Por que o aumento de mortes de leões-marinhos por cânceres virais pode ser um risco para a saúde humana?

Pesquisa aponta uma alta exposição desses animais a poluentes oceânicos

Leão-marinho
Leão-marinho (Foto: Mike Blake/Reuters)
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Mariana Nakajuni, da Agência Einstein - Na natureza, existem animais que atuam como “sentinelas”, ou seja, são capazes de indicar a saúde do ecossistema e alertar os cientistas sobre possíveis danos ao meio ambiente. Um novo estudo desenvolvido pelo Marine Mammal Center, instituição na Califórnia que trabalha pela conservação dos oceanos, mostra que o aumento significativo das mortes por cânceres virais em leões-marinhos-da-califórnia (Zalophus californianus) pode ter relação com o bem estar humano.

Uma das principais razões apontadas para esse crescimento é a exposição a toxinas no ambiente. As análises, publicadas no periódico Frontiers in Marine Science, utilizaram dados coletados ao longo de 20 anos em 394 leões-marinhos atendidos pelo Marine Mammal Center. Os resultados mostram que poluentes no oceano não apenas causam câncer nesses animais, mas também podem acelerar a probabilidade de humanos desenvolverem cânceres virais. "As décadas examinando essa doença mortal claramente mostram que o meio ambiente marinho está em apuros e que precisamos encontrar soluções para proteger a nossa saúde coletiva”, afirma Pádraig Duignan, patologista chefe da instituição e um dos autores do estudo.

Os pesquisadores apontam que é importante compreender as possíveis implicações do câncer em leões-marinhos para a saúde humana, já que compartilhamos a área costeira e alguns tipos de frutos do mar com esses animais. Eles enfatizam que a prevenção da contaminação do ecossistema deve ser aprimorada para proteger tanto a saúde humana quanto a vida animal. 

Embora o câncer seja raro em mamíferos selvagens, os leões-marinhos possuem a prevalência mais alta para um único tipo de câncer entre todos os mamíferos, incluindo os seres humanos. Desde que o câncer foi descoberto nesses animais, em 1979, entre 18% e 23% dos leões-marinhos adultos que foram admitidos no Marine Mammal Centermorreram por conta da doença. 

Os cânceres mais encontrados em leões-marinhos são do tipo urogenital, como o de próstata, rim e bexiga, que podem ser fatais por conta da metástase generalizada, em que o tumor se espalha para outras partes do corpo. O principal fator para a ocorrência das células cancerígenas é a infecção por um herpesvírus, que provavelmente é transmitido no ato sexual, já que é mais comumente encontrado no sistema reprodutivo de adultos. A probabilidade de desenvolvimento de câncer era 43 vezes mais alta em leões-marinhos que foram infectados pelo vírus.

No entanto, os cientistas também descobriram que quanto maior a concentração de determinados compostos químicos na gordura do animal, maiores são as chances do desenvolvimento da doença. A exposição dos leões-marinhos a esses poluentes acontece logo nos primeiros estágios da vida, com o acúmulo das substâncias no útero, através da placenta, e no leite. Para os autores, os produtos químicos podem levar à proliferação desordenada das células tanto de forma direta, causando danos no DNA, quanto indiretamente, suprimindo a resposta imune do organismo.

Os níveis de toxinas encontrados nos animais examinados estão entre os mais altos já registrados entre todos os mamíferos marinhos. O estudo aponta que esses compostos provavelmente vêm de resíduos industriais despejados na costa da Califórnia nos anos 1970, antes de o governo dos Estados Unidos proibir a produção e uso de poluentes persistentes, que resistem à degradação química e biológica. Duignan diz que “embora alguns dos contaminantes encontrados na gordura [dos leões-marinhos] estejam fora de uso há anos, esses elementos geradores de câncer permanecem no ambiente por muito tempo e causam estragos em animais que se alimentam na costa, como os leões-marinhos”.

Para ele, o oceano está soando um alarme alto e claro por meio dessas espécies-sentinelas. “Nós precisamos continuar essa importante pesquisa e colaborar com os oncologistas para encontrar padrões que ajudarão a descobrir a ligação entre nós e os leões-marinhos”.

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