A árvore de Goethe, em Buchenwald, é o meu pai

"O carvalho de Goethe tornou-se célebre pelo fato de o autor buscar a guarida de suas sombras entrecortadas pelos raios de sol para compor boa parte de suas obras", escreve Flávio Ricardo Vassoler

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(Foto: Luanna Falcão)
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Madri, Espanha, agosto de 2021.

Em frente ao hotel onde estou hospedado fica o mercado de San Miguel.

É bem verdade que, por aqui, se encontram sobre os balcões dos bares e restaurantes as tradicionalíssimas pernas de porco, das quais os madrilenhos extraem, com as mais afiadas facas, fatias de um presunto que só aceita paridade (se é que o faz) com o prosciutto di Parma. (Recomendo ao leitor e à leitora mais sensíveis que não fiquem olhando para a pata do porco enquanto degustam a iguaria e decidem se a primazia do presunto mundial deve atender pelo nome de jamón ou prosciutto.)

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Mesmo com sua aura madrilenha, o mercado de San Miguel já sente junto ao cangote o bafejo da padronização estético-comercial à la Chicago, berço ideológico do neoliberalismo e cidade onde morei durante 2 longos anos. Com suas cadeiras sobrelevadas em que as pessoas não se sentam de maneira tradicional, uma vez que, se já não têm mais pedidos, é preciso que nos coloquemos em pé, de vez, para darmos lugar a paying customers, os bares e restaurantes vão sucumbindo à (mercado)lógica do fast food. 

Dos uniformes asseados dos funcionários à cadência melíflua e hipnótica da música ambiente (relaxe bem para gastar mais); do jogo de luz e penumbra (é preciso insinuar que ainda há algo das antigas tavernas espanholas) aos cardápios plastificados, tudo é asséptico e bem cortado, como se o turbocapitalismo neoliberal tivesse aplicado botox no sorriso dúbio de Monalisa. 

Felizmente, a rua Cuchilleros, 17, está a cerca de 90 passos do mercado de San Miguel, e eu logo chego ao mais antigo restaurante em serviço não só na Europa como no mundo todo: El sobrino de Botín, em atividade ininterrupta desde 1725. 

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Da entrada com arabescos vermelhos e dourados, em frente da qual os viajantes costumavam amarrar seus cavalos, ao andar térreo que primeiramente despontou como uma hospedaria, o restaurante El sobrino de Botín procura preservar até mesmo as nódoas e fissuras de sua história, à diferença dos arranha-céus alvos e envidraçados da novíssima especulação imobiliária que, além de permitirem que Narciso retoque o topete a cada instante, pretendem existir ao largo do tempo, o mesmo tempo humano e mortal que legou manchas em meus dentes com o café que minha vó Nena passava pouco depois de moer os grãos colhidos no quintal da casinha dos meus bisavós no interior de São Paulo; o mesmo tempo que foi vincando meu rosto com o ceticismo de amores que, tomando outras ramificações, se esturricaram antes de conseguirem desaguar seus sonhos no mar. 

Perto das balanças de ferro para pesar as pernas de porco (sempre elas!) com dois pesos e uma medida; ao lado de uma série de facas, facões, cutelos e machadinhas à mão do chef, o forno à lenha do Botín arde, ininterruptamente, desde la fundación del restaurante - assim asseveram os garçons trajando paletó branco e gravata borboleta. 

Faço questão de me dirigir ao subsolo do Botín (la cueva) para escolher minha mesa. Já não há tochas iluminando as antecâmaras do século 18, mas a luz bruxuleante dos lampiões, o teto baixo (à diferença do pé direito altíssimo dos restaurantes neoliberais, com sua ilusão de onipotência para os almoços/reuniões de negócio), as paredes repletas de saliências e a madeira maciça e fosca das mesas e cadeiras tornam o passado e as memórias tangíveis para o meu apetite: é hora de pedir o menu da casa, que, com suma prodigalidade, me guarnece com meio litro de vinho tinto Rioja (não tão seco quanto o Jerez, mas a ponto de trazer um estalido à língua quando o sorvemos); um prato de gazpacho andaluz, que, frio e salpicado de tomate e pão, parece ter surrupiado o laranja mais intenso do arco-íris; um leitãozinho (cochonillo) com a pele crocante pela fritura (“pururucada!”, sentenciaria meu irmão Danilo) e uma carne tenra que só não é mais cremosa que o sorvete de baunilha que arremata o banquete. 

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O café forte tenta me içar da hibernação pós-almoço, mas eu fico cambaleando até que, em uma mesa próxima à minha, entrevejo duas senhoras distintas e elegantes, com semblantes taciturnos e magoados pela vida, conversando sobre um tema que pega minha atenção pelo colarinho.

- Não, Judith, eu não posso acreditar, não posso! Será mesmo verdade que os algozes nazistas construíram Buchenwald ao redor do carvalho histórico sob cuja copa Goethe escreveu trechos de algumas das mais importantes obras da humanidade?

- Acredite em mim, Hannah, é verdade… 

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Construído pelos nazistas, inicialmente, como um campo de concentração destinado aos arqui-inimigos comunistas, Buchenwald situa-se perto de Weimar, cidade onde o mestre alemão Johann Wolfgang von Goethe passou a morar em 1775, 50 anos após a fundação de El sobrino de Botín e pouco depois da entusiástica aclamação de seu primeiro romance, Os sofrimentos do jovem Werther, publicado em 1774. 

