A cor da pele

Nós temos de parar de disputar, entre nós, quem é negro de verdade, porque o racismo grassa à direita e à esquerda, e as armas de fogo não estão apontadas para nossas religiões, mas, para a cor da nossa pele

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O governador do Estado do Rio de Janeiro disse que se alguém for encontrado portando um fuzil será abatido. Isto é execução, é rito sumário! É crime!

Um jovem, porém, saiu com um caderno e foi morto, outro saiu com furadeira e foi morto; outro, ainda, saiu com um guarda-chuva e, também, foi morto; outro saiu com a família e foi alvejado por saraivadas de tiros de fuzil.

Eles não saíram com fuzis, mas, levaram consigo o que não havia como deixar em casa, saíram com a cor negra de sua pele.

Quem, porém, de fato, se abala com esse genocídio? Além dos parentes e mais uns gatos pingados... ninguém.

Eu sou negro, evangelico e sou um militante pelo Estado de Direito e pelos direitos humanos, o que, nesse país, me coloca, politicamente, na esquerda.

Sabe, racismo não é problema da direita ou da esquerda, é problema dos brancos!

O racismo, no Brasil é estrutural e estruturante, como me disse um Psicanalista amigo meu.

E, mais, os brancos só dão espaço aos negros que se portam como Pai Tomás... se a gente não se porta e não diz o que eles esperam, rapidinho eles começam a se mexer para nos fazer ver o nosso lugar.... à direita e à esquerda.

E eles estão sempre tentando dizer qual é o nosso lugar: os brancos, de direita, representados pelo governador, dizem que para não corrermos risco devemos sair portando uma Bíblia, os brancos, de esquerda, dizem que se a gente não sair portando guias, então, a gente não é preto de verdade. 

Sabe, a fé cristã é de matriz Afro-asiática, Jesus de Nazaré, o Cristo era negro, seus apóstolos, também. Os profetas do AT, também. Os chamados Pais da Igreja, também, eram, em sua maioria, negros. Depois que a Igreja veio para o Ocidente, foi, gradativamente, perdendo a sua cor.

Assim, nós, negros, estamos na origem das religiões de matriz africana, que aqui nasceram da resistência à escravização, e da fé cristã que é afro-asiática. 

Nós temos de parar de disputar, entre nós, quem é negro de verdade, porque o racismo grassa à direita e à esquerda, e as armas de fogo não estão apontadas para nossas religiões, mas, para a cor da nossa pele.

Nós, negros e negras, maioria dos brasileiros, temos de assumir que estamos nessa luta por nós e só nós estamos.

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