Opinião

Situação na Câmara é de “equilíbrio catastrófico”

“A verdade é que nem governo nem oposição têm hoje os 342 votos para garantir o quórum de abertura da sessão de quarta-feira para votação da denúncia de corrupção passiva contra Temer.  O quadro aponta para uma situação de ‘equilíbrio catastrófico’, categoria que Antonio Gramasci criou para definir situações em que nenhum bloco da disputa…

Presidente Michel Temer durante pronunciamento no Palácio do Planalto em Brasília 18/05/2017 REUTERS/Ueslei Marcelino
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A verdade é que nem governo nem oposição têm hoje os 342 votos para garantir o quórum de abertura da sessão de quarta-feira para votação da denúncia de corrupção passiva contra Temer.   O quadro aponta para uma situação de “equilíbrio catastrófico”, categoria que Antonio Gramasci criou para definir situações em que nenhum bloco da disputa política tem maioria, gerando consequências desastrosas.  Se o impasse levar à postergação da votação da denúncia por muito tempo, poderá comprometer não apenas as contra-reformas de Temer e outras matérias de interesse do governo mas até mesmo a reforma político-eleitoral que definirá as regras para a eleição presidencial de 2018, que precisam estar aprovadas até o final de setembro.  Num regime parlamentarista, o governo cairia.

Não é verdade, como andou dizendo o ministro-chefe da Casa Civil de Temer, Eliseu Padilha, que cabe à oposição garantir o quórum.  Quem tem verdadeiro interesse na realização da sessão,  para enterrar a denúncia, é o governo.  O problema é que, mesmo tendo votos para barra-la,  pois serão necessários apenas 172, o governo não tem 342 deputados dispostos a dar quórum.  E embora o líder do PT, Ricardo Zaratini, tenha defendido o comparecimento, o PT,   a bancada do PT deve somar-se aos demais partidos da oposição,  optando pela  obstrução, como prevê o deputado petista Paulo Pimenta (RS).

– Nós teremos reunião de bancada amanhã às 15 horas e a tendência clara é a favor da obstrução da sessão. Se dermos quórum, estaremos ajudando o governo. E como eles não terão 342 deputados dispostos ao comparecimento, tudo aponta para o impasse, para este “equilíbrio catastrófico” de que falava Gramsci.

Pimenta avalia que a oposição teria hoje cerca de 180 votos a favor da denúncia. Segundo o levantamento de O Globo, 112 declaram-se contra Temer, e 77 apresentam-se como indecisos. Entre estes últimos, a maioria, na verdade, estaria disposta a votar a favor da denúncia mas não quer se expor agora.  O governo teria cerca de 250 votos, talvez um pouco mais,  embora apenas 196, no mesmo levantamento, declarem voto a favor de Temer. O regimento, entretanto, exige os 342 para a abertura da sessão. Se são necessários 342 para aprovar a abertura das investigações, como exige a Constituição, não faria mesmo sentido abrir a sessão com a maioria simples de 257, como quis o governo.  O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, entretanto, refugou a pressão neste sentido.

Nem é verdade que cabe à oposição garantir o quórum, como disse ao Estadão o ministro Padilha. Ele blefa quando diz que o governo não se esforçará para dar quórum, deixando a denúncia sem votar:  “se a oposição boicotar e não quiser dar quórum no dia 2 , nós vamos defender que o presidente Rodrigo Maia toque a pauta da Câmara independentemente da pendência deste assunto ou não”.  Isso não faz sentido.  Quem precisa liquidar logo com este assunto é o governo. O “paciente com a barriga aberta”, na definição de Rodrigo Maia, é Temer.  Depois, trata-se de um pedido de licença apresentado pelo STF, que não pode ficar sem resposta ou decisão.

Pimenta acha que será muito difícil para o governo conseguir os 342 votos para o quórum porque muitos dos que foram aliciados – à custa de liberação de emendas e outros favores – comprometeram-se apenas a não votar a favor da denúncia. Não se dispuseram a dar a cara a tapas no microfone,  votando contra a abertura de investigações sobre os fortes indícios de que Temer atuou em dobradinha com Rocha Loures numa operação de favorecimento à JBS, que resultou na propina da mala com R$ 500 mil.  Eles foram às bases, eles ouviram os eleitores, eles estão vendo as pesquisas em que a maioria absoluta dos entrevistados reprova por antecipação quem votar a favor de Temer, eles estão com suas caixas eletrônicas abarrotadas de e-mails de eleitores pedindo que votem pela abertura das investigações, que levará ao afastamento temporário de Temer. Uma coisa é não comparecer e não votar, outra é se expor diante do eleitorado.

Daqui a quarta-feira, o governo vai ter que renegociar alguns apoios, convencendo parte dos apoiadores a ir além,  comparecendo à sessão. Isso terá preço, naturalmente, mas Temer já gastou praticamente toda sua munição.  Se o governo não obtiver as 342 presenças, estará explicitando sua fraqueza. Força demonstrará se for capaz de garantir a abertura da sessão e derrotar o pedido de licença do STF.   Se optar por deixar Temer  “com a barriga aberta”, vamos para a situação de equilíbrio catastrófico.

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Cortes 247

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