Da advocacia à tatuagem ritualística: a virada de carreira de Drica Tatu depois da maternidade 

Adriana Belcastro encontrou na arte um caminho para construir autonomia financeira e ajudar mulheres a ressignificarem suas próprias histórias

Adriana Belcastro
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Beatriz Bevilaqua, 247 – Há quem enxergue a tatuagem apenas como estética. Para Adriana Belcastro, conhecida como Drica Tatu, cada traço representa um rito de passagem. Em seu estúdio, no Rio de Janeiro, o desenho é apenas a etapa final de um processo que envolve escuta, simbolismo, espiritualidade e transformação pessoal.

Tatuadora ritualística, ilustradora e pesquisadora da simbologia feminina, Drica construiu um modelo de negócio que une arte e acolhimento. O trabalho nasceu justamente quando sua própria vida atravessava uma das maiores mudanças: a maternidade, acompanhada de uma depressão pós-parto, que a levou a abandonar uma carreira consolidada na advocacia para recomeçar do zero.

“A tatuagem entrou na minha vida junto com a maternidade, junto com a espiritualidade. Passei por todos esses processos de uma vez, em razão de uma depressão pós-parto. Entendi que não dava mais para seguir da maneira como conduzia minha vida profissional”, afirma.

Além do trabalho artístico, Drica compartilha reflexões sobre feminismo, maternidade e espiritualidade em seu perfil no Instagram, @drica.tatu, onde reúne uma comunidade interessada em processos de transformação pessoal.

Quando a tatuagem deixa de ser estética e passa a contar histórias

O diferencial do trabalho de Drica está na forma como cada projeto nasce. Antes da agulha, há uma conversa profunda sobre os ciclos vividos por cada cliente. “Costumo dizer que transformo histórias em tatuagem”, resume.

Muitas mulheres que chegam até seu estúdio estão vivendo mudanças importantes como um divórcio, a maternidade, um luto, uma transição de carreira ou a conquista de um objetivo significativo. Segundo ela, a tatuagem funciona como uma forma de integrar experiências que já foram vividas emocionalmente.

“Recebo constantemente histórias lindas e dolorosas. Meu trabalho é acessar esse lugar simbólico e traduzir essas experiências em imagens que ajudem essa pessoa a integrar, no corpo, aquilo que ela já viveu na alma.”

Da advocacia ao empreendedorismo

A trajetória empreendedora começou onde poucos imaginariam. Antes de viver exclusivamente da arte, Drica era advogada. Embora gostasse da profissão, sentia que aquele caminho já não fazia sentido, especialmente após o nascimento da filha.

“Quando virei mãe, percebi que precisava de uma rotina conduzida por mim. Não romantizo o trabalho autônomo, porque existem muitos altos e baixos, mas ele me deu a possibilidade de construir uma carreira enquanto cuidava da minha filha e de outros aspectos importantes da minha vida”, conta.

A entrada na tatuagem aconteceu quase por acaso, ainda durante o processo terapêutico que a ajudou a atravessar a depressão pós-parto. Incentivada a encontrar um hobby, começou fazendo encadernação artesanal e ilustrações, até que uma amiga perguntou se poderia tatuar um de seus desenhos. A pergunta despertou outra: por que não aprender ela mesma?

Sem encontrar espaço em estúdios tradicionais (realidade que atribui, em parte, às dificuldades enfrentadas por mulheres mães nesse mercado) decidiu seguir sozinha. “Muita gente dizia que eu tinha sido muito corajosa por começar sozinha. Mas não havia outra opção. Era isso ou nada”, relembra.

A ausência de referências acabou se transformando em vantagem. “Como não passei pelos grandes estúdios nem pelos movimentos tradicionais da tatuagem, consegui desenvolver um jeito próprio de atender e de trabalhar. Isso trouxe desafios, mas também fez com que meu trabalho se tornasse autoral.”

Mesmo com demanda de clientes de outros estados, Drica optou por não expandir o atendimento para fora do Rio de Janeiro. A decisão combina questões práticas, de maternidade, e uma visão específica sobre o que torna sua experiência completa.

Empreender também é criar liberdade

Para Drica, empreender nunca significou apenas abrir um negócio. Foi uma maneira de viver de forma coerente com seus próprios valores e romper com modelos profissionais que, segundo ela, exigiam adaptações constantes de comportamento e aparência.

“O empreendedorismo me trouxe muita liberdade em relação à minha autoexpressão. Atendo principalmente mulheres, escuto histórias muito diferentes e isso enriquece profundamente minha vida. Tenho uma riqueza que vai muito além do dinheiro. É uma riqueza simbólica”, afirma.

Ela define a tatuagem como “a arte do encontro”, justamente porque cada atendimento cria vínculos duradouros entre artista e cliente.

“Às vezes penso na quantidade de mulheres que carregam minhas artes para sempre. Posso até não estar mais aqui um dia, mas meus desenhos continuarão circulando. Isso é muito bonito.”

Ao construir um negócio profundamente conectado à própria história, Drica Belcastro mostra que empreendedorismo também pode nascer da vulnerabilidade. A maternidade, a depressão pós-parto e a necessidade de reinventar a própria carreira deixaram de ser obstáculos para se tornarem a matéria-prima de um trabalho que hoje acolhe outras mulheres em momentos decisivos de suas vidas.

Assista a entrevista na íntegra aqui:

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