A empregada Mirtes e a patroa Sari

Fora das declarações da mãe Mirtes, compreendemos que a ex-patroa presa ainda não será a Justiça. Poderemos ter uma Justiça pequena, sujeita a recursos e acordos, uma Justiça enfim que não suprime a exploração sobre os homens e mulheres. Mas que se cumpram ao menos as leis que conseguimos ter

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A paisagem do Recife hoje é manchada pelas Torres Gêmeas. Monstrengo arquitetônico desde a sua fria concepção, há um mês recebeu o acréscimo da morte do menino Miguel, que desceu para a morte de um dos seus andares. 

https://i.pinimg.com/originals/61/7f/f2/617ff248e889608d3c40cc63e89c1e16.jpg 

Mas agora vamos procurar descer mais fundo em duas pessoas que hoje marcam a mancha na mancha dessa arquitetura. Olhemos mais de perto a empregada Mirtes Santana, mãe de Miguel da Silva, e Sari Real, a sua patroa. Ou melhor e mais precisamente, vamos procurar ver a pessoa de Mirtes, pois a senhora Sari aparecerá apenas como contraste. Nesss caso, o curioso, o moderno é isto: vivemos um tempo em que até o crescimento da consciência pode ser documentado em imagens. 

Primeiro, olhem o desespero de Mirtes ao descobrir o corpinho do filho no chão. Tempo 2;19 do vídeo:

https://www.youtube.com/watch?time_continue=458&v=WV0Hse7nn8Y&feature=emb_logo  

Além do desespero da mãe, não percebem o mais revoltante? Se não, destacamos: é terrível ver que, diante do corpinho estendido do filho no chão, Mirtes ainda segura o cachorro da patroa, toma conta do cachorro. Chora, grita para os céus, mas mantém a rédea curta para o cachorrinho de Sari.  Isso quando o seu filho não teve o mesmo tratamento que a empregada Mirtes dá ao cão. Surpreende, revolta, mas ao mesmo tempo dá a dimensão da tragédia e da dignidade. Mirtes sabe que cachorros sozinhos fogem, e podem morrer quem sabe atropelados. Mas a patroa não sabe, ou nem quer saber, que criancinhas de 5 anos podem agir como cães soltos, mas como o cão não é dela, ela o libera. “Não tenho nada com isso”, ela pensou, e tal pensamento não é fantasia de ficcionista. Mais adiante, a patroa falará em depoimento à polícia: “Não tenho responsabilidade sobre a criança. Então eu deixei a criança ir passear”. E depois repetiu à mãe que não tinha qualquer responsabilidade pela criança morta. 

Isso quer dizer: a consciência de classe da patroa é clara desde o elevador, e depois nas consequências do ato. Mas ela não se dá conta do crime cometido. Ela se pergunta, de sã consciência, se perdoam o abuso da expressão, ela se pergunta de sã consciência qual foi o seu crime. Ela não sabe. Não lhe dói nem quer saber. Tomar conta de filho de empregada?!!!!!!!!??? É a subversão total deste mundo. Ora. Mas o que as imagens mostram, antes até do depoimento na delegacia de polícia civil, é que a consciência da patroa não mudou. Se não, observem no tempo 3:31 do mesmo vídeo 

https://www.youtube.com/watch?time_continue=458&v=WV0Hse7nn8Y&feature=emb_logo 

Diante da urgência e emergência do copo da criança no chão, com restos de vida, a patroa para no elevador e conversa. Não há nem um raio de solidariedade, uma minúscula célula de compadecimento e compreensão pela sorte da criança. Há urgência urgentíssima para um corpo ainda com vida, mas a patroa Sari para e conversa. E depois, no maior disfarce, põe a mão sobre o ombro da empegada. Se fosse dada a leituras bíblicas, Sari poderia pensar: “Tudo está consumado”. Consolada de si, consola a mãe para o público ver. A hipocrisia burguesa é um belo quadro. De Goya. 

Mais adiante, em outro dia, o que as imagens mostram a meio mostrar, porque não veem, porque imagens não têm legendas do íntimo das pessoas. Quero dizer:  vê-se em palavras e expressão do rosto o crescimento da consciência da empregada Mirtes, que perde a confiança nos atos e palavras da patroa. Está no vídeo: 

https://videos.band.uol.com.br/brasilurgente/16806356/caso-miguel-ex-patroa-diz-que-simulou-apertar-botao-do-elevador.html 

“Ela foi extremamente fria, calculista, irônica, querendo pôr contra mim um ar de superioridade. Ela teve o descaramento de dizer que eu não deixei ela responsável pelo meu filho. Quando ela ouviu o barulho, que foi no momento em que Miguel caiu, ela disse: ‘acho que Miguel quebrou alguma coisa no corredor’. Ela se preocupou mais com o que ele tinha quebrado do que com a própria vida do meu filho... Irônica! O tom com que ela falou comigo foi de ironia”.

Há nessas palavras e nas imagens um crescimento da consciência da empregada, que percebe terem arrancado tudo da sua vida, ao mesmo tempo que compreende o valor que objetos têm para os patrões, mas não as vidas, se forem de negros empregados. 

Ou como a empregada Mirtes chegou a entender pelo curso mesmo da sua desgraça:  

"Sari não tem arrependimento nenhum, a cara dela mostra que ela não tem arrependimento pelo que ela fez com o meu filho. Ela disse que eu estava na casa dela sem fazer nada. Eu estava trabalhando! Se eu estava ali sem fazer nada, por que ela me deixou lá, não deixou eu ir para a minha casa no meio da pandemia? Ela é fria, ela é um monstro, ela não é a mulher que eu conhecia, ela é ingrata. Disse que eu não tinha obrigação nenhuma com os filhos dela, mas eu cuidava dos filhos dela porque ela não dava atenção. Eu não reconheço Sarí, não é a mulher pra quem eu dediquei quatro anos da minha vida e minha mãe, seis. Ela é um monstro". 

Em outro vídeo, a mãe de Miguel fala do  desprezo com que foi olhada pela ex-patroa : “O corpo fala também”, a empregada Mirtes compreendeu, muito bem compreendeu. Olhem  

https://www.youtube.com/watch?time_continue=15&v=JvDwYHHywas&feature=emb_logo 

Agora, Mirtes quer ver Sarí condenada. “Eu quero a justiça. Agora tem as próximas etapas, com o Ministério Público (MPPE) e com a Justiça (TJPE). Espero que dê tudo certo, porque vou continuar batalhando. Quero que ela seja condenada, presa, que pague pelo que fez com meu filho. Pode demorar o tempo que for, mas eu vou até o fim. Não vou descansar. Não admito pena alternativa, ela tem que ir para a cadeia como todo mundo”. 

Fora das declarações da mãe Mirtes, compreendemos que a ex-patroa presa ainda não será a Justiça. Poderemos ter uma Justiça pequena, sujeita a recursos e acordos, uma Justiça enfim que não suprime a exploração sobre os homens e mulheres. Mas que se cumpram ao menos as leis que conseguimos ter. 

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