A farsa do sucesso do agronegócio e a crise da pecuária brasileira

Precisamos entender que o mercado interno responde por mais de 80% do consumo da carne bovina produzida no país. Já as exportações de soja do Brasil correspondem mais de 60% da produção. Ou seja, a dependência da pecuária do mercado interno é total

A farsa do sucesso do agronegócio e a crise da pecuária brasileira
A farsa do sucesso do agronegócio e a crise da pecuária brasileira

Muito se tem falado do sucesso do agronegócio brasileiro, que em 2017 teve a maior contribuição para o PIB desde 1996, início da atual série de análises do IBGE. Esse desempenho positivo se deve principalmente à agricultura, já o setor produtor de carne amarga uma dura crise.

Muitos são os motivos da crise, poderíamos citar a operação "Carne Fraca" e a crise da JBS, entretanto nada pode se comparar a deterioração da renda do brasileiro, que tem reduzido o consumo per capita de carne bovina no país ao menor patamar em 16 anos. Esta redução, sem dúvida, está segurando a alta no preço do boi gordo.

Para compreendermos a crise na pecuária perante o sucesso do agronegócio. Precisamos entender que o mercado interno responde por mais de 80% do consumo da carne bovina produzida no país. Já as exportações de soja do Brasil correspondem mais de 60% da produção. Ou seja, a dependência da pecuária do mercado interno é total.

Vejamos por exemplo, a China é o principal destino das exportações de soja do Brasil, responsável por comprar quase 80% da soja brasileira. Com a crise entre China e EUA, o Brasil bate recorde de exportações de soja. Todavia, devido ao conflito o dólar sobe, gerando inflação, diminuindo o pode de compra, sobretudo dos mais pobres e consequentemente retraindo o consumo de carne.

Em 2003, quando Lula se torna presidente, vivíamos um momento ainda pior da pecuária, anos e anos de massacre. Para conter a crise econômica que assolava o país, o governo do partido dos trabalhadores incentivou o mercado interno. Destaca-se o Programa Fome Zero que entre outras medidas implantou a Bolsa Família.

Neri et al. (2013) ao estudar os efeitos macroeconômicos da Bolsa Família, concluíram que programa de transferência de renda privilegia as famílias mais pobres e têm efeitos multiplicadores. No caso do PIB, o multiplicador é de R$ 1,78; ou seja, cada real gasto estimularia um crescimento de R$ 1,78 no PIB. O maior efeito do programa é consumo final das famílias, com multiplicador de R$ 2,40. Deste modo, conclui-se que além de ser um programa humanitário, a Bolsa Família gerou um consumo interno muito grande, principalmente dos alimentos.

O resultado foi sensível no consumo de carne bovina e outras carnes também. Gerando aumento real do preço da arroba do boi que saiu de 15,00 dólares 2003 para mais de 55,00 dólares em 2011. Os anos seguintes apesar de uma queda, os preços seguiram em altos. Entretanto, com a crise econômica, esse mês de junho o preço da arroba ficou em 35,00 dólares, o menor preço em 10 anos. É importante fazemos a comparação em dólar, pois a maioria dos insumos agrícolas são calculados em dólar.

Como podemos observar o sucesso reportado do agronegócio não é generalizado. O outro fator extremamente preocupante é que a sua maior participação no PIB é em virtude da desindustrialização do país e da crise generalizada em diversos setores oriunda, principalmente, pela Operação lava Jato.

No inicio de 2018 muitos analistas projetavam a retomada do crescimento do país, consequentemente aumento do consumo e elevação dos preços da arroba do boi em valores reais, o que não ocorreu. E não ocorrerá, enquanto não tivermos um retorno da politica econômica que privilegia o consumo interno e especialmente dos mais pobres.

Projetamos para o segundo semestre uma alta nos preços da arroba do boi que normalmente ocorre devido à entressafra, sendo que na média do país em outubro estará em R$ 142,00 e em dezembro R$ 149,00. Os preços de outubro são utilizados, normalmente pelos confinadores e os de dezembro pelos criadores de boi a pasto. Em São Paulo, maior praça comercial do país, em outubro poderá chegar a R$ 150,00 e R$ 159,00 em dezembro.

Referências Bibliográficas
NERI, M. et al. Efeitos macroeconômicos do Programa Bolsa Família: uma análise comparativa das transferências sociais. In: CAMPELLO, T; NERI, M. Programa Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania. Brasília: Ipea, 2013, p. 193-207. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/externos_texto/cap11.pdf 

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