A distopia que adoece os jovens

Para quem, como eu, frequenta os espaços acadêmico-universitários – primeiramente como discente e, depois, como docente – há mais de 3 décadas, é alarmante a velocidade com a qual vêm se impondo nos últimos anos os relatos sobre alunos e alunas que desenvolveram algum tipo de transtorno mental no decorrer da sua vida estudantil

Câmpus da UFRJ, no Rio de Janeiro
Câmpus da UFRJ, no Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O Trilhas da Democracia do dia 9 de fevereiro debateu o tema do adoecimento mental da juventude com Tereza Ribeiro, assistente social do CAPS Livremente e professora da Universidade Estadual da Paraíba, e Rosinha Barbosa, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco.

A pautar a discussão desde o início, os impressionantes dados relativos ao crescimento do número de tentativas de suicídio e suicídios consumados por parte de jovens a partir do início do século XXI, invertendo, com isso, a característica etária marcante da impulsão ao suicídio: o seu cometimento pela parcela idosa da população.

Para quem, como eu, frequenta os espaços acadêmico-universitários – primeiramente como discente e, depois, como docente – há mais de 3 décadas, é alarmante a velocidade com a qual vêm se impondo nos últimos anos os relatos sobre alunos e alunas – na graduação, mestrado e doutorado – que desenvolveram algum tipo de transtorno mental no decorrer da sua vida estudantil.

Não tenho, aqui, a menor pretensão de elencar o conjunto de motivações individuais, sociais e biológicas que vêm levando uma parcela cada vez mais expressiva da juventude universitária a desenvolver algum tipo de transtorno mental, mas apenas e tão somente conjecturar acerca da possibilidade de tal crescimento encontrar-se vinculado ao percebimento de um horizonte cada vez mais próximo de um mundo da vida desprovido de utopias capazes de movimentar essa parcela da juventude na direção de um telos que não seja a mistura entre medo social e consumismo.

Claro é que, em termos históricos, a ausência de perspectivas utópicas sempre caracterizou a subjetividade da parcela da juventude pobre, negra e favelada que, durante boa parte do século XX, nunca pode alimentar o sonho de colocar os seus pés dentro de uma universidade, especialmente de uma universidade pública, e que, não obstante o grande avanço ocorrido na adoção da política de cotas para ingresso nas instituições públicas de ensino superior, continua alijada de frequentar tais espaços porque não consegue sequer concluir o ensino médio.

Chocante é, porém, o fato de, para aqueles que conseguiram ultrapassar os muros de uma universidade, o futuro ter se tornado um tempo presentificado, isto é, um refúgio onde se esconder num momento da história em que não se apresentam projeções individuais e/ou coletivas minimamente seguras.

Dito de outra maneira, uma parcela crescente dos jovens que se encontram atualmente dentro do espaço universitário depara-se (para além das dificuldades objetivas de sobrevivência) com uma realidade distópica, na qual a possibilidade de se conseguir um emprego ao fim do curso e/ou de se viver num país em que os ideais de liberdade, igualdade e diversidade sejam garantidos, escapa aceleradamente, sem saber muito bem o que fazer para que tal estado de coisas seja revertido.

Em um cenário quase desértico como esse, o espaço da universidade pode e deve transformar-se não apenas num espaço de resistência, mas também de reconstrução utópica.
 

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