A História da riqueza nos EUA: sua agenda intelectual escondida

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(Foto: Reprodução)


O Brasil tem grande parte de sua elite voltada para os EUA como um modelo civilizatório. Padrão este que é repetido por grande parte das camadas populares: modelos de consumo, comportamento, arte, moda, padrões políticos e econômicos. Mas existe um grande hiato entre reproduzir as práticas culturais, políticas e econômicas dos norte-americanos, e entre reproduzir os discursos sobre os EUA nestas áreas, reproduzidos pela mídia: quando se estuda os EUA vê-se de forma brutal esse abismo entre as práticas históricas e os discursos veiculados, sobretudo pela mídia, mas também por parte da academia.

Talvez a área onde tal esquizofrenia negacionista contra a realidade histórica dos EUA seja a mais gritante é a economia. O discurso midiático único sobre economia ventila a ideia de que os EUA sempre foram um país regido pelo mais clássico liberalismo econômico: nada é mais enganoso. 

Hamilton, Lincoln e o Sistema Nacional de Economia Política

Os EUA tornaram-se uma país economicamente desenvolvido, no quadro planetário, ao longo do século XIX: em 1900 já era a maior economia industrial do mundo. Tal salto desenvolvimentista foi feito sob o impacto de uma agenda econômica hamiltoniana (relativa ao primeiro Secretário do Tesouro dos EUA: Alexander Hamilton), que dará origem nos EUA a uma primeira experiência marcada pelo modelo que será identificado, na história do pensamento econômico, como Sistema Nacional de Economia Política. Desenvolvido pelos autores hamiltonianos do American System, defensores de: protecionismo tarifário, industrialismo e melhorias internas financiadas publicamente.  Os norte-americanos desta Escola influenciaram Friedrich List, que morou por 5 anos na Philadelphia (e ganhou a cidadania americana), e sua posterior Escola Histórica alemã, tributária e influenciada pela Escola do American System

Tal tradição intelectual do referido Sistema Nacional de Economia Política foi um modelo político/econômico construído e experimentado nos EUA ao longo do calor das lutas: a tradição hamiltoniana, que o origina, será marcada por um nacionalismo intenso, que dará origem ao próprio nome da escola econômica do American System: em seu texto Relatório sobre as Manufaturas(1791) Hamilton defende a construção de um sistema americano que que escapasse ao controle e a influência de toda força transatlântica.”Logo, a tradição que aí se gerou defendeu a construção de um plano econômico autonomista, com industrialização e diversificação produtiva. O nacionalismo, político e econômico, eram fundantes no século romântico: o século XIX. 

E os EUA foram uma construção histórica que levou tal projeto o mais longe naquele contexto. Não sem muitos reveses e conflitos: o principal culmina na Guerra Civil (1861-1865), quando os protecionistas e os whig se unem: a agenda das altas tarifas protecionistas se une ao abolicionismo crescente dos EUA oitocentista, e essa aliança dará origem ao partido Republicano (1854), que ganha a presidência em 1860 com Abraham Lincoln.

Lincoln para ganhar a guerra, fora das garras da City financeira londrina, cria uma moeda totalmente fiduciária (sem lastro metálico), que está na origem da cor verde do dólar até hoje: era a nota Greenback. Assim, realizou uma política monetária fortemente expansiva, criando circulação monetária para estruturar um mercado de trabalho assalariado no pós emancipação, e um mercado monetário ao mesmo tempo. Além de fazer uma reforma agrária com o Homestead Act, garantindo as terras do meio-oeste para a expansão do trabalho assalariado, com uma regulamentação do mercado de terras.

Tal modernização geral é entendida como uma plena revolução burguesa: e nada mais correto. Mas tais progressos burgueses foram vividos no período como vitórias de um campo extremamente progressista, identificados com a esquerda naquele contexto. E a moeda fiduciária de Lincoln, que circulou plenamente de 1862 até 1879, foi um salto monetário num isolacionismo americano, que ignorou todo e qualquer conversa inglesa sobre padrão-ouro: enquanto as elites do Brasil, e de outros países latino-americanos rebolavam de toda forma para entrar na gaiola de ouro britânica da relíquia bárbara do padrão-ouro, os EUA por 20 anos deram uma histórica banana à esta doutrina imperialista, e se desenvolveram industrialmente num isolacionismo de uma sistema monetário nacional ilhado, que foi o maior caso de sucesso de um Sistema Nacional de Economia Política posto em prática. E inspirou toda uma tradição nacionalista de progressistas, como os posteriores líderes nacionalistas na América Latina, como Cárdenas no México (que nacionalizou o petróleo: Pemex), Peron na Argentina, e Getúlio Vargas no Brasil(que criou a Petrobrás em 1954). O Populismo progressistas no continente é descente do papelismo monetário do século XIX, que teve no Greenback lincolniano sua mais audaciosa experiência: toda a tradição populista/progressista na América Latina tem origem no papelismo (moeda sem lastro metálico), e posteriormente na estruturação de estatais, como a Pemex e a Petrobrás.

Mas no modelo americano, das grandes corporações monopolistas que surgem após a revolução lincolniana da Guerra Civil, será marcado não por estatais, mas pela organização das agências reguladoras sobre estes grandes monopólios, como nas companhias ferroviárias por exemplo, centrais no século XIX, e a própria FDA (Food and Drugs Administration), reguladora dos monopólios de alimentos e medicamentos nos EUA, foi criada no fim do séc. XIX, e é modelar desse sistema de capitalismo regulatório.

