O governo Bolsonaro é um discurso sem silêncios nem pausas. Não há intervalo para contraponto nem para questionamentos. Muitos menos para a construção de um ponto de vista alternativo, que implicaria em admitir democraticamente que o espaço público é um local de eterna disputa, onde cabe aos brasileiros e brasileiras a palavra final para seus problemas e soluções.
No universo de Bolsonaro, não importa estar certo nem ter razão. Nem é preciso ficar perturbado ao ser flagrado numa afirmação grotesca sobre a fome dos brasileiros, desmentida por uma simples caminhada pelos bairros chiques de São Paulo. Na mentira intencional — como a eterna negação da tortura, que agora alcançou Miriam Leitão — ou na demonstração de ódio racista pelos “paraíbas,” os mesmos nordestinos que, conforme o tuite de uma estudante paulista, em 2010, deveriam ser mortos por afogamento como “um favor a São Paulo”.
O importante é não parar de falar e assim impedir o Outro de se fazer ouvir. Pode parecer simplório mas nem tudo é complexo no personagem. O efeito procurado por esse discurso permanente, total, asfixiante, é tentar impedir o país de refletir — passo necessário para que possa reagir. Nunca é uma fala para um diálogo nacional, necessário em qualquer projeto que pretendesse construir alguma saída positiva para um país, mais desencontrado e peplexo hoje do que na campanha presidencial.
É um discurso para impor, de cima para baixo, ideias que a população rejeita, como a liberação da posse de armas, o enfraquecimento da proteção social, o ataque às universidades públicas, a submissão humilhante a Washington. Bolsonaro dispensa comentários e sabe que o risco de buscar aplausos é abrir espaço para vaias e assobios. Para evitar surpresas desagradáveis, aceita gestos conformados de concordância. Fala sem parar para nos calar pelo excesso de ruído. Isso lhe basta.
Alguma dúvida?
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão