A corda que o rato roeu

Na democracia, há hora de ganhar e de perder. E não se deve roer a corda. Corre-se o risco, ao fazê-lo, como na montanha de Bolsonaro, de gerarmos um único rato pendurado nas fantasias de grandeza do que deveria ter sido e nunca será

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(Foto: Agência Brasil)


Clímax e anticlímax – são as formas pendulares, peculiares, que, de uns tempos para cá, vivemos na política brasileira. Ficamos com a impressão de que nos contaminou uma tal carga de emoções que mal temos tempo de resolver os problemas (e são vários) que se acham diante de nós. Parte do clímax se anunciava inaudito, intenso, para abalar os alicerces do Estado. No fim, além de um discurso cuja irreverência em relação a um Ministro do Supremos Tribunal Federal ultrapassou as medidas, verificou-se, segundo a constatação de João Doria, governador de São Paulo, que a montanha parira um rato. Quem já trabalhou em teatro, visitou os gregos, Shakespeare e até Nelson Rodrigues, sabe que a cena não pode se dar ao luxo de viver em situação de alerta, à beira de um precipício ou de um ataque de nervos. Isto porque o momento seguinte, a hora da verdade, traz o instante da reflexão, quando damos pesos e medidas ao que fizemos ou deixamos de fazer. Na política, não é diferente. Quem permanece à testa do governo deve possuir uma intuição, um sexto sentido capaz de definir quando avançar e quando recuar, sem tutelas e estratégias para consertar os estragos.  

Ir longe demais, pode desencadear as crises de choro, o desespero e algumas atitudes que passam para a população, depois da prova de força que não aconteceu, como sinais de fraqueza. Bolsonaro cometeu tais erros com abundância. Não subiu nem desceu a montanha porque aquilo não passou de um declive, desses que o carro transpõe sem afogar, nem precisar de uma segunda ou de uma primeira. Para um golpe de Estado, anunciado aos quatro cantos, o tiro saiu pela culatra. Não havia energia, apoio de canto nenhum ou força física (tropas?) para colocá-lo em prática. Felizmente! Tirou-se um peso da consciência. Mas, para quem estava em cima do palanque, esperando adesão de fanáticos, que decepção!... Um, alcunhado de Zé Trovão, ameaçado de prisão pela Polícia Federal, escafedeu-se, finalmente localizado no México, confortavelmente instalado num hotel. Esgueirando-se de uma montanha que não era montanha, o rato roeu uma corda que não era corda e não sustentava coisa nenhuma, além de vaidades feridas e sonhos de grandeza. Quem pretendia transformar-se em Imperador, acordou pedindo socorro a Michel Temer (!) que, generosamente (e não sem um ego do tamanho de um bonde), admitiu haver redigido uma carta de explicações, assinada por Jair Bolsonaro, para acalmar os três poderes e, no ponto extremo da corda, o Ministro Alexandre de Moraes. Não era um documento propriamente precioso, uma carta-testamento, para guardar na memória. Como remédio para os nervos, seria preciso mais, muito mais. Realmente, o Brasil de 2021 não é o de 1954 e Bolsonaro está a anos-luz de um Getúlio Vargas.  

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Nas dimensões da situação, serve de consolo que a falta de grandeza talvez nos poupe do pior. Sem estadistas, tendo de lidar com pequenos títeres ou arremedos de mandatários, é certo que a inflação continuará corroendo os salários e o que resta de uma economia organizada. Quem imaginou, entre os conservadores, que possuía uma alternativa, pode-se prever a sensação de beco sem saída frente ao que se antevê no quadro eleitoral para 2022. Já se sabe como esses setores se entendem como os donos do pedaço. No entanto, na democracia, há hora de ganhar e de perder. E não se deve roer a corda. Corre-se o risco, ao fazê-lo, como na montanha de Bolsonaro, de gerarmos um único rato pendurado nas fantasias de grandeza do que deveria ter sido e nunca será.

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