16 Tipos para Entender a Língua Bolsonarista

Bolsonaro fala para um público segmentado e é neste sentido que devemos entender suas declarações estapafúrdias. Cada uma delas visa agradar uma parte de seu público.

Presidente Bolsonaro assina decreto liberando a compra de armas para cidadãos de bem.
Presidente Bolsonaro assina decreto liberando a compra de armas para cidadãos de bem. (Foto: Lula Marques)

Bolsonaro fala para um público segmentado e é neste sentido que devemos entender suas declarações estapafúrdias. Cada uma delas visa agradar uma parte de seu público. A sua campanha, apoiada por Bannon-Cambridge Analítica, foi baseada nesta segmentação. Suas declarações violentas, que podem ser tomados como ato, levam ao aumento da violência, como a execução do sequestrador do ônibus no Rio ( um negociador poderia ter evitado, um tiro bastava para neutralizar, 5 tiros é execução ) e as mortes por tiro nas comunidades ( a Glöbbelsgolpe não fala de tiros da polícia ).

O ponto forte foi a campanha de desinformação que envolvia a discussão da sexualidade no ambiente escolar. Foi montada a divulgação de uma black-propaganda que atribuía a esquerda uma corrupção moral de erotização infantil que levaria à pedofilia.

Os tipos distinguidos pela antropóloga Isabel Kalil do público segmentado de bozo nos ajudam a melhor dialogar com estas pessoas e entender o motivo das besteiras faladas por ele. Abaixo um extrato de sua pesquisa:

1. As pessoas de bem:

Instituições fortalecidas para o fim da impunidade

Não acreditam que a “justiça com as próprias mãos” possa a ser a solução para o país, repudiam a violência entre os cidadãos e desejam que as instituições sejam fortalecidas. Este perfil comporta um amplo espectro de posições que variam desde a proposta de que a Polícia Federal deveria substituir o Supremo Tribunal Federal, até aqueles que clamam pela volta da ditadura militar ou uma “intervenção militar temporária e constitucional”. A frase “direitos humanos para humanos direitos” serve como síntese para expressar que o Estado só age de maneira mais bruta ou viola direitos daqueles que não são “pessoas de bem”.

2) Masculinidade viril:

Armas para os civis fazerem justiça com as próprias mãos. Muito próximo da “pessoa de bem”, estes perfis compartilham das mesmas características com uma exceção: a justiça não seria “terceirizada” para as instituições e sim exercida pelo próprio cidadão. Este perfil enxerga a violência urbana como o maior problema social e se vê como um sujeito constantemente ameaçado. Alguns homens deste  perfil definem a si mesmos como “opressores”. Diante do problema da violência,  o “opressor”, vislumbra no porte de armas uma solução, pois acredita que os  cidadãos devem ter condições de se defender e também de praticar justiça,  quando necessário. A justiça neste sentido, é vista como a capacidade de se  defender de “bandidos”, mas também de se defender contra eventuais abusos do  próprio Estado, leia-se uma ditadura comunista ou um governo autoritário de  esquerda.

3) Nerds, gamers, hackers e haters 

A construção de um mito  

Esse grupo foi um dos principais responsáveis  por disseminar a imagem de Bolsonaro em sua pré-campanha, o que contribuiu  consideravelmente para sua atual “popularidade”. A figura em particular  construída pelos nerds, gamers e hackers conservadores compreende a do  ‘bolsomito’, lapidada a partir da produção, majoritariamente nas redes sociais,  de memes centrados no candidato, geralmente acompanhados por um tom  jocoso e provocador”.

4) Militares e ex-militares 

Guerra às drogas como solução para a segurança pública  

Repudiam, em sua maioria, a escalada da criminalidade, a  desvalorização e o sucateamento das instituições voltadas para a  segurança pública e também a falta de ordem nas instituições nacionais e na  sociedade civil.  No tema da criminalidade, este perfil critica a ascensão de facções criminosas  como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), vinculam  esse fenômeno à despreocupação dos governos de esquerda com o tema da  segurança pública, em especial, o problema do tráfico de drogas.