O carvalho de Goethe tornou-se célebre pelo fato de o autor buscar a guarida de suas sombras entrecortadas pelos raios de sol para compor boa parte de suas obras. Ocorre que, em 1937, os nazistas sitiaram o carvalho de Goethe com o campo de concentração de Buchenwald e, como se a degola do belo pelo sumamente horrendo não fosse o bastante, ainda inscreveram no portal daquele inferno de escravidão e extermínio uma máxima que asfixiaria em câmaras de gás toda e qualquer ironia, inclusive o riso daquele que, totalmente impotente, ri de desespero em face do carrasco: Arbeit macht frei, isto é, o trabalho liberta. 

- Como é que você ainda consegue acreditar no ser humano depois disso, Hannah? Como?! Seu pai morreu em Buchenwald, Hannah, acorde! Não há bondade neste mundo!

Após a colocação de Judith, Hannah pousa o queixo na palma da mão direita como uma carcaça de navio relegada no fundo sombrio do oceano. 

Me sinto profundamente comiserado pela dor purulenta de Hannah, e seu ímpeto de querer resguardar a violeta da bondade em meio ao adubo humano me alça subitamente de minha cadeira (com meio litro de vinho Rioja no corpo, sugiro à leitora e ao leitor que se levantem calmamente, do contrário a tontura de sinos badalando na cachola será certeira como uma flecha envenenada). 

Vou até as senhoras Hannah e Judith e, com todo o respeito, eu lhes digo, antes de mais nada, que, por parte de pai, tenho ascendência judaica sefardita. Em seguida, peço licença para lhes contar uma história, e as duas senhoras ashkenazim me concedem a palavra, surpreendidas com minhas colocações em língua alemã - elas falavam em iídiche, então pude entender boa parte do que diziam. 

- Em janeiro de 2013, cheguei a Budapeste a bordo de um voo que, em seu término, cruzou o Danúbio e me descortinou a ilha Margarida como o enorme dorso de um urso flutuando no rio e o belíssimo edifício do parlamento húngaro como o portal de entrada para Peste. Ao passar pela imigração e chegar ao saguão do aeroporto, fui atrás de um táxi e, para o meu espanto, o primeiro motorista que despontou era a cara do meu pai João Olavo: totalmente calvo, olhos verdes e pequeninos, nariz pequeno porém vigoroso e barba branca, cerrada e entremeada por fios amarelecidos pela nicotina. Até a pança de ambos sugeria a irmandade bivitelina entre Budapeste e Santos, cidade natal do meu pai. Eu não via meu pai, então, há 12 anos e meio, e ele viria a falecer pouco mais de 1 ano depois, em abril de 2014. Súbito, vou até o motorista e o chamo de pai. Ele me olha encafifado, e, quando lhe conto que a semelhança com o meu pai é enorme, o taxista esbugalha os olhos como uma coruja, o que transforma suas íris em ilhas pequeninas cercadas pelo mar da esclerótica branca como neve e crispada, aqui e ali, por veiazinhas errantes e vermelhas. Se eu lhes disser que o semblante do meu pai brasileiro reagia da mesma forma em face de uma grande surpresa, as senhoras acreditarão em mim?

Judith e Hannah se voltam uma para a outra com os olhos esbugalhados. 

- Tomei o táxi. Devo mencionar que meu pai húngaro logo se prontificou em carregar minha mala. Fomos conversando fraternalmente, e eu me interessei muito por suas lembranças da época em que a Hungria estava sob a batuta da União Soviética. Quando, em 1956, os soviéticos mandaram tanques e helicópteros para Budapeste, a fim de debelar uma grande revolta nacionalista e antissocialista que tomara conta da capital, János (eis o nome dele) ainda era uma criança. Mas ele falou com entusiasmo sobre como caminhar com as cores da bandeira húngara, ainda que se tratasse de pequenas flâmulas, constituía um ato de verdadeira coragem. Quando chegamos à avenida Andrássy, onde ficava meu hotel, eu logo saquei minha carteira para pagar a János o valor aferido pelo taxímetro. Súbito, ele se volta para mim, pousa a mão direita em meu ombro e, com os olhos marejados, sentencia: “Não é nada, não. Fica por minha conta. Foi uma alegria reencontrá-lo, meu filho”. 

Hannah e Judith se voltam uma para a outra com os olhos esbugalhados. 

Súbito, eu me volto para a senhora Hannah e, com os olhos marejados e as mãos abertas em palma, como em oração, eu lhe digo, isto é, eu lhe peço:

-  Continue a imaginar que a árvore de Goethe, em Buchenwald, é o bunker da bondade no inferno, algo como um templo de reconciliação onde só fazem degolar a esperança. A árvore de Goethe, em Buchenwald, é o seu pai. 

Judith arregala ainda mais os olhos. Hannah, por sua vez, enxuga o trajeto sinuoso de uma lágrima com o dorso da mão direita e coloca minhas mãos, ainda abertas em oração, entre as suas próprias mãos, como um pássaro que acolhe os filhotinhos sob suas asas.

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