Em um evento recente postado em suas redes, a renomada professora e ativista Kimberlé Crenshaw compartilhou suas reflexões sobre o momento crítico que o mundo enfrenta atualmente, conectando questões sociais, políticas e culturais que têm se intensificado ao longo dos últimos anos. Em sua fala, Crenshaw abordou como a devastação não surge de forma repentina, mas é o reflexo de condições construídas ao longo do tempo, muitas vezes invisíveis até que se tornem incontroláveis.
“A Devastação Não Veio do Nada”
Ao começar sua fala, Crenshaw fez questão de expressar sua gratidão pela oportunidade de participar da discussão presencialmente, sobretudo em tempos de meetings online e apesar do cansaço de uma longa viagem. A ativista se mostrou profundamente engajada na conversa, lembrando a todos que as questões que discutem são mais profundas e interligadas do que parecem. “Voando de um lado da devastação para o outro, não pude deixar de perceber as conexões entre os dois”, disse Crenshaw, destacando o contraste entre os que representam o melhor dos nossos valores, mas agora lutam por empregos, e os que representam as maiores ameaças à justiça social, sendo libertados das prisões.
Para Crenshaw, o cenário atual, em que os direitos e as conquistas sociais estão sendo constantemente ameaçados, é o resultado de anos de ataques sistemáticos. Ela destacou um exemplo crucial: o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, que se recusou a repudiar os Proud Boys, um grupo de extrema-direita, e depois assinou uma ordem executiva que atacava diretamente os princípios de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Lembro que, quando a fala foi feita, ainda não tínhamos visto o passeio dos supremacistas brancos por Washington, D.C. Para Crenshaw, esse foi um momento decisivo, que preparou o terreno para o retrocesso que agora vemos se espalhar pelo país.
O Que Está em Jogo?
Crenshaw chamou atenção para a amplitude do ataque em curso. “Não estão atacando apenas uma forma de pensar. Não é só a história negra. Não é apenas a interseccionalidade ou a teoria crítica da raça. Eles estão atacando toda a infraestrutura que foi construída a partir do movimento pelos direitos civis”, afirmou. Para ela, é fundamental que as pessoas entendam que o que está em jogo não é apenas a preservação de um conjunto de ideias ou marcos específicos, mas sim a própria estrutura da democracia construída ao longo de décadas de lutas.
Isso nos leva à pergunta essencial: como reagir? Como responder a um movimento tão poderoso que tenta reverter as conquistas sociais? A resposta de Crenshaw é clara: “Devemos lutar de forma colaborativa, coletivamente e criativamente.” Ela também enfatizou a necessidade de lutar com a ideia de que as conquistas obtidas ao longo dos anos não podem ser perdidas. A resistência não deve ser apenas uma reação, mas uma ação contínua, fundamentada na recusa de deixar que os avanços sociais sejam apagados.
Resistência e Persistência: O Exemplo dos “Flamethrowers”Ao refletir sobre a história da resistência nos Estados Unidos, Crenshaw fez uma referência importante aos “flamethrowers” (incendiários), uma metáfora para aqueles que persistiram na luta contra os avanços dos direitos civis, mesmo após a Guerra Civil, após a Reconstrução e depois das vitórias como o caso Brown v. Board of Education, que declarou a segregação escolar inconstitucional. “Os flamethrowers não desistiram. Eles nunca desistiram”, disse Crenshaw, questionando o que, hoje, poderia ser a nossa versão dessa resistência. “O que vamos fazer para garantir que não desistimos?”
Essa reflexão coloca em evidência a necessidade de uma resistência contínua e adaptável, que não se limite a uma luta pontual, mas se transforme em uma prática constante e estratégica. A luta pelos direitos civis e pela justiça social não é algo que possa ser conquistado uma vez por todas; é uma batalha diária, que exige persistência e renovação.
A Necessidade de Análise Crítica
Crenshaw também abordou a importância da análise crítica para a construção de uma prática de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) eficaz. “Não podemos ter uma prática de DEI que não seja fundamentada na análise do porquê precisamos de DEI em primeiro lugar”, afirmou, destacando a importância de reconhecer as razões subjacentes aos ataques que estamos sofrendo. Atacar a história, a interseccionalidade e os marcos que sustentam o movimento pelos direitos civis é uma forma de negar o problema, tornando-o invisível. “Não se pode corrigir um problema que não se pode nomear”, disse.
Nesse contexto, Crenshaw lembrou a importância de organizações como o AAKF (African American Knowledge Forum), que se dedicam a fornecer as ferramentas necessárias para identificar as deficiências nas instituições e as lacunas que precisam ser preenchidas para promover uma sociedade mais justa. Segundo ela, é fundamental que cada pessoa e cada organização esteja preparada para nomear as injustiças e os problemas que persistem em nossa sociedade para que possam ser efetivamente combatidos.
A Luta Pela Equidade Nunca Acaba
Kimberlé Crenshaw concluiu sua fala com uma mensagem de união e perseverança. A luta por uma sociedade mais justa e equitativa exige que todos, individualmente e coletivamente, estejam dispostos a se engajar e a resistir ativamente a qualquer retrocesso. Como ela bem disse, “não podemos deixar que o que construímos seja perdido”, e isso só será possível por meio de uma resistência criativa, colaborativa e persistente.
A mensagem central de Crenshaw é clara: a luta por DEI é uma luta pela preservação da democracia e pela justiça social. E, enquanto a resistência continuar a ser uma resposta necessária aos ataques que vemos hoje, ela também é uma chance de fortalecer as bases que sustentam uma sociedade inclusiva para todos.
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