5) Femininas e “bolsogatas”: 

Mulheres “empoderadas” para além do “mimimi”  

Assim, algumas dessas mulheres repudiam mais a agenda feminista,  outras repudiam mais o assédio dos homens e a violência contra a mulher. Mas  em todos os casos se alinham com proposições de políticas duras contra a  “corrupção”, a criminalidade e também contra a violência de gênero.

6) Mães de direita: 

Por uma escola sem “ideologia de gênero”  

Essas mães defendem que a “inocência” e a “ingenuidade” infantil devem ser  preservadas e temem a “doutrinação da ideologia de gênero” e/ou “doutrinação  marxista” nas escolas pelos professores.

7) Homossexuais conservadores 

“Homem é homem”, não importa se gay ou hétero  

A maioria deste perfil é formada por  homens, poucas mulheres lésbicas são vistas em meio ao grupo. Este perfil se  combina com a “pessoa de bem” na crença de que apenas as pessoas LGBT que  sofrem violência são aquelas que “dão pinta” ou “não se dão o respeito”. Embora  este grupo não seja numericamente a maior base de apoio a Bolsonaro, seu  perfil é essencial para ajudar a comprovar a tese de que o candidato não é  homofóbico e respeita as liberdades individuais.  Este perfil tende a naturalizar o discurso “anti gay afeminado”, ou seja, uma pessoa  homossexual deveria manter a “compostura” perante as pessoas mais velhas e  crianças, para não oferecer exemplos de “vulgaridade em público”.

8) Etnias de direita 

Minorias perseguidas por se posicionarem a favor de Bolsonaro  

Suas principais reivindicações são no sentido de buscar  maior autonomia de posicionamento político, defendendo que minorias étnicas  têm sido perseguidas por se posicionarem a favor de Bolsonaro.  A atuação deste perfil é orientada pela ideia de que os  governos de esquerda teriam fragmentado uma “unidade nacional” e que  Bolsonaro teria como proposta um “governo unificador” baseada na ideia de que  “o Brasil é um só”, como expressa o jargão propagado pelo próprio candidato.  Alguns são contra as cotas, muitos são contra o “vitimismo”. A questão do  desemprego é recorrentemente citada. Sua atuação visa diluir as diferenças  entre as classes, etnias e gênero que, segundo essa tendência, teria sido  propagadas pelos governos, intelectuais e militantes de esquerda.

9) Estudantes pela liberdade 

Voto rebelde contra a “doutrinação marxista”  

Estes estudantes não se veem contemplados pelo ambiente escolar ou  acadêmico e se sentem privados da participação em grêmios e centros  acadêmicos em razão de posicionamentos políticos.  Dentre os estudantes de ensino  médio privado temos aqueles que são contrários às políticas públicas que  possibilitam acesso dos jovens de ensino público na universidade e também  qualquer mecanismo de cota que “facilite” ou “privilegie” certas camadas sociais  em detrimento de outras. Para estes, o mérito é o que deve imperar.  Especificamente em relação aos cursos de  humanidades, fazem fortes críticas à uma “educação doutrinadora”, que não  respeita os valores que os alunos trazem de casa, ou, até mesmo, de sua  “formação política independente”. Vislumbram a “doutrina marxista” como uma  grande ameaça à educação imparcial liberal, fazem coro a discursos sobre o  “marxismo cultural” e da escola enquanto uma forma de reprodução da  “ideologia comunista”.

10) Periféricos de direita 

Os "pobres" que desejam o "Estado mínimo" 

O grupo caracteriza-se pela revolta e pela denúncia da  violência e da impunidade que são por eles vividas em regiões periféricas da  cidade e/ou questões específicas como violência contra mulheres e crianças,  estupro, problemas econômicos, desemprego, corrupção e ainda sobre a má  qualidade dos serviços públicos. Segundo esta perspectiva, as posturas e  propostas “de esquerda” não dão conta de resolver ou não davam a atenção  necessária para estas questões, com ênfase especial à questão da segurança  pública.  Sobre uma potencial redução do papel do Estado - já que são pessoas que  dependem dos serviços públicos -, na percepção de parte dos entrevistados, a  defesa do Estado mínimo significa que o Estado deveria intervir o mínimo  possível em questões consideradas como o campo da religião ou da vida íntima  (leia-se moral) e não necessariamente implicariam em uma redução de serviços  públicos, como a educação e a saúde.

