A hipótese de um grande jogo de cena

A hipótese em questão é a de que, por menos lúcido que seja, ou mais obcecado em reduzir sua impopularidade crescente, visando a própria reeleição em 2022, o presidente não seria tão louco a ponto de provocar uma catástrofe nacional, com dezenas ou centenas de milhares de mortos

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É realmente chocante a constatação de que o presidente Jair Bolsonaro é um dos únicos líderes nacionais negacionistas, ou seja, que renegam a ciência numa situação de pandemia global causada pela COVID-19. Para quem ainda tem alguma dúvida, o discurso dele na posse do novo ministro da Saúde, Nelson Teich, reafirmou sua intenção de colocar a economia para voltar a funcionar, como era antes da atual crise sanitária, de modo, segundo Jair, a preservar, ao máximo possível, os empregos ou minimizar o desemprego.

O presidente, assim sendo, segue arriscada estratégia na qual, diante das graves consequências econômicas causadas pelo coronavírus, pretende fugir de sua responsabilidade enquanto mandatário principal da República, ao argumentar, posteriormente, que tentou evitá-las ao defender o fim do isolamento social. Mas também é possível que a postura de Bolsonaro seja apenas para manter uma narrativa, não tomando, de fato, qualquer decisão concreta para desarticular a política pública recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

A hipótese em questão é a de que, por menos lúcido que seja, ou mais obcecado em reduzir sua impopularidade crescente, visando a própria reeleição em 2022, o presidente não seria tão louco a ponto de provocar uma catástrofe nacional, com dezenas ou centenas de milhares de mortos. Isso certamente seria fatal para seu projeto, e quem o instrui ou assessora deve ter consciência de tal ato. Em sua intuição de político experiente, Bolsonaro teria a noção de que um quadro de tragédia o comprometeria inexoravelmente.

Cortina de fumaça

Então, a tese hipotética a ser discutida seria a de que, sob qualquer forma, a posição negacionista de Jair é só mais um jogo de cena, uma cortina de fumaça, insuflado por sua base bolsonarista, que absurdamente fez carreatas e manifestações populares em várias capitais brasileiras, neste fim de semana (18 e 19-4). Seria uma forma de defesa retórica preventiva, na busca por eximir-se de um resultado econômico de profunda depressão, que sua equipe e política econômica, encabeçada pelo ministro Paulo Guedes, não teriam sido capazes de enfrentar.

Defendendo o fim do isolamento social, por um lado, Bolsonaro tenta se descolar dos prejuízos advindos de um quadro econômico calamitoso. Uma vez mais, seria de fato figura retórica, narrativa, jogada, para sinalizar que ele não foi o responsável pelo desastre na economia, e sim os governadores e o Congresso Nacional, personificado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O Ministério da Saúde e o governo federal como um todo seguiriam agindo em conformidade com os governadores e prefeitos.

Concluindo, o presidente faria crer que seriam “duas” instituições, separadas no campo da aparência, dentro de uma mesma, atuando em sentidos opostos – a Presidência da República e o governo como um todo. Caso as medidas realmente adotadas pelo Ministério da Saúde, em cooperação com estados e municípios, sejam bem sucedidas, no sentido do achatamento da curva epidemiológica da doença e redução do número de mortos, eis que surgiria Bolsonaro, aventando para si todos os méritos de possível êxito. Será?

 

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