A caminho do abate

O multiculturalismo brasileiro ainda não redundou em um sentimento de pertencimento a algo maior. O brasileiro não reconhece em si e nem no outro um indivíduo com direitos e deveres. O enorme desinteresse por aspectos históricos cria um fluido popular que vai e vem, ao sabor das manipulações poderosas, esperando por um salvador que nunca chega e elegendo heróis efêmeros, esquecidos ali, logo adiante

A caminho do abate
A caminho do abate (Foto: REUTERS/Paulo Whitaker)

Não existe uma nação brasileira. Nunca existiu.

O multiculturalismo brasileiro ainda não redundou em um sentimento de pertencimento a algo maior. O brasileiro não reconhece em si e nem no outro um indivíduo com direitos e deveres. O enorme desinteresse por aspectos históricos cria um fluido popular que vai e vem, ao sabor das manipulações poderosas, esperando por um salvador que nunca chega e elegendo heróis efêmeros, esquecidos ali, logo adiante.

Soma-se a essa deficiência identitária, uma estupenda crise do próprio reconhecimento geográfico no espectro econômico-social. As classes mais baixas vêem-se como classe média e esta vê-se como elite. Poderíamos dizer que apenas a verdadeira elite se vê como realmente é e usa essa consciência para explorar as classes abaixo, lançando mão de artifícios midiáticos de manipulação e doutrinação sócio-ideológica.

Mas como o discurso elitista consegue ecoar no meio social, permeando por todas as suas camadas, em um país continental de mais de 200 milhões de habitantes, onde a grande maioria é formada por uma população empobrecida? Como é possível um trabalhador miserável defender os interesses do capital que o explora e o escraviza?

Não é preciso ser profundo conhecedor de teorias marxistas para saber que os interesses dos trabalhadores não são os mesmos de quem os explora e usurpa suas forças de trabalho e suas rendas. O único momento de apaziguamento entre esses interesses antagônicos ocorreu, por ironia, no governo Lula, com uma improvável conciliação de classes, configurando o mais exuberante momento econômico brasileiro. O empregador respeitava o empregado e este enriquecia o dono do capital. Águas passadas.

No atual ambiente distópico brasileiro repete-se o que já foi visto em tantas outras oportunidades, como na deposição de João Goulart e na ascensão do Nazismo, para ficarmos apenas em dois exemplos. Com o discurso principal do combate à corrupção, como cortina de fumaça, elege-se e define-se um inimigo interno, jogando a população contra si própria, polarizando o ambiente político e acirrando os ânimos de todos.

Com base nisso, vimos, nos últimos anos, uma crescente campanha anti-petista, com a intensificação de ataques midiáticos ao mais popular partido brasileiro, que esteve no poder de 2002 a meados de 2016. Como a elite, representada aqui por partidos de centro-direita, perdeu em 4 eleições seguidas, viu que não conseguiria voltar ao poder por vias democráticas, por meio do voto direto. Derrotadas nas eleiçōes de 2014, forças elitistas do país associaram-se a outras elites transnacionais, sobretudo a norte-americana, que há muito deseja colocar suas mãos nas riquezas brasileiras, principalmente no recém descoberto pré-sal, localizado a cerca de 300 km da costa do país.

Com o capital financeiro mundial por trás, iniciou-se uma era de ataques inescrupulosos da mídia contra o PT, acusando-o de corrupção em várias frentes de seus governos, concentrando boa parte de sua artilharia contra a PETROBRAS, que havia sido alçada a uma das maiores companhias petrolíferas mundiais, sob as asas dos governos petistas. Essa campanha foi articulada com a participação de instituiçōes que deveriam zelar pelo interesse nacional, como os poderes judiciário e legislativo. Para quem quisesse enxergar, a manobra era clara: forças internacionais ajudariam a devolver a elite brasileira ao poder, em troca de ativos da nação e da quebra da economia e da indústria internas, alterando o status do Brasil, de importante player econômico mundial, a um simples exportador de commodities, sem oferecer nenhuma concorrência nos mercados mundiais. A ideia era saquear o Brasil.

Mas nada disso seria possível sem o apoio da opinião pública. Daí o importante papel da mídia, tanto da tradicional quanto das redes sociais, de manipulação ideológica da população. Assim, foi pavimentado o caminho para derrubar a presidenta Dilma do poder e impossibilitar o retorno do ex-presidente Lula ao Palácio do Planalto. A saída encontrada foi prendê-lo, sob frágeis condenações e imputações indeterminadas e, consequentemente, não provadas. Lula continua cerrado, veladamente como preso político, há mais de um ano, em uma cela na Polícia Federal de Curitiba.