11) Meritocratas: 

O antipetismo dos liberais que “venceram pelo próprio mérito”  

Este perfil assume um dos discursos mais convictos  principalmente contra a corrupção, tendo como expressão um acentuado  antipetismo. Possuem uma visão mais racional e esclarecida a respeito de um  projeto de Estado neoliberal ou Estado mínimo. Defendem redução ou corte de  programas sociais, tendem a ver estes programas ou como privilégios ou como  formas de tornar as pessoas pouco produtivas.  O que importa é que Bolsonaro não  representará o modelo econômico petista que corrobora uma tendência vista  como negativa na sociedade brasileira que teria “muitos direitos e poucos  deveres”.

12) Influenciadores digitais 

Liberais e conservadores “salvando o Brasil de se tornar uma Venezuela”  

Os/as influenciadores/as tem eles/elas mesmos/as perfis heterogêneos: 1)  Convertidos: pessoas que já foram comunistas, gays, feministas, ateus e  militantes de esquerda, mas que abandonaram esses movimentos e assumiram  uma postura de duras críticas em relações a eles. 2) Celebridades: são, muitas  vezes, cantores, atletas e artistas que declaram apoio à Jair Bolsonaro, seus  posicionamentos geram grande repercussão. 3) Pensadores, intelectuais e  jornalistas que lançam tendências, realizam análises e, por vezes, possuem  afinidades ideológicas com a direita internacional (liberal ou conservadora).

13) Líderes religiosos 

A defesa da família contra o “kit gay” e outros pecados  

São arautos do que é entendido como formas de conduta  adequadas e íntegras, por conta disso, repudiam a “ideologia de gênero”, que é  vista como pecado e degeneração dentro das instituições religiosas. Possuem  um discurso extremamente forte em relação ao que chamam “kit gay”, que  estaria corrompendo as crianças na escola. Segundo eles, seriam materiais  didáticos e ações que estariam “ensinando para meninos que ser menino é  errado e para meninas que ser menina é errado”. São extremamente críticos ao  feminismo, especialmente, na questão do aborto. Nesse contexto, seu discurso  deixa claro que pautas defendidas pelo movimento feminista, movimento LGBTQ  e projetos de discussão de gênero e sexualidade nas escolas estão promovendo  a “destruição da família tradicional”.

14) Fieis religiosos 

Cristãos pela “família tradicional”  

O que repudiam: Possuem a percepção de que a “família tradicional” vem sendo  ameaçada nos últimos tempos e que o PT corroborou para que isso acontecesse,  sobretudo com aquilo que propunham para a educação das crianças, levando  “ideologia de gênero” e o “kit gay” para dentro das escolas. Acreditam que nos  últimos tempos houve, no Brasil, uma inversão de valores onde há defesa do  criminoso e não da vítima, o aumento do incentivo ao consumo de drogas, ao  aborto e a promiscuidade por parte de jovens esquerdistas e feministas. Estes  grupos estariam subvertendo a família tradicional em favor de uma possível  “ditadura gayzista”.

15) Monarquistas 

O retorno a um passado glorioso  

A figura do “príncipe” é importante na campanha do  candidato para ajudar a conformar um ideal de “passado glorioso”, que é  evocado seja pelos tempos imperiais, seja pelo tempo dos militares. Em ambos  os casos, se busca reforçar a “manutenção da ordem”. Assim, como a glorificação  dos tempos da ditadura militar, a figura dos monarquistas ajuda a construir  imagens de um passado utópico em relação a um futuro distópico e caótico.

16) Isentos 

“Política não se discute”  

Estão incluídos nesse grupo pessoas que mantém a opinião de que “religião,  política e futebol não se discute”, ao menos em público. Característico desse  perfil são as pessoas que defendem que Bolsonaro não representa a solução  para os problemas do país, mas possuem um forte sentimento antipetista,  anticorrupção ou antisistema.  Tendem a ver que a polarização foi iniciada pelo PT,  embora tanto a direita quanto a esquerda são vistos como agentes da violência,  reforçando sua posição apaziguadora de conflitos. Em seu discurso, também está  presente uma forte repulsa à corrupção, o que na verdade alimenta seu  antipetismo, argumentam que a corrupção passou dos limites e que ela é uma  das maiores responsáveis pela crise econômica do país.

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