Funcionários fantasmas são identificados nos 77 órgãos do Rio

Auditoria do governo do Rio aponta servidores sem registro de presença, login ou acesso ao SEI em toda a administração estadual

Cidade do Rio de Janeiro (RJ)
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247 – O governo do Rio de Janeiro identificou indícios de funcionários fantasmas em todos os 77 órgãos da administração estadual, a partir de uma auditoria da Controladoria Geral do Estado (CGE) que cruzou dados de acesso físico, uso de computadores e movimentação no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), plataforma usada para tramitação e assinatura de documentos oficiais. O levantamento, iniciado no fim de março, classificou como casos de “alta criticidade” servidores comissionados que não registravam passagem por catracas, não faziam login nas máquinas da repartição e não acessavam sistemas internos, segundo o jornal O Globo.

Parte dos exonerados tinha vínculos políticos com integrantes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), com a gestão anterior ou com ex-titulares de secretarias estaduais. Desde 23 de março, a administração do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, já demitiu mais de 4.283 ocupantes de cargos comissionados. A economia estimada até o fim do ano é de cerca de R$ 230 milhões, valor que ainda pode aumentar com a conclusão das auditorias.

Entre março e maio, 1.767 servidores foram desligados sob suspeita de atuarem como fantasmas, o que representa redução mensal de quase R$ 15 milhões na folha. A varredura começou pelas secretarias da Casa Civil, de Governo e pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), em uma etapa interna tratada como “laboratório”. Depois, o processo foi ampliado para toda a estrutura do Executivo estadual, com participação de auditores da CGE e coordenação do GSI.

O secretário de Governo e coordenador do GSI, delegado Roberto Lizandro Leão, defendeu a adoção de controles mais rígidos para evitar novas irregularidades. “Pontos eletrônicos, mecanismos de acesso às instalações e registro de login nas atividades públicas restritas aos funcionários seriam medidas imprescindíveis para prevenir o que diagnosticamos nos relatórios das auditorias”, afirmou.

Um dos casos citados é o de Marcelo Cabral D’Almeida, exonerado da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas). Ele estava lotado na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, com salário de R$ 10.903,66, e aparece na lista de “alta criticidade”. AO jornal O Globo, Marcelo afirmou que sua atuação era majoritariamente externa, com visitas técnicas a praças e áreas públicas da Zona Oeste do Rio, como o Pico da Pedra Branca.

“Ficava na rua, mas, frequentemente, assinava o ponto”, disse. Segundo ele, suas atividades incluíam registros sobre conservação, resíduos, poda técnica, degradação e arborização. “Fazia registros de conservação do local, acúmulo de resíduos, necessidade de poda técnica, degradação, arborização”, acrescentou.

Questionado sobre quem era seu superior na secretaria, Marcelo afirmou não se lembrar do nome do gestor imediato. “Nem lembro o nome da pessoa no primeiro momento, tipo um supervisor”, declarou. Ele admitiu ainda que chegou ao cargo por indicação do ex-secretário Bernardo Rossi. “Foi via Bernardo Rossi que tudo começou. Nós nos conhecemos em um evento, e ele se interessou para que eu fizesse esse trabalho em uma área que eu conheço bem”, afirmou.

Marcelo reconheceu, no entanto, que não tem formação na área ambiental, requisito que, segundo ele, não teria sido exigido. Ele é filho de Marcelino Almeida, ex-vereador e ex-comissionado do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), também desligado da pasta em abril.

A Seas concentrou alguns dos principais achados da auditoria. Duas subsecretarias foram extintas após a exoneração de todos os seus funcionários. Na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas, eram 14 cargos. Já na Subsecretaria de Conscientização Ambiental, foram eliminadas 37 vagas. A estrutura era comandada pela vereadora de Campos dos Goytacazes Thamires Rangel (PMB), filha do deputado estadual Thiago Rangel (PMB), preso em maio sob suspeita de envolvimento em fraudes na Secretaria estadual de Educação.

Outros ex-comissionados apresentaram justificativas semelhantes, alegando trabalho externo. Allen Carvalho, líder comunitário na Barreira do Vasco, na Zona Norte do Rio, recebia salário líquido de R$ 6.040,64 e tinha carga horária de 40 horas semanais na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas. Ele afirmou que batia “ponto manual”, mas não detalhou suas atribuições. “Eu não tive nem tempo de trabalhar direito, fiquei dois meses lá. Cumpri expediente, meu trabalho era na rua, era trabalho externo. Aí, quando veio esse novo governador, fez as exonerações”, disse.

Na Casa Civil, a auditoria já levou à exoneração de aproximadamente 1,2 mil pessoas. Subsecretarias inteiras foram extintas, entre elas a Adjunta de Projetos Especiais, com 32 desligados, além das áreas de Gastronomia e de Ações Comunitárias e Empreendedorismo, cada uma com 11 servidores nomeados.

Os relatórios apontaram situações consideradas especialmente graves. Na Seas, havia 128 pessoas lotadas apenas no gabinete do secretário; desse total, 110, ou 86%, nunca teriam acessado o sistema interno. Na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), a auditoria identificou 150 servidores comissionados, mas apenas 90 estações de trabalho disponíveis.

Outro caso citado envolve Marcus Wilson Von Seehausen e seu filho, João Antonius Von Seehausen, ambos exonerados. Marcus, que estava lotado na Seas e recebia salário líquido de R$ 12.212,72, não teria registros de login em computadores da pasta nem de acesso ao local de trabalho, segundo fontes do governo ouvidas pelo Globo. Ele tem histórico político em Petrópolis e já atuou como secretário municipal de Administração e Recursos Humanos, além de chefe de gabinete do ex-deputado estadual Marcus Vinicius Nescau (PTB), preso na Operação Furna da Onça.

