A acusação de “identitarismo” aos movimentos negros, feministas, indígenas, LGBTQI+ e anticapacitistas é ato de má-fé

O jornalista Mauro Lopes indica como a acusação de “identitarismo” tem como objetivo manter o país sob controle da branquitude

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(Foto: Midia Ninja)


Por Mauro Lopes

É recorrente que setores da esquerda, centro-esquerda e até da direita acusem de “identitários” aqueles que defendem a centralidade da luta antirracista, feminista, indígena, LGBGTQI+ e das pessoas com deficiência e usuárias dos serviços de saúde mental. 

O que seriam os “identitários”, na visão destes setores? Para eles, são agrupamentos “a serviço do imperialismo” que colocam a luta dessas “minorias” acima do que chamam de “luta de classes”.

É uma formulação estrambótica. 

Em primeiro lugar, quem disse que tais lutas são de “minorias”? As pessoas negras e as mulheres são as grandes maiorias do país: 56% e 52%, respectivamente. Como a luta das duas grandes maiorias do país pode ser de “minorias”? 

E quanto à população LGBTQI+? O Brasil não sabe quantas são essas pessoas, pois o IBGE recusa-se a incluí-las no Censo, o que dificulta e quase inviabiliza políticas públicas para esses milhões de seres humanos. Levantamentos indicam que eles devem representar pelo menos 10% do país (algo como 20 milhões); ao mesmo tempo, segundo pesquisa da startup TODXS Brasil, em 2020, apenas 52% destas pessoas assumem publicamente a orientação sexual ou identidade de gênero, o que pode elevar este número muito mais. Sim, as pessoas LGBTQI+ têm medo de pagarem com a vida por se exporem publicamente.  No último Censo, o Brasil tinha 897 mil indígenas. Mas há sinais de subnotificação. Segundo estimativa de Marta Azevedo, presidenta da Funai entre 2013 e 2014 e líder do Instituto Socioambiental (ISA), os indígenas devem hoje ser ao redor de 1,3 milhão de pessoas no Brasil. Esta é a grande maioria histórica do país e só não o é numericamente porque foi quase exterminada pelos brancos.

Finalmente, quanto às pessoas com deficiência, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 do IBGE aponta que 8,4% da população brasileira acima de 2 anos – o que representa 17,3 milhões de pessoas.

Essas são as “minorias” na visão daqueles que apontam o dedo em acusação e gritam: “identitários”! Mas as “minorias” são a imensa maioria do povo brasileiro e atravessam todos os segmentos de trabalhadoras e trabalhadores do país.

A própria classe operária, idealizada por muitos dos que se reivindicam marxistas, hoje reduzida a 7,6 milhões de operárias e operários industriais, é constituída por essa diversidade do povo brasileiro.

A campanha de acusação de “identitarismo” é liderada por homens brancos de classe média e ricos de esquerda e direita. E esses são, efetivamente, uma minoria; uma minoria poderosa, a que manda no Brasil.

Os homens brancos ricos e de classe média são os donos ou controlam as terras do país, as empresas, os partidos políticos (com as exceções conhecidas), o Executivo, o Legislativo e Judiciário, as Forças Armadas, as Universidades, a Medicina, toda a mídia corporativa-conservadora e quase toda a mídia independente e assim por diante. 

Vou, a partir de agora, restringir o debate sobre a acusação de “identitarismo” ao movimento negro, pois a “maior maioria” do país é a das pessoas negras.

Na última segunda-feira (14), esteve no Giro das 11 da pós-TV 247 a professora Lia Vainer Schucman, doutora em Psicologia Social pela USP, professora na UFSC e especializada em estudos raciais a partir do tema da branquitude.

Ela explicou como o racismo “estrutura todas as relações de poder, econômico, jurídico, poder político e poder de produção de subjetividade”. E como se dá essa estruturação? Pelo fato de que “todo poder político econômico social do país é controlado pelos homens brancos num país de maioria negra e feminina”.

Não é apenas “guerra cultural”, como acusam os que xingam o movimento negro de “identitário” -apesar de ela existir e ser crucial. “É a economia, estúpido”, disse em 1992 James Carville, marqueteiro de Bill Clinton que, com a frase, indicou o que era prioritário naquela eleição, vencida por seu cliente. O mesmo vale aqui. É a economia, estúpido: os homens brancos dentre o 1% mais rico têm mais renda que todas as mulheres negras do país, segundo pesquisa da USP de 2021. Os homens brancos mais ricos abocanham tudo para si e são menos de 0,6% da população - esta é, efetivamente, a minoria do país. Os homens brancos detêm igualmente 80% das terras do país, informou Schucman no Giro das 11.