Na América latina o estado organizou as produções estratégicas em estatais. Nos EUA os monopólios produtivos se estruturaram na Guerra Civil e após, durante um período de forte ação estatal na organização produtiva, momento no qual os EUA foram vanguarda de um capitalismo industrial, em desacordo com o capitalismo financeiro britânico de então. Mal comparando os EUA era no séc. XIX o que a China é hoje, e a Inglaterra era os EUA então.

O exemplo americano foi central para a agenda de desenvolvimento no mundo desde então. E influenciou também líderes conservadores, mas nacionalistas o bastante para entenderem que era preciso modernizar para salvar seus países: o grande exemplo de um histórico líder nacionalista desta estirpe foi Otto Von Bisrmarck, praticante de uma modernização conservadora, totalmente tributária desta tradição nacionalista hamiltoniana do Sistema Nacional de Economia Política. 

Tal tradição pode seguir caminhos mais progressistas (o que é o mais comum), ou mais conservadores. No Brasil atual, um tanto binário nas visões simplórias, explicar que a defesa de estatais e de agências reguladoras, foi feita por líderes nada socialistas, como Getúlio Vargas e Charles de Gaulle, e que o fortalecimento de estruturas nacionais é uma prática de históricos líderes conservadores como Bismarck (que criou o sistema público previdenciário alemão, que inspirou o brasileiro), e líderes progressistas como Lincoln (que estatizou as ferrovias norte-americanas na Guerra Civil, e criou, pela primeira vez no país, o imposto de renda, além de um sistema bancário federalizado sob controle nacional, via o poder da Casa Branca em determinar as autorizações de bancos emissores do dólar Greenback). A defesa de estruturas econômicas nacionais, com Estatais e agências reguladoras(modelo americano) NÃO É COMUNISMO, é a defesa do Sistema Nacional de Economia Política, defendido por Lincoln e os teóricos do American System, por Friedrich List e sua Escola Histórica de economia, tributária do American System, pelos Institucionalistas norte-americanos, e depois por líderes progressistas do Trabalhismo latino-americano, como os citados Varges, Peron e Lázaro Cárdenas, além de toda a tradição social-democrata europeia do pós-guerra. Para não falar dos malfadados Benito Mussolini e Adolfo Hitler, que seguiram esta tradição pela extrema direita, e que grande parte dos boçalizados pelo bolsonarismo em verdade não querem tanto autoritarismo político, mas sim mais Estado ativo na economia: o caos econômico leva ao namoro popular com o autoritarismo político, mas o que a maior parte dos bolsonaristas atuais gostaria mesmo é de mais produção e emprego, com mais dirigismo produtivo na economia. É preciso mais coragem para falarmos disso.

Crescimento da Pobreza nos EUA: fim de Bretton Woods (1973) e guinada do capitalismo industrial para um capitalismo financeiro

O crescimento da extrema direita é um fenômeno mundial, e como no Brasil por todo lado é consequência da crise econômica crônica, com desindustrialização. O caso é similar nos EUA de Trump, que avacalha o partido fundado por Abraham Lincoln, tornando o GOP (partido republicano) num saco de gatos dessa sempre confusa extrema direita pós-moderna. O crescimento crônico da pobreza nos EUA é resultado da guinada à um capitalismo financeirizado, desde o governo Reagan, após o fim do sistema Bretton Woods (1973) na crise dos anos 1970: os EUA abandonaram seu passado lincolniano industrialista, adeptos de um American system hamiltoniano, para embarcarem num liberalismo econômico ricardiano, que NUNCA foi dominante nas elites dos EUA.

O resultado é o crescimento exponencial da pobreza: segundo o censo, e outras fontes de pesquisa, por volta de 40 milhões de pessoas nos EUA (11% da população) vivem na pobreza. 

Hoje a China, gerida pelo partido comunista chinês, grupo político que pratica desde as reformas de Deng Xiaoping (1978) a gestão de uma economia mista, entre capitais privados nacionais, internacionais, com grandes corporações externas, mas com uma forte presença estatal nas áreas estratégicas. Tal modelo, com todas as especificidades do tempo, das específicas condições atuais, e das condições nacionais de uma verdadeira civilização como é a China, não deixa de ser inegável a identificação deste capitalismo/socialismo misto chines com as tradições hamiltonianas do Sistema Nacional de Economia Política. Para os analistas que se debatem entre capitalismo e socialismo para entenderem a China atual, eu realmente sugiro que estudem mais o Sistema Nacional de Economia Política: é esta a situação explicativa mais adequada para entender o capitalismo industrial que o partido comunista desenvolve na China. 

Deng Xiaoping é herdeiro de Lincoln. E para os interessados em reverter a desindustrialização, e o exponencial crescimento da pobreza nos EUA e no ocidente, uma agenda centrada na produção e nos interesses populares das nações precisa ser urgentemente revitalizada, com ações de um progressismo radical para o momento (como foram nos dias de Lincoln), mas que costumam na longue durée da história salvar o capitalismo dele mesmo. Os EUA, o Brasil, e o ocidente como um todo, necessitam recuperar a história do desenvolvimento, e a coragem intelectual e histórica de seus precursores. Como dia Danton, o que precisamos é: “de l’audace, encore de l’audace, toujours de l’audace!

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