João Von Seehausen, advogado criminalista e suplente de vereador em Petrópolis pelo MDB, foi nomeado para a Secretaria da Casa Civil após a eleição de 2024, com salário líquido de R$ 10,3 mil. À reportagem, ele negou ser fantasma, disse que assinou ponto no dia em que foi desligado e afirmou que atuava em campo, mas não autorizou o uso de suas declarações na matéria.

Em São João de Meriti, a reportagem localizou Sintilaine Alessandra de Souza Silva, nomeada entre março e maio na Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas. Ela fez campanha para a família Vieira na cidade e foi exonerada após a auditoria. Questionada sobre suas atribuições e sobre o salário recebido, afirmou apenas: “Não tenho nada a declarar. Estou doente”.

A Seas também abrigava Bruna Castello Branco Costa Motta, conhecida nas redes sociais como “blogueirinha de São Marcos” e “missionária digital”. Ela esteve lotada na secretaria entre janeiro de 2025 e maio de 2026 e foi classificada como caso de “alta criticidade”. O cargo ocupado por Bruna era de livre nomeação, e os documentos analisados não detalhavam as funções que ela exercia. No LinkedIn, ela se apresentava como “Coordenadora de marketing no governo do Estado do Rio de Janeiro”, em cargo de tempo integral no mesmo período.

Até agora, 60 dos 77 órgãos estaduais já passaram pela auditoria geral nas últimas semanas. A projeção do governo é que as pastas auditadas gerem economia anual de R$ 355 milhões, considerando salários, férias e décimo terceiro. Segundo um auditor ouvido sob reserva, a análise também leva em conta critérios de “bom senso”, já que podem existir situações específicas que dependam de justificativa formal dos gestores.

Cada órgão recebeu um relatório individualizado com as inconsistências encontradas. Os secretários da Casa Civil, Flávio Willeman, e de Governo, Roberto Leão, deram prazo para que os gestores apresentem suas listas de servidores fantasmas e promovam as exonerações. Os desligados entram em uma lista especial e ficam impedidos de retornar ao órgão de origem.

As maiores reduções proporcionais de comissionados foram registradas nas secretarias de Trabalho, com corte de 78,6%; Esporte e Lazer, com 75,6%; Turismo, com 73,3%; e Cultura, Tecnologia e Inovação, com 65,6%.

Em nota, o ex-secretário Bernardo Rossi negou ter nomeado servidores fantasmas. “O ex-secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade Bernardo Rossi nega de forma categórica a alegação de que servidores nomeados durante sua gestão fossem ‘fantasmas’. Trata-se de uma acusação grave, que exige provas individualizadas e não pode se sustentar em suposições ou generalizações”, afirmou. Segundo ele, os servidores exerciam atividades vinculadas à secretaria, muitas delas “em campo, in loco, junto aos municípios”.

A vereadora Thamires Rangel também contestou as suspeitas e afirmou, por meio de sua assessoria, que sua atuação na subsecretaria foi marcada por “dedicação e compromisso para apresentar resultados concretos”. Já o prefeito de São João de Meriti, Léo Vieira, e o deputado federal Luciano Vieira negaram ter indicado nomes para cargos no governo estadual. “O prefeito Léo Vieira e o deputado federal Luciano Vieira esclarecem que não realizaram qualquer indicação das pessoas mencionadas para cargos no Governo do Estado. Ambos desconhecem as nomeações e não têm qualquer participação na composição da referida subsecretaria”, disseram em nota.

Também citado por aparecer em fotos com Bruna Castello Branco, Márcio Pacheco afirmou que não a conhece e que registros feitos em eventos religiosos públicos não indicam vínculo pessoal ou político. “A fotografia provavelmente foi feita no contexto de um evento público, como ocorre rotineiramente com inúmeros participantes que pedem para registrar o momento”, declarou.

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Cortes 247

3 responses to “Funcionários fantasmas são identificados nos 77 órgãos do Rio”

  1. O ESTADO DO RJ ERA UMA MÁQUINA ELEITORAL, NÃO TINHA FINALIDADE DE SERVIR OS CIDADÃOS QUE PAGAVA IMPOSTOS.
    NO BRASIL INTEIRO ESSE ESQUEMA FUNCIONA, COM MAIS OU MENOS INTENSIDADE.
    KD O MINISTÉRIO PUBLICO DAS CIDADES??? OU OS SEUS TAMBÉM ESTÃO NAS TETAS???

  2. OS MP ESTÃO VENDO TUDO ISSO ACONTECENDO E ESTÃO NA PRAÇA DANDO MILHO AOS POMBOS???

  3. Avatar de Paulino Camargo
    Paulino Camargo

    Isto ai não é só no Rio, mas, em todo Brasil. O cidadão estudava no Rio tinha um colega de quarto e dividiam até o pão com salame. Se formaram e cada um tomou seu rumo. Mas, para um deles foi mais difícil e ele ficou sabendo que seu colega depois de dez anos havia sido eleito Governador do Amazonas. Pensou comigo mesmo: Vou até l[á para ele me conseguir um bom emprego. Foi e chegando lá solicitou uma audiência com seu ex colega governador. O mesmo o recebeu muito bem com abraços e lembranças duríssima na Escola. Entãoele disse ao Governador: Vim aqui para lhe solicitar uma ajuda,um cargo qualquer (desde que fosse bem remunerado). O governador pensou, pensou e disse: Vou nomeá-lo tocador de piano e ele retrucou: mas amigo e nem sei tocar piano! O governador respondeu: Não tem problema, nós também não temos piano! A maior máfia que existe, todos nos sabemos que é as nomeações indicadas pelos senadores: dificilmente um pedido não é concedido. (Dizem a boca pequena)

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