A essência do governo é o neoliberalismo

"Jair Bolsonaro serviu como candidato, mas tem atitudes e linguagem que podem ser dispensados. O fundamental é que o Paulo Guedes ou outro neoliberal, mantenha o modelo em funcionamento", escreve o sociólogo Emir Sader

(Foto: ABr - Reuters)
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O capitalismo internacional assumiu o modelo neoliberal como o seu, em todas as partes do mundo, em todas as circunstâncias. Todos os governos de direita assumiram esse modelo.

No Brasil, a direita agiu, desde que  passou a governar o país, de todas as formas, para tratar de retomar esse modelo. Primeiro pelas eleições, quatro vezes, depois pelo golpe contra a Dilma. 

Assim que retomou o governo, a primeira coisa que fez foi nomear um ministro neoliberal para dirigir a economia, Henrique Meirelles. Realizou-se, junto com o sonho da direita de tirar o PT do governo, o de restabelecer seu modelo. 

Nesse aspecto, há continuidade entre os governos de Temer e de Bolsonaro. Paulo Guedes mantém a mesma política econômica de Meirelles, mais além das declarações ideológicas ultra neoliberais, que não afetam a política econômica. 

Quais as diferenças entre os governos Temer e Bolsonaro? São, antes de tudo, governos da direita brasileira, cujos objetivos são tirar o PT do governo e estabelecer políticas neoliberais. Fernando Collor, FHC, Temer, Bolsonaro – são distintas expressões políticas disso.

Temer e Bolsonaro assumiram no processo de ruptura da democracia, segundo a estratégia da guerra híbrida. A diferença vem de que Temer assumiu imediatamente quando foi consumado o golpe contra a Dilma. Não teve que concorrer em eleições.

A modalidade da guerra híbrida viola a democracia, pela judicialização da política, supõe a manutenção de certo grau de institucionalidade, porque trata de afirmar que não rompe com a democracia. Tiveram então que manter o calendário eleitoral e as eleições de 2018.

Mas, como os governos neoliberais não têm políticas sociais e, assim, tendem a ser derrotados nas eleições, Lula era o favorito para ganhar as eleições no primeiro turno. A direita então colocou em prática a nova operação da guerra híbrida e da judicialização da política. 

Prendeu e condenou o Lula, sem provas, promoveu uma brutal operação de whatsapp, que alterou o resultado eleitoral, provocando a derrota do Haddad e a vitória do Bolsonaro. 

A projeção de Bolsonaro como líder da direita, no lugar do estilo dos tucanos, produziu alterações não somente no discurso político, mas também em transformações no governo. O discurso do novo presidente passou a promover ataques ao Judiciário, ao Congresso, aos meios de comunicação e à oposição, com linguagem violenta e ameaças de uso da força contra eles. Ao mesmo tempo, foi liberado ainda mais o porte de armas, incentivadas as ações violentas das polícias contra a população mais pobre.

Ao mesmo tempo, sem equipe para governar, Bolsonaro foi apelando cada vez mais para os militares, que foram encontrando nele quem reivindicasse sua ação no passado da história brasileira, na contramão da reconstrução da democracia no Brasil. E foram ocupando cada vez mais cargos no governo – se calcula de 3 a 6 mil cargos -, incluindo postos chave no próprio Palácio do Planalto e a ocupação militar do ministério da saúde, em plena pandemia.

O apoio do grande empresariado, pela política econômica neoliberal, e a presença dos militares, são elementos estruturais, sem os quais o governo não se manteria. Mas o estilo de governo, a linguagem agressiva, não são indispensáveis. O apoio que tem do grande empresariado e do jornalismo econômico são indispensáveis e tem no neoliberalismo seu eixo de apoio.

Isso separa o que é essencial, indispensável no governo, e o que pode ser mudado, sem que sua natureza seja alterada. O Bolsonaro serviu como candidato, mas tem atitudes e linguagem que podem ser dispensados. O fundamental é que o Paulo Guedes ou outro neoliberal, mantenha o modelo em funcionamento. Assim como um governo anti Bolsonaro tem que ser um governo anti neoliberal, não basta ser anti-fascista ou contra o governo politicamente.

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