A esquerda esquece que dois anos é tempo demais para fazer a travessia do Rubicão

A colunista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, afirma que respeitar demais o pleito de 2018 pode ser arriscado para a esquerda. Ela diz: "não tivemos eleições limpas em 2018. Dizer que devemos respeitar a escolha de Bolsonaro, é fechar os olhos para uma fraude eleitoral que está sendo investigada e, se a Justiça voltar ao curso normal, o desfecho não poderá ser outro se não constatar as ilegalidades do pleito"

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Todos sabemos que o senhor Bolsonaro foi eleito com 57 milhões de votos em meio a uma série de denúncias de que robôs e uma avalanche de fake news alavancaram a sua eleição. Está aí a CPI sobre o tema, que não me deixa mentir. Só a ministra Rosa Weber não quis dar ouvidos a elas e tocou o carro pra Lapinha, como dizem os baianos – concluindo sem solavancos o processo eleitoral. 

Agora é mais que sabido - com dia, hora e época definidos por Gustavo Bebianno - que o ex-juiz Sergio Moro recebeu o convite para ocupar o cargo de ministro da Justiça, entre um turno e outro da eleição. Exatamente no período escolhido por ele para divulgar - em meio a um país conflagrado – a denúncia oca de Antonio Palocci, sem provas, contra o ex-presidente Lula. A manobra era, hoje sabemos, sua valiosa contribuição para fazer Bolsonaro chegar ao cargo de presidente e consumar o convite, já feito, para ocupar o cargo onde está hoje e com o compromisso, a futuro, de ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

Tanto foi assim que Moro não pensou duas vezes em jogar para o alto a carreira estável de juiz concursado, para agarrar-se ao cargo que agora ocupa, conforme o prometido. Depois de todas as evidências e denúncias, fica cada vez mais claro que o papel de Sergio Moro foi manobrar escandalosamente com a Lava Jato para tirar Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato líder nas pesquisas, do cenário político, confinando-o por 580 dias numa cela da Polícia Federal, a fim de permitir a até então improvável vitória de Bolsonaro.

Traduzindo: não tivemos eleições limpas em 2018. Dizer que devemos respeitar a escolha de Bolsonaro, é fechar os olhos para uma fraude eleitoral que está sendo investigada e, se a Justiça voltar ao curso normal, o desfecho não poderá ser outro se não constatar as ilegalidades do pleito.

Não há, portanto, porque a esquerda encampar o discurso de que “este senhor foi eleito, vamos respeitar”. Adotar esta fala e deixar de gritar “fora Bolsonaro” é incorrer no mesmo erro de permitir avançar o “fora Dilma”, e aceitar pacificamente o golpe porque “em 2018 Lula vem aí”. 

O imediatismo queimou as expectativas dos que apostaram nesse desfecho, sem levar em conta que havia dois anos a serem atravessados, período suficiente para aquele senhorzinho, o tal Michel, acabar com a CLT, retirando o direito dos trabalhadores, numa reforma cruel. Implementar um teto de gastos tão absurdo que, agora, até a ultradireita não sabe como se virar para governar com ele. Entregar o pré-sal, dar a Embraer de mão beijada com toda a tecnologia desenvolvida pelos nossos pesquisadores, para os americanos. E estruturar e deixar o caminho aberto para a draconiana reforma da Previdência aprovada pelo sucessor, além de todas as medidas absurdas, como liberar geral as queimadas na Amazônia e abrir mão de um fundo arduamente costurado para apoiar a sua preservação e tantos outros desmandos. 

Enquanto “aceitamos” apenas assistir o espetáculo deplorável das falhas e deslizes desse governo, por inércia a economia vai se movendo e, no final do ano, quando for anunciado o PIB de 1%, haverá queima de fogos e comemoração. O (des)governo de Jair será aplaudido como o salvador da pátria, o que está conseguindo colocar “ordem na casa”. Esperar que a organização da esquerda se dê até 2022, para então chegar a uma chapa digerível à esquerda, ao centro e, talvez, abocanhando uma “direita light”, é acreditar que o bom velhinho de vermelho topou ser cabo eleitoral e vai passar mais cedo, com o seu saco de bondades. 

Não se está falando em tocar fogo no paiol de pólvora, mas perder um pouco da ingenuidade, ou do comodismo, parece ser uma atitude a ser experimentada. Atravessar mais dois anos para atingir a margem do Rubicão é tempo suficiente para o público eleitor adquirir a síndrome de Estocolmo. É esse o caminho?

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