A propriedade das Big Techs e a dominação tecnológica ampliam as desigualdades e a assimetria no capitalismo contemporâneo

Nove das 10 maiores corporações em valor de mercado na economia mundial são da área de tecnologia

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Blog do Roberto Moraes

Muitos dizem que a digitalização cria valor e não basicamente extrai renda da sociedade. Interessante essa afirmação, porém, se fosse verdade como explicar que as Big Techs não param de crescer, enquanto, simultaneamente, a economia global patina?

Nove das 10 maiores corporações em valor de mercado na economia mundial são da área de tecnologia. As cinco primeiras têm valor de mercado acima de U$ 1 trilhão cada. Mesmo com a queda média de não esperada de 14%, neste último mês de abril, anunciada ontem (04/05/22), juntas, as Big Techs superam US$ 8 trilhões e até aqui puxaram a valorização das bolsas de valores, enquanto a economia em geral, antes mesmo da pandemia e da guerra, segue bem pior.

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Agora, ainda no final da pandemia e com a escalada do conflite EUA-OTAN x Rússia na Ucrânia, esse quadro piorou com a redução das atividades econômicas e inflação, mas as ações destas gigantes empresas de tecnologia (Big Techs) seguem disparando, enquanto a economia segue tropeçando. Assim, se observa que as desigualdades se ampliaram.

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Para começar a entender a “dominação tecnológica-digital” e sua “aliança com a financeirização” é necessário ir um pouco mais fundo na análise dos modelos de negócios que essas Big Techs desenvolveram.

É preciso observar que mais que apropriar dados, as Big Techs apropriam renda

Para observar esse processo deve-se olhar a propriedade e os fluxos de capital. Onde e como, efetivamente, essas gigantes de tecnologia (como agentes) atuam e capturam renda e valor. Os processos que utilizam e as estratégias que dirigem seus negócios.

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Neste exercício, não é difícil observar que e concentração de atividades que explicam a monopolização (oligopolização) do setor. As gigantes da tecnologia controlam publicidade, direitos de uso/acesso e captura de dados, através de suas enormes e tentaculares infraestruturas. Assim, expandem suas atuações e ampliam o controle da propriedade com a"propriação" de renda — mais que a apropriação de dados — sobre todos os demais setores da economia e da sociedade.

A apropriação é feita pelo setor de tecnologia, mas acontece de forma externa à digitalização, através dos proprietários destas gigantes de tecnologia que capturam renda e valor dos demais setores da economia e em todos os lugares, desde o centro sede de seus negócios, à periferia do sistema-mundo.

Em síntese e refletindo melhor (e com Srnicek, 2021) sobre esse processo, é possível observar que os dados acabam sendo "meio" que servem para alcançar as rendas dos demais setores em que a digitalização vai chegando.

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Esse processo se expande com o lançamento de mais ramais de cabos de fibras óticas pelo mundo em terra e pelo oceanos. Hoje, essa infraestrutura já passa de 1,3 milhão de quilômetros. Atualmente, o lançamento de mais ramais de cabos de fibra ótica cresce na ordem de 100 mil km de novos cabos por ano. Abaixo o mapa para melhor visualizar a extensão e densidade pelo mundo.

fibra
Mapa do 1,3 milhão km de cabos submarinos instalados no mundo(Photo: https://www.submarinecablemap.com/)

Parte de propriedade das operadoras de telefonia e cada vez mais são instalados cabos de propriedade das Big Techs. É no âmbito dessas infraestruturas que o processo de intermediação realizada pelas Big Techs se vale de técnicas, arranjos de propriedade, algoritmos e infraestruturas que envolve as plataformas digitais dirigidas por grandes empresas-plataformas ou empresas-aplicativos. 

São investimentos em infraestruturas (IE) de tecnologia que possibilitarão amplia ainda mais a extração de renda, a condição de monopólio rentista das Big Techs, sobre um mercado de demanda quase infinita, que ao final leva à instituição dessa espécie de império rentista-digital que se observa.

 Vampirização e rentismo das plataformas digitais sobre demais setores leva à plutocracia

É no interior dos seus modelos de negócio que o setor de tecnologia vai sugando a riqueza produzida pelos demais setores da vida humana desde a produção material à imaterial. Um processo de vampirização digital sobre os demais setores.

Todas as empresas de todos os setores passaram a depender cada vez mais das empresas-plataformas que como intermediários se transformaram em rentistas sugando lucro de todos os setores e empresas de todos os portes. Processo que tende a uma disputa intercapitalista, entre empresas-plataformas que se apropria de valor das empresas não plataformas e se transformam em monopólios (oligopólios).

Tudo isso amplia a desigualdade e a disputa intercapitalista no interior do sistema, ao reduzir margens de lucros em outros negócios da economia real, ao mesmo tempo, em que torna hegemônica a participação e relação entre a tecnologia e a financeirização no sistema-mundo. Esses dois setores atuam transversalmente — e de forma intensa — sobre todas as demais frações do capital na contemporaneidade. Fenômeno que alguns autores passaram a denominar essa etapa de capitalismo informacional, que vai para além das plataformas digitais vistas como partes deste processo.

Vampirismo digital, talvez seja, uma expressão simbólica para explicar a extração de renda e valor dos demais setores da economia, assim como dos excedentes da sociedade. Um processo que amplia a concentração de renda em propriedades de corporações oligopólicas que atuam de forma imbricada às inovações financeiras, impondo uma espécie de dominação (império financeiro-digital), em nova (superior) etapa de acumulação de capital. 

Para finalizar não se pode esquecer que a dominação digital é desenvolvida com profunda repercussão nas relações de poder. A digitalização se desenvolve não apenas como meio de produção, comércio e finanças, mas também como meio de comunicação com imenso poder de manipulação política e de controles sobre o poder no interior e entre nações. Na hierarquia (e assimetria) entre as nações, na direção da plutocracia (regime político dos ricos), que em última instância, significa a geopolítica na chamada ordem global.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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