificuldades para controle da tuberculose

Idioma, cultura diversificada, com uso de chás e plantas medicinais, falta de entendimento de que o Brasil tem o Sistema Único de Saúde (SUS) que oferece atendimento universal de saúde inibem a procura por atendimento médico e a educação a respeito da tuberculose neste público. 

“São muitos imigrantes em situação de vulnerabilidade. Temos de ter cuidado para afastar o preconceito e dar visibilidade ao assunto, que é uma questão de saúde pública. Precisamos melhorar a saúde deles para melhorarmos a de todos também. Eles circulam, trabalham, convivem com outras pessoas e a doença pode se espalhar”, diz Ethel.

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