A bolsa ou a vida?

"Percebo no discurso do Bolsonaro um total desprezo pela vida. A ele só interessam os números que recebe do Paulo Guedes e quem for capaz de manter esses números em ascensão. A vida mesmo não importa", escreve o colunista Miguel Paiva

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(Foto: Miguel Paiva)


A vida do brasileiro sempre valeu pouco. Atualmente está na bacia das almas. Se formos pensar bem, o brasileiro convive com a morte como aqueles soldados nos tempos medievais que iam para as batalhas de peito aberto e não conseguiam abstrair a ideia de vida para poder temer a morte. Mal ou bem eles lutavam por um ideal, o dos seus senhores. A vida era a morte. Hoje  o brasileiro morre sem ideal. 

Escapar da morte hoje é uma vitória diária e talvez até dê um certo sentido a esta vida tão frágil e sem futuro. 

Nós, privilegiados, temos outra concepção da morte. Tirando os religiosos fanáticos, encaramos a morte como uma sacanagem do destino, um final inesperado para o nosso roteiro de vida que ainda previa muitas coisas. Morrer nunca está nos nossos planos. Mas quem não tem esse privilégio vivencia a morte como um elemento presente no seu dia a dia. Um verdadeiro horror, resultado do projeto de desvalorização da vida que o neoliberalismo recente vem disseminando como um vírus mortal. Justamente essa diferença entre o privilegiado, aquele que estudou, se alimentou, se desenvolveu e se tornou alguém produtivo e aquele que apenas sobreviveu dando um duro danado é o que estabelece os novos padrões desta sociedade abominável em que vivemos.

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Percebo no discurso do Bolsonaro um total desprezo pela vida. A ele só interessam os números que recebe do Paulo Guedes e quem for capaz de manter esses números em ascensão. A vida mesmo não importa. Todo o seu discurso recente mostra isso. Muitos vão morrer, segundo ele, como se fosse uma página do destino escrita para que seguíssemos à risca. Muitos vão morrer, sabemos. Na realidade, todos vamos morrer, só que temos o direito de viver o quanto somos capazes. Estabelecer que mortes são números e parâmetros para medir o sucesso ou a sobrevivência econômica é um crime tão grande como matar alguém.

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Não há economia no mundo que seja pautada na morte de pessoas. No meu entender a economia visa à vida das pessoas e assim deve ser. Esse desprezo pela vida é uma característica de pessoas como o Bolsonaro que não conseguem pensar mais do que o elementar. São binários, cartesianos, boçais que não vão além destas constatações primárias. E o pior é que têm seguidores. Um bando de idiotas que não sabem o que dizem e que pregam, também sem saber, o culto à morte. Eles se acham imunes, capazes de escapar inclusive da pandemia que pra eles, na realidade, nem existe.

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Essas "verdades" disseminadas por aí são quase impossíveis de se desmentir. A mentira bate no desejo limitado dessas pessoas. Elas preferem acreditar que não existe o risco da doença, que é tudo um complô da esquerda e nessa comunicação imediatista das redes sociais vão crescendo e acreditando. Não sabem, não querem, não conseguem se informar de verdade e mal desconfiam que são eles também lenha desta fogueira que matará, cedo ou tarde, a todos. 

Restará o mercado, essa figura quase que religiosa, detentora de toda a sabedoria social e única força capaz de promover o desenvolvimento. Eles, os patrões, precisam ficar cada dia mais ricos para que você tenha o seu emprego e consiga produzir até o dia em que morrerá para ceder espaço ao próximo que vem vindo. O mundo não é para todos. Engano nosso, ou engano deles. Resta saber quem vai conseguir sobreviver no final das contas. Nós e nossos companheiros de luta pela vida ou eles, os donos do mercado que saem em carreatas pregando a volta ao trabalho, dos seus empregados. 

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Morrer faz parte. Morrer é moeda de troca entre eles. O Brasil já é campeão em mortes de índios, transgêneros, mulheres, negros e pobres. É o cenário perfeito para fingir que o coronavírus não mata. Faz o serviço por eles e eles sairão ainda culpando a esquerda por "dramatizar" a pandemia. Viver não está com nada nessa bolsa de apostas cruel que é o capitalismo.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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