Opinião

A Estética da Noite: Boate, Academia ou Igreja?

A noite sempre foi um espaço simbólico repleto de mistérios, liberdade e transgressão, mas também de controle e manipulação

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A noite sempre foi um espaço simbólico repleto de mistérios, liberdade e transgressão, mas também de controle e manipulação. A escuridão que envolve os ambientes noturnos tem se tornado um elemento estratégico utilizado tanto para seduzir como para manipular o comportamento dos indivíduos. No caso das academias de ginástica e das igrejas neopentecostais, dois espaços que à primeira vista parecem ter propósitos bem distintos, observamos o uso de uma estética noturna para criar experiências imersivas que visam maximizar a experiência sensorial e, consequentemente, o engajamento dos indivíduos. Por trás dessa sedutora manipulação, existem elementos que não apenas refletem o oportunismo do mercado, mas também revelam formas de exclusão e marginalização, com destaque para a invisibilidade de pessoas trans nesses espaços.

Espaços Escuros e Estéticas de Manipulação

Seja em academias de ginástica ou em igrejas neopentecostais, a utilização de paredes escuras e iluminação vibrante são comuns para estabelecer uma atmosfera que prende a atenção dos frequentadores. Nos templos neopentecostais, como os observados em megachurches, as luzes coloridas, os strobes e os spots direcionados são usados para criar momentos de êxtase e introspecção. O objetivo dessa estética é fomentar um estado de transcendência religiosa e conexão com o divino, mas também se aproveita da dopamina, substância química ligada ao prazer e recompensa, para criar um ambiente no qual os fiéis se sentem compelidos a participar e consumir a experiência [1][2].

Nas academias de ginástica, o uso de uma iluminação dinâmica e música eletrônica ou hip-hop também faz uso desse conceito de imersão. Paredes escuras e luzes LED coloridas criam um ambiente de festa, tornando o exercício físico mais envolvente. Ao invés de um espaço voltado para a saúde e bem-estar, essas academias muitas vezes são projetadas para maximizar a liberação de dopamina através do ritmo acelerado da música e da energia das luzes [3]. Como resultado, o exercício físico deixa de ser uma prática puramente voltada à saúde e se transforma em uma performance social, intensificando o desejo de “sucesso” e a busca por um corpo ideal. Eu nem vou comentar sobre os intrutores (alguns formados em Educação Física) gritando por 6 horas/dia para manter a clientela.

Esses espaços compartilham uma característica fundamental: eles capitalizam sobre a sensibilidade humana, criando um ciclo de recompensas que mantém o público engajado. No entanto, esse ciclo de consumo de sensações não é isento de críticas, especialmente quando o oportunismo do mercado é colocado em questão. O uso de símbolos da noite e da música como ferramentas de manipulação reflete um sistema que, muitas vezes, ignora os direitos e a inclusão de grupos marginalizados.

Exclusão e Invisibilidade

Enquanto as academias e igrejas utilizam essas estéticas vibrantes e imersivas para atrair clientes e fiéis, uma faceta mais sombria dessas dinâmicas é a exclusão de algumas pessoas. Em muitas igrejas neopentecostais, a experiência religiosa é construída de uma forma tão homogênea que indivíduos fora da norma cisgênero frequentemente são ignorados ou até hostilizados. O uso de um ambiente que “libera” os corpos por meio da música e iluminação não inclui quem está à margem das expectativas de capacidade, gênero ou sexualidade. Isso é particularmente perceptível nas narrativas dominantes que associam a transformação e a purificação à conformidade com a heteronormatividade e a cisnormatividade.

Mulheres com corpos mega musculosos, ok! Travestis, não! Oi?

Nas academias de ginástica, o mesmo fenômeno acontece. A busca por corpos “perfeitos” exclui não apenas a diversidade corporal, mas também a identidade de gênero das pessoas trans. O culto ao corpo ideal, muitas vezes promovido por essas academias, privilegia corpos que se alinham com os padrões de beleza cisnormativos, silenciando as vozes e as necessidades das pessoas trans. A estética da noite, tão centrada na performance e na transformação, acaba, paradoxalmente, excluindo aqueles que não se encaixam no molde tradicional de sucesso ou devoção.

A manipulação das percepções sensoriais e emocionais não é acidental. Aliás, depois que comecei a estudar oficialmente Biomedicina, tenho me assustado com a credibilidade de certos números mostrados pelo mercado, a ponto de me perguntar quem chegou primeiro, a dopamina ou a testosterona? Entre o “ovo e a galinha” percebo que a construção desses espaços visa tirar proveito das necessidades humanas mais profundas de pertencimento, euforia e prazer. A dopamina, envolvida nos processos de motivação e recompensa, é constantemente estimulada nessas experiências, criando um ciclo de feedback positivo que prende os indivíduos em um processo contínuo de consumo. A música, o ambiente iluminado e a sensação de imersão são usados para garantir que os indivíduos se sintam “realizados” ao consumir essas experiências [4].

Consumir essas experiencias é a tradução desta década para fazer coisas como: comer, ir ao culto, malhar e pasmem, fazer coco! Tudo é uma experiencia poderosa que te arrebata.

Entretanto, esse oportunismo do mercado não é isento de consequências. As promessas de transformação, de um corpo perfeito ou de uma conexão divina, são apenas ilusões que mascaram as relações de poder subjacentes. As empresas e igrejas exploram essas necessidades humanas básicas de uma maneira que beneficia apenas aqueles no topo da cadeia econômica e religiosa, deixando para trás aqueles que não se encaixam nos moldes preestabelecidos. A exclusão de pessoas trans, como mencionado anteriormente, é um reflexo dessa manipulação. Ao criar espaços que se aproximam da estética da noite, esses ambientes tornam-se plataformas de conformidade e não de verdadeira libertação.

A Noite como Arena de Resistência

A noite sempre teve o poder de criar espaços de resistência, de subversão e de reconfiguração identitária. No entanto, em ambientes como academias e igrejas neopentecostais, a escuridão e a música não são usadas apenas para libertar, mas para controlar e excluir. A estética da noite, que deveria ser um refúgio para a diversidade e a reinvenção de si, também serve para reforçar as normas sociais, excluindo aqueles que não se encaixam nas expectativas dominantes de gênero, corpo e fé.

O mercado, ao explorar a sensibilidade humana e a busca por pertencimento, demonstra seu potencial de manipulação. O fato é que ao ir em uma academia, não busco uma igreja, assim quando vou a boate também não procuro por um culto. Pelo visto seguiremos cada vez mais na Festa da Chiquita, aquela que ocorre junto a famosa Círio de Nazaré (Belem — PA) onde santos e pecadores estão certamente predestinados a se encontrarem!

Referências:

  1. Tenorio, David. (2025). Queer Relajo: Feeling the Nightscapes of Mexicanidad.
  2. Carlsson, A., et al. (1957). Dopamine deficiency in Parkinson’s disease and its therapeutic implications.
  3. Schultz, W., et al. (1997). A neural substrate of prediction and reward.
  4. Olds, J., & Milner, P. (1954). Positive reinforcement produced by electrical stimulation of septal area and other regions of the rat brain.
  5. Alter, A. (2017). Neuroscience and the technology of reward in social media platforms.

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