A batalha de Belford Roxo

Jornalista Ricardo Bruno faz um contraponto às críticas contra o apoio do PT ao atual prefeito Waguinho, do MDB. "Propugnam a coerência, mas na prática usam um questionável purismo ideológico para promover apenas o isolamento", escreve

Waguinho, do MDB
Waguinho, do MDB (Foto: Reprodução)
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Enquanto Bolsonaro avança em seu projeto autocrático neoliberal de poder, setores do PT nacional se perdem em polêmicas infundadas e desproporcionais, que nada contribuem para afirmação do partido como força que se pretende novamente majoritária. O apoio à reeleição do prefeito Waguinho, de Belford Roxo na Baixada Fluminense, é novo pomo da discórdia, em torno do qual os mais radicais entregam-se em batalhas absolutamente estéreis e improdutivas para a reconstrução de um projeto nacional.

Lançam sobre o prefeito do MDB a acusação de bolsonarista pelo simples fato de ter recebido o senador Flávio Bolsonaro em ato de inauguração de obra social, custeada pelo governo federal. Interditam a discussão de uma aliança, apoiada pela direção estadual,  pelo vice-presidente nacional Washington Quaquá e pelo presidente da Alerj, André Ceciliano, brandindo a foto em que o prefeito discursa ao lado do filho do presidente.

Nesta superficial guerra de estereótipos, há uma outro foto nos arquivos do PT nacional a mostrar algo diferente. Em 2017, quando Lula visitou Belford Roxo, o carro de som em que ele e o então senador Lindbergh Farias discursavam havia sido cedido exatamente pelo vice-prefeito à época, o atual deputado Márcio Canela. Naquele dia 7 de dezembro de 2017, Waguinho mobilizou suas bases, interditou ruas e montou a estrutura para o ato de Lula na praça Joaquim Batista, no centro. Foi uma festa em reconhecimento à trajetória de transformações sociais promovidas pelos governos petistas na região.

O apoio do prefeito à caravana de Lula decorreu de uma aliança natural  já consolidada na política de Belford Roxo: o PT fez parte da coligação que elegeu Waguinho e ainda participa de seu governo, com a secretaria de saneamento. Portanto, o apoio nas próximas eleições resulta de uma relação de proximidade firmada nos últimos anos - e não de uma decisão extemporânea e esdrúxula  dos dirigentes partidários.

Há outros fatos objetivos a aproximar o prefeito de Lula.  A mulher de Waguinho, a deputada federal Daniela, tem sido uma aliada importante do PT em algumas votações estratégicas na Câmara dos Deputados. Pesa também o apoio explícito do MDB na construção da vitória do petista André Ceciliano na eleição para a presidência da Alerj.

Os que insistem em buscar contradições entre o PT e Waguinho – e elas existem, tanto que o prefeito pertence ao MDB – e subestimam os pontos de convergência parecem voltados mais a reafirmação de convicções pessoais do que exatamente dedicados à construção de um projeto de reafirmação nacional do partido. Esquecem-se, por exemplo, que esta parceria entre diferentes permitiu que Dilma Roussef registrasse em Belford Roxo, na campanha da reeleição, a maior votação de todo do estado do Rio: 75% dos votos válidos contra 25% de Aécio Neves.

Há ainda que se considerar a situação de colapso da maioria das prefeituras do país, o que faz crescer a dependência de parcerias com o governo federal. Este pragmatismo determina a proximidade institucional entre as administrações municipais e federal - sem o que os prefeitos, da maioria dos municípios brasileiros, não têm quase nenhuma capacidade de investimento.

Resta, portanto, imaturo e de propósito controverso o movimento encampado por setores ilustres do PT contra a coligação em Belford Roxo. Fazem desta questão, de menor relevância e própria na natureza paroquial da política fluminense, um divisor de águas, como se dela dependesse o êxito das futuras batalhas eleitorais a que o partido se vê desafiado a vencer. 

A reação imoderada parece mais um esforço  de autoconstrução de setores que perderam espaço na correlação de forças internas do PT. E menos algo a ser considerado relevante no debate sobre os rumos partidários. 

Propugnam a coerência, mas na prática usam um questionável purismo ideológico para promover apenas o isolamento.

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