A marreta do padre Lancellotti e os que ainda torturam com pedras

"O fascismo gosta muito dessa ideia do atentado aos patrimônios público ou privado para enquadrar quem se rebela, com ou sem marretas, contra a violência com que o Estado e entes privados atacam cidadãos porque são inimigos ou porque devem ser desprezados", escreve Moisés Mendes

Padre Júlio Lancellotti
Padre Júlio Lancellotti (Foto: Reprodução)
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As máquinas chamadas de maricotas, usadas pelos torturadores para aplicar choques em prisioneiros políticos na ditadura, eram parte do patrimônio público.

Podiam ser clandestinas, não apareciam em registros oficiais, mas eram fabricadas com dinheiro do governo. Aparelhos macabros, mas bens de todos.

As pedras usadas como cama de tortura para miseráveis, que o padre Júlio Lancellotti destruiu em São Paulo, também fazem parte do que definem como bem público.

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As maricotas e as pedras cumprem função no Estado fascista, mesmo que muitas vezes sob disfarces. Por isso, o padre Lancellotti poderia ser processado pela destruição de um patrimônio da cidade.

O fascismo gosta muito dessa ideia do atentado aos patrimônios público ou privado para enquadrar quem se rebela, com ou sem marretas, contra a violência com que o Estado e entes privados atacam cidadãos porque são inimigos ou porque devem ser desprezados.

As pedras que o padre decidiu arrancar com uma marreta foram colocadas pela prefeitura sob um viaduto, na zona leste de São Paulo, para evitar que os sem-teto transformassem o lugar em moradia.

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A engenharia medieval das pedras é uma prática disseminada pelo Brasil. Em Porto Alegre, há pedras sob muitos viadutos. Devem existir em Salvador, Recife, Manaus, Campo Grande, principalmente sob pontes de cidades grandes e médias.

Mas aí aparece um padre que diz: chega. E sai da paróquia com uma marreta para destruir as pedras. A frase definidora do padre foi esta: “Um mundo assim cansa”.

Mas não cansa o suficiente as pessoas com a bravura do religioso protetor dos miseráveis paulistanos.

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O Estado, tão cioso da coisa pública, compra o que for possível para fazer valer o poder exercido com autoritarismo. Compra pedras, leite condensado, compra o centrão. Mas não compra vacinas.

Há dinheiro no mundo dos governos para gastar com camas de pedras, num país em que os pobres que um dia quase foram classe média estão se somando aos amigos do padre Lancellotti nas ruas.

É bom que o padre tenha saído de casa não só com a sua conhecida fúria santa, mas com uma marreta.

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Ergue-se de novo o debate antigo sobre reações consideradas agressivas em nome de uma reparação, sobre a depredação de bens públicos e sobre, principalmente, o direito de reagir com o uso da força a atos totalitários que ofendem a dignidade humana.

O Estado brasileiro, em todas as esferas, vem destruindo vidas. O padre coordenador da Pastoral do Povo de Rua destruiu pedras que torturam quem tenta usar o chão como se fosse cama.

Padre Lancelotti talvez seja hoje, aos 72 anos, a figura mais poderosa desse Brasil sequestrado pela extrema direita. O padre está nos dizendo: mesmo cansados, não deixem de resistir.

Há outras pedras de outros viadutos por esse Brasil afora. Vão depender do padre Lancellotti, como as pedras recentes que sabotam a vacinação?

A marreta poderia ser adotada como símbolo de uma resistência que ainda se nega a acontecer.

No contexto de domínio absoluto da extrema direita (mesmo a dissimulada), se outra pessoa e não o padre Lancellotti tivesse atacado as pedras de Bruno Covas, é provável que fosse presa e processada. Mesmo que, pelo que se noticia, agora ninguém mais assume que foi o engenheiro das pedras contra moradores de rua.

As pedras ficaram sem pai nem mãe. No fim da ditadura, as maricotas também não tinham donos. Quantas casas de torturadores impunes ainda devem guardar restos de maricotas?

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