Opinião

Censura, queima de livros e a resistência: Sarah McBride e o legado da luta por Direitos Humanos

O uso de minorias como peças em um jogo político maior é uma estratégia recorrente

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A administração do presidente Donald Trump desencadeou uma ofensiva sem precedentes contra conteúdos relacionados a direitos humanos, justiça social e questões de raça e gênero nas instituições educacionais dos Estados Unidos. Essa cruzada de censuras, que já impacta escolas e universidades, ganhou destaque após a assinatura de uma ordem executiva que proíbe o uso de fundos federais em instituições que abordem temas como “teoria racial crítica” e “ideologia de gênero”, isso no dia 31.01.2025. A medida classifica esses conteúdos como “ideologias anti-americanas” e acusa as instituições de “doutrinar” crianças com conceitos considerados prejudiciais. Além disso, Trump instruiu a secretária de Educação, Linda McMahon, a desenvolver uma estratégia para “eliminar a doutrinação” em um prazo de 90 dias, sob pena de suspensão de financiamento federal.

Esse movimento não é isolado, mas parte de uma tendência crescente de governos conservadores em restringir narrativas que questionam estruturas de poder e desigualdades históricas. No Brasil, uma docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) relatou em carta aos colegas a censura imposta ao seu projeto acadêmico financiado pela Fulbright Specialist Program, uma renomada iniciativa de intercâmbio internacional. Segundo ela, termos como “direitos humanos”, “opressões de gênero, classe e raça”, “crise dos princípios democráticos” e “promoção da justiça social” foram explicitamente proibidos. Expressões relacionadas ao encarceramento em massa, desigualdades crescentes, crise ecológica e violações de direitos civis também entraram na lista de vetos. “Me sinto negociando uma bolsa com um regime ditatorial”, desabafou a professora, comparando a situação à distopia descrita no livro *1984*, de George Orwell. Para ela, a interferência ideológica representa não apenas um ataque à liberdade acadêmica, mas também uma tentativa de silenciar debates fundamentais sobre igualdade, emancipação social e crises globais.

Esse cenário de censura e repressão intelectual ressoa com as palavras de Sarah McBride, congressista trans estadunidense, que, em um discurso recente, levantou questões urgentes sobre identidade, marginalização e resistência política. McBride, em suas palavras, não só aponta os ataques à comunidade trans por parte da administração Trump, mas também evoca a luta histórica contra a opressão, traçando paralelos com a segregação racial e com práticas de censura que marcaram tempos autoritários. Ela disse: “Eles são obcecados. Nós vivemos de graça em suas mentes”, referindo-se aos ataques direcionados à população trans, numa clara alusão a como corpos marginalizados sempre foram vistos como alvos para controle e subordinação.

A obsessão por controlar identidades e corpos, como apontado por McBride, não é um fenômeno novo. Durante a era Jim Crow (1877–1964), mulheres negras eram sistematicamente excluídas de espaços públicos, privadas de direitos fundamentais e vítimas de segregação legalizada. Hoje, esse controle se expande para o discurso e a educação, com a censura acadêmica e a tentativa de apagar conteúdos relacionados à resistência social e à luta por igualdade. A queima de livros e a erradicação de conteúdos desconfortáveis para as elites dominantes, práticas comuns em regimes autoritários ao longo da história, se manifestam agora de maneiras mais sutis, mas igualmente prejudiciais: cortes orçamentários em programas educacionais e a supressão de narrativas que desafiem o status quo.

McBride, ao entrar no Congresso em um momento de “incerteza e medo”, reconhece que o combate às injustiças atuais exige mais do que apenas força bruta. “Temos que lutar com inteligência”, disse ela, trazendo à tona figuras históricas como Rosa Parks, cuja recusa em ceder seu assento em um ônibus segregado foi um ato estratégico de resistência. Para McBride, assim como para Parks, a resistência não deve ser apenas simbólica, mas também pragmática.

O uso de minorias como peças em um jogo político maior é uma estratégia recorrente. McBride alerta que a administração Trump está “usando pessoas trans como peões em seu esforço mais amplo para estripar o governo federal a fim de encher os bolsos dos melhores amigos de Donald Trump”. Esse movimento não é novo, mas remete ao que ocorreu durante a segregação racial, quando a divisão entre brancos e negros foi amplificada para proteger interesses econômicos e sociais de uma minoria poderosa. A censura, as tentativas de apagar a história e a queima de livros sempre foram ferramentas usadas para preservar essas hierarquias, e o controle do conhecimento e das narrativas permanece uma ameaça latente.

Entretanto, McBride se recusa a ser uma vítima. “Eu me recuso a dar a eles esse poder”, afirmou com convicção. Sua postura evoca a memória de mulheres negras, como Ida B. Wells, que enfrentaram todas as barreiras da opressão para desafiar o status quo e lutar por justiça. Assim como Wells, muitas autoras e intelectuais que desafiaram regimes autoritários foram alvos da censura e da queima de livros, pois suas palavras representavam uma ameaça ao controle das narrativas dominantes.

Hoje, a comunidade trans enfrenta desafios cada vez maiores, desde a retirada de recursos federais até a criminalização de cuidados médicos. McBride, assim como a também ativista Erika Hilton, sabe que a luta não será fácil, mas se recusa a permitir que sua identidade seja usada como moeda de troca política. “Eu me recuso a ser usada por eles.”

Essa declaração final encapsula uma verdade universal: a resistência não é apenas sobre sobreviver às adversidades, mas também sobre “reivindicar o direito de existir plenamente”, como afirma Cris Stefanny, ex-presidenta da ANTRA. A luta pela visibilidade, dignidade e igualdade da comunidade trans é parte de uma batalha mais ampla por um mundo mais justo e inclusivo. E, como nos ensinou a história, a luta contra a censura e a manipulação da memória nunca é apenas de um grupo, mas de todos que acreditam em um futuro melhor.

Em tempos de incertezas, as palavras de Sarah McBride servem como um chamado à ação. Para vencer, precisamos olhar para trás, aprender com nossos antepassados e avançar com sabedoria e coragem. Como ela mesma disse, “lutar mais forte” não basta. Precisamos lutar com inteligência – e juntos.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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