No período entre o golpe que retirou as forças progressistas do poder, em 2016, até os dias atuais, precarizaram-se as relações de trabalho. O desemprego mais do que dobrou, chegando a assustadores 14 milhōes de pessoas sem colocação no mercado. Todos os indicadores econômicos pioraram. A gasolina, o dólar e o gás alcançaram recordes máximos de valores. Sob a bandeira fiscalista, foram ceifados investimentos sociais aos mais necessitados, bem como diminuída a verba destinada à educação. Assim, a população brasileira empobrece a olhos vistos e as ruas vêem cada vez mais pessoas engrossando o contingente de moradores sob suas pontes, renegados pelo novo Estado e relegados ao relento.

O reflexo disso tudo, em um ambiente de crise aguda, foi a ascensão da extrema direita fascista e a quase aniquilação de partidos de centro-direita. Com Bolsonaro no poder, após as eleições fraudadas de 2018, sem a participação de Lula (candidato até então favorito em intençōes de voto), o país caminha sobre a tênue linha que separa a democracia do fascismo. Com o discurso de ódio e persecutório ao posicionamento progressista, os esquerdistas de hoje foram transformados nos judeus de ontem. As mulheres sofrem constantes agressões misóginas, inclusive físicas. Os negros estão perdendo inúmeras conquistas recentes, vendo o crescimento abrupto do discurso de segregação racial. Os índios são constantemente ameaçados a terem suas terras invadidas por novas fronteiras agrícolas. Para a turma fascista, os pobres não devem ter acesso à educação. Devem contentar-se com sua petrificação e imobilização na base da pirâmide social, sem nenhuma chance de ascensão.

Com essa tática, as elites garantem o avanço da agenda neoliberal de entrega das riquezas nacionais e de privatizações de empresas e instituições públicas, inclusive universidades, sistemas de saúde e a própria previdência social. Não é necessário nenhum poder de clarividência para perceber que, nesse processo, a quase totalidade da população sairá perdendo, em benefício de uma minoria ínfima, porém poderosa, formada por banqueiros, rentistas e altos executivos.

Nisso tudo, há um componente ainda mais perverso, que faz os brasileiros parecerem bois, rumando, voluntariamente, ao abate: a questão religiosa. Sobretudo as religiões neo-pentecostais, que possuem alcance nas mais longínquas localidades do país, com milhões de seguidores e simpatizantes, são utilizadas pelas forças dominantes para massificar ainda mais a idiotização ideológica no seio da população.

Se a manipulação, o ódio, a ignorância e o emburrecimento de parte significativa da população, por si só, já configuram-se em uma barreira muito resistente a ser desconstruída pelas forças progressistas, a religião serve como uma blindagem a ela. Um escudo que dificulta a aproximação de argumentos que visam o descortinamento do véu que abre caminho para o avanço aniquilador das políticas ultra-liberais, que retiram direitos individuais, desregulam as relações econômicas e quebram o Estado de bem-estar social.

Como geógrafo, não poderia sonegar a lembrança do pensamento de Milton Santos, brasileiro, negro e uma sumidade mundial no que tange ao estudo do tecido econômico-social, visto sob o prisma geográfico. Ele afirmava que a sociedade poderia ser classificada em duas grandes classes: a dos que não comem e a dos que não dormem, com medo dos que não comem.

Por certo, a camada mais pobre da população, por ter a esmagadora maioria numérica, seria, teoricamente, mais poderosa e com inteiras condições de reverter a ordem perversa do sistema atual, que a escraviza, explora e marginaliza. Sua força seria intransponível e não haveria resistência nenhuma à sua vontade, desde que ela fosse unida, consciente e aguerrida. Sabendo disso, a elite econômica lança mão da religião, da manipulação midiática e da escolha de um inimigo interno para domesticar, pacificar, entreter e dividir a grande massa.

Enquanto prendem-se a um inimigo imaginário (a esquerda comunista), dentro de suas próprias fronteiras, as pessoas não se dão conta que o verdadeiro perigo vem de fora, com a orquestração internacional de um sistema corrupto de corrosão econômico-social, que deixou a população inebriada pelo ódio. Os efeitos disso ainda são imprevisíveis, mas presume-se que seus estragos demorarão muito a serem reparados.

No entanto, de forma reativa, surge uma resistência que vem tomando corpo, com canais independentes e contra-hegemônicos de comunicação e com o início de tomada das ruas por jovens que não se dobram à mais vil tentativa de manipulação. Pessoas que acreditam na educação como uma saída para a torpeza da situação atual e que tentam, ainda que com muita dificuldade, fazer o povo enxergar-se como realmente é: pobre, explorado e subjugado.

Urge, portanto, com muita força, solidariedade e união, encontrarmos uma forma de penetrar nessa bolha de ignorância e fazer o país ressurgir da mais absoluta escuridão. Hoje a informação de qualidade, o debate e o trabalho de tomada de auto-consciência tornaram-se mais importantes do que nunca. São as armas para evitar nossa aniquilação total.

Ou não sobrará pedra sobre pedra. Ou não restará Brasil para contar essa história aos nossos filhos e netos.

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