A endemia da ignorância

Para integrantes do atual governo, pensar não é apenas perigoso demais, mas algo raro e difícil

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Ao anunciar que os recursos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) não terão mais como prioridade de destino as Ciências Humanas, o CNPq confirma o projeto em curso que visa o sufocamento das pesquisas realizadas nesse campo do conhecimento. A justificativa vem no sentido de estabelecer “áreas prioritárias” de investimento; e as Humanidades não se encontram entre elas.

É triste, mas nada surpreendente. Para integrantes do atual governo, pensar não é apenas perigoso demais, mas algo raro e difícil. Livros têm sido criticados porque “têm muita coisa escrita”, decretos são assinados sem a devida leitura pelo fato de alguns possuírem “vinte páginas” que de acordo com o presidente da República, não bastariam apenas serem lidas, mas também “interpretadas”. Imaginemos só o trabalho: ler e interpretar. Um suplício absurdo!

A decisão do CNPq escancara o sentimento de colocar as Humanidades como ciências menores. Assim, seria preciso destinar a verba para aquilo que possa resolver o atual problema da saúde relacionado à Covid-19 ou que gere algum tipo de patente, impactando sobre a transferência de tecnologia. Tal decisão não deveria ser utilizada como justificativa para o corte. Sob esse viés, ao mesmo tempo em que é a ciência aplicada é que tem a preferência, a mesma é reduzida a um ativo econômico, cujo investimento aguarda um retorno monetizado e, de preferência, lucrativo.

Não seria necessário reafirmamos que toda e qualquer ciência é importante e que o orçamento da União – fosse gerido sem desvios, má vontade, preconceito ou ódio direcionado – poderia contemplar, ainda, um aumento no número de bolsas, não apenas de iniciação científica – em nível de graduação e cujo valor é de R$ 400,00 –, mas também de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado.

Para além da necessária e urgente preocupação com pandemia o governo poderia se preocupar em combater a endemia de ignorância que há muito assola o país, não acentuá-la. Sem as Ciências Humanas nossas fragilidades social, política e cultural aumentam; e como efeito, somos jogados para o interior de uma crise ético-moral que escancara nossa falta de solidariedade, empatia e compaixão. São as Ciências Humanas que auxiliam dando liga às nossas relações intersubjetivas, que nos aproximam dos outros; que produzem coesão social, contribuindo para a redução de diferenças e desigualdades.

Com esse golpe nas Humanidades, continuaremos a desvalorizar o trabalho intelectual e a erudição, a desdenhar dos livros e da importante prática da leitura, a não conhecer os personagens de nosso país e sua importância histórica e, tampouco, os significados, representações e ritos da nossa cultura. Continuaremos não estimulando a população a ir ao teatro, a não prestigiar museus, galerias de arte e a produção cinematográfica que se encontra fora do circuito da indústria cultural; permaneceremos consumidores de uma cultura enlatada, quando – para além disso – poderíamos desfrutar de outras tantas atividades potentes que nos fariam experienciar diferentes estéticas de nossa existência.

Sem as Humanidades continuaremos como a presa fácil que está a mercê de qualquer reescrita da história, aceitando quaisquer regimes de verdade que se impõem pela força de um poder que não é ingênuo, cujo desejo é o embrutecimento cognitivo. Garantir a produção de conhecimento sem distinção significa investir em uma produção científica horizontal sem matar a formação básica em nenhuma área do saber, além de investirmos sobre a cura da endemia da ignorância no país: mãe de muitos problemas que assolam a nação.

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