A professora desnudou no programa que há um entendimento equivocado de que o racismo seria apenas um problema moral -e ele efetivamente o é. Mas o fato é que ele está assentado -e os dados acima indicam patentemente- sobre a estrutura de classes do país. 

Em outras palavras: não é possível pensar a luta de classes no país sem pensar no racismo -o mesmo vale para o patriarcado, a misoginia, a lgbtfobia, o capacitismo.

A acusação de “identitarismo” é, “muitas vezes no âmbito da esquerda formulada de um jeito de muita má-fé", constatou a professora Schuman, que completou: “Como assim é identitária a luta por dignidade, a luta por acesso à educação, a luta por creche, a luta para que as mães negras não fiquem separadas dos seus cuidando dos filhos das mães brancas? Como a luta por estar vivo pode ser ‘identitária’? 

Como a luta pela redistribuição da renda e da propriedade, pela distribuição do poder pode ser qualificada de “identitária”? É simples: os que lançam a acusação são eles, homens brancos ciosos de seu poder, espaço, propriedade, de seu controle da produção de subjetividades, sejam eles de direita ou esquerda.

Essa defesa é carregada de subterfúgios, mas a prioridade número um é sempre a supremacia sobre as demais raças, gêneros, orientações sexuais e pessoas com deficiência.

A percepção das lideranças negras é, obviamente, mais aguda ainda. A economista negra Gaby Chaves é fundadora do portal e canal NoFront - Educação Financeira Contra o Racismo. Ela também esteve no Giro das 11 (nesta quarta-feira, 16) e colocou o dedo na ferida: “A esquerda diz para nós que a prioridade é a luta contra Bolsonaro e que as mulheres e pessoas negras devem sentar ali no cantinho e esperar sua vez”. As mulheres e pessoas negras já indicaram que não estão dispostas a acatar a ordem.

E o que deseja tal esquerda? Que a imensa maioria do povo brasileiro espere sentada, no cantinho, até que a “revolução” aconteça e seus líderes -homens brancos, com certeza- venham, do alto de sua magnanimidade, sepultar o machismo, o racismo, a LGBTQI+fobia, o capacitismo? Alguém na plateia levanta a mão se acreditar em histórias da carochinha.

Os que desejam ver mulheres e pessoas negras (e indígenas, pessoas LGBTQI+ e pessoas com deficiência) no cantinho proclamam-se muitas vezes, e de boca cheia, “marxistas”. Parece que pularam o trecho de O Capital no qual Marx anota que  “o trabalhador de pele branca não pode emancipar-se onde o trabalhador de pele negra é marcado com ferro em brasa” [O capital: crítica da economia política. Volume I. Livro Primeiro (O processo de produção do capital). Tomo I. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 228] - tomo a citação emprestada do professor Mario Soares Neto, da UFBA. Creio que é razoável supor que, por extensão, à luz do que sobreveio nos dois séculos à sua frente, Marx poderia formular com precisão hoje que “o trabalhador de pele branca não pode emancipar-se onde o trabalhador de pele negra assim como os indígenas são marcados com ferro em brasa, onde as mulheres são submetidas ao tacão do patriarcado, onde os LGBTQI+ são tratados como não-humanos, onde as pessoas com deficiência são consideradas de uma raça inferior”.

A história brasileira mostra: não houve uma conquista sequer de pessoas negras e das demais maiorias que não tenha acontecido à custa de suas lutas e sangue. E não será a acusação de “identitarismo” que irá conter tais lutas nem intimidar todos, todas e todes dispostos à transformação da sociedade e de si próprios. 

Como observou a professora Lia Vainer Schucman, ela mesma branca, como eu, e essa é uma questão crucial para separar as águas: “as pessoas brancas podem ser antirracistas, mas a branquitude é em si mesma expressão do racismo. E tanto faz se proclamar de esquerda ou direita”. Os que gritam “identitarismo!” declaram-se antirracistas. Mas, como estão, pessoal e estruturalmente, vinculados à branquitude, sua declaração é folha ao vento. 

Enquanto as pessoas brancas não admitirem que a branquitude -o controle do país pelos brancos- está na base do racismo, poderão se proclamar antirracistas, mas ficarão por aí acusando negros e negras de “identitários”. 

Não é uma teorização qualquer. É má-fé para manter os negros e negras e todos, todas e todes “em seu lugar”.

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