Num Brasil que enfrenta conhecidas dificuldades para reconhecer e valorizar a memória histórica, é obrigatório registrar gestos de autoridades que se recusam a integrar o coro dos contentes e cumprem o dever de iluminar a escuridão que alimenta a ignorância e o atraso político do país.
Ao denunciar as circunstâncias da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob tortura num porão do DOI-CODI paulista, em 1975, a ministra Maria Elizabeth Rocha, presidente do Superior Tribunal Militar, cumpre o dever como magistrada e também como cidadã de um país submetido a uma história de violência e covardia que nem é preciso detalhar aqui.
Jornalista de prestígio profissional reconhecido, em 1975 Herzog foi levado para prestar depoimento ao DOI-CODI paulista e não saiu de lá com vida.
Cinquenta anos depois, cabe recordar um fato lamentável. Não há apenas lições úteis para se compreender o passado daquele país de meio século atrás. Há muito a se aprender sobre o presente e o nosso futuro, também.
Neste meio século, o país voltou a escolher presidentes pelo voto direto. A censura foi abolida, o voto direto para escolha de presidente da República foi restabelecido e a repressão a partidos políticos é coisa do passado.
Ainda assim, cinco décadas mais tarde, os segredos de casos graves, de grande repercussão — como a morte de Herzog — que impedem a identificação dos responsáveis permanecem visíveis até hoje, num insulto que ofende consciências do presente e deixa interrogações terríveis para o futuro.
Num país que, 50 anos depois, não foi capaz de identificar e julgar os responsáveis por um crime de imenso simbolismo e tamanha gravidade, o assassinato de Herzog constitui uma ferida aberta, em que o silêncio equivale à omissão lamentável e à vergonhosa cumplicidade.
Numa cultura já marcada por dificuldades conhecidas para estudar e compreender a própria História, a preservação de crimes e responsabilidades de valor indiscutível não passa de um esforço escancarado e vergonhoso para manipular a consciência das novas gerações e preservar crimes atrozes de um passado que não interessa repetir.
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