A elite inescrupulosa e o julgamento-boi de piranha

Por que só os políticos do Partido dos Trabalhadores sofreram verdadeiro linchamento moral e, apenas eles, foram condenados num julgamento de exceção – “um ponto fora da curva” –em toda a nossa história republicana?

Quando os tropeiros necessitavam atravessar um rebanho por um rio infestado de piranhas sacrificavam algumas reses atirando-as à voracidade dos peixes famintos, para que as demais passassem incólumes, tranquilas.

O julgamento da AP 470, chamada com estrépito jocoso de “mensalão” pela grande imprensa de mercado e seus colunistas sabujos de uma elite sem pudor ou escrúpulos, condenou à prisão alguns políticos do Partido dos Trabalhadores. Mas apenas os do PT -que fique claro. E também, para o bem da verdade,de alguns outros poucos,a estes coligados, para que a lição “emblemática” fosse aprendida em definitivo.

E assim foi apenas para que os demais políticos, os conservadores, possam prosseguir incólumes com certas práticas comuns a todos os partidos. Aquilo que para uns é “quadrilha” ou “corrupção”, para outros é mero “caixa 2”.

Por que só os políticos do Partido dos Trabalhadores sofreram verdadeiro linchamento moral e, apenas eles, foram condenados num julgamento de exceção – “um ponto fora da curva” –em toda a nossa história republicana?

E qual seria essa “lição emblemática” a que se faz referência? Não lhe parece lícito e honesto perguntar? Ou o nosso senso de honestidade e justiça é relativo, seletivo?

A mensagem ou lição que essa pequena parte odienta de nossa elite pretende transmitir é: não se arvorem a implantar políticas públicas em benefícios dos mais pobres e em detrimento dos mais ricos. Eles estão a nos dizer: fiquem no seu devido lugar, vocês são subalternos; não ousem e não nos incomodem com seu “petulante” protagonismo.

Por que os demais políticos não são condenados? Se,todos sabemos, há muito, os seus nomes e crimes? Se nesses casos o enriquecimento ilícito é flagrante, solta aos olhos?! Se até os números das suas contas no exterior sabemos, bem como se sabe o valor exato, até os centavos, dos milhões de dólares que por estes foram desviados, roubados?

Por que os condenados, os “bois de piranha” escolhidos para salvar todo o rebanho de hipócritas, atendem pelo nome de Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoíno?E por que em relação a estes, apenas a estes, podemos citar os nomes, ofender, injuriar à vontade, sem o risco de sofrermos um processo judicial?

Porque são de um partido que ousou defender os interesses dos pobres, dos despossuídos; que ousou “afrontar”, por em xeque, privilégios seculares de uma elite conservadora e inescrupulosa. Uma elite que não tem pudor em eleger e proteger aqueles que “roubam, mas fazem”- contanto que “roubem, mas façam” para o privilégio dessa parte, mais egoísta e espoliadora,das castas mais privilegiadas da nossa sociedade. Uma elite que diz querer menos impostos e um Estado menor, mas, paradoxalmente, também reclama por mais segurança, mais saúde e educação – enquanto os seus já usufruem,desde sempre de segurança, saúde e boa educação.

São homens de um partido que implantou o Bolsa Família, chamados de “Bolsa Esmola” pelos falsos moralistas reacionários;um partido que melhorou, um pouquinho de nada, a renda dos mais pobres, o que propiciou que a chamada “gentalha” comprasse automóvel e andasse de avião; que tivesse acesso a mais médicos; que - veja bem a audácia ! - estendeu direitos trabalhistas primários aos empregados domésticos.

Esses homens merecem o opróbio, a cadeia!

Não serão também linchados na grande mídia e condenados ao cárcere os que se locupletaram com dinheiro público e compraram apartamentos em Higienópolis e Miami – ou casas de praia em Trancoso ou Boca Raton?

Não, estes não serão importunados. Estes são os “homens bons”.
Triste é a nação que condena e relega à prisão homens que dedicaram suas vidas à luta por melhores condições de vida para o trabalhador, para o seu povo; homens que, muitas vezes, em detrimento de seus próprios interesses pessoais, de suas carreiras profissionais e de suas famílias, cuidaram dos interesses dos despossuídos;batalharam, diuturnamente, por mais justiça social.

Triste é o país que seus verdadeiros heróis são tratados como bandidos, para que os seus verdadeiros bandidos sejam tratados como heróis.

Triste é a sociedade na qual, numa espúria e hipócrita homenagem, são erigidos monumentos, em praça pública, em louvor à memória de seus autênticos bandidos “bem nascidos”, de sorriso fácil e colarinho branco. Que utiliza de seus nomes para batizar ruas, avenidas e escolas públicas.

Escolas onde estudarão - e nada aprenderão - as futuras gerações.

 

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