A renda básica da cidadania e o gol contra de Suplicy

"Ex-senador é exemplo para esta geração, mas, como todos, não está acima da crítica e errou na forma como protestou", escreve Joaquim de Carvalho

www.brasil247.com - Eduardo Suplicy
Eduardo Suplicy (Foto: Eduardo Suplicy)


Por Joaquim de Carvalho

Um dos políticos mais íntegros da nossa geração é Eduardo Suplicy. Desde que entrou na política, mostrou que é possível usar o parlamento para servir e não se servir, como fazem muitos — talvez a maioria.

Em vez de usar a tribuna e o poder parlamentar para um balcão de negócios e enriquecimento próprio, como fez Bolsonaro, ele usa seus mandatos para se colocar ao lado dos mais fracos. É um exemplo.

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Seu semblante lembra o de outros grandes brasileiros, como padre Júlio Lancelotti e o saudoso Dalmo Dallari. Mas ele não está acima da crítica, como nenhum outro está, sobretudo se sua atuação se insere na esfera pública.

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A preocupação com os mais fracos foi certamente o motivo que o levou a propor, em 1991, a renda básica, que mais tarde ele chamou de renda básica da cidadania. Fui um dos primeiros a entrevistá-lo sobre o tema, quando era repórter de O Globo.

A pregação é torno da proposta foi um dos motivos que levaram à instituição de programas de transferência de renda, como o Bolsa Educação, na gestão de Cristovam Buarque no Distrito Federal, ou de prefeitos ainda na década de 90, como Garotinho em Campos e Magalhães Teixeira em Campinas, sementes do Bolsa Família.

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Mas é preciso compreender por que o projeto, transformado em lei federal no governo de Lula, em 2004, não foi plenamente implementada, como quer Suplicy. A renda básica é um proposta que nasceu no seio liberal. Foi Milton Friedman, da Escola de Chicago, quem primeiro a defendeu.

Aparentemente, é uma questão de justiça social, mas, se analisarmos em profundidade, veremos que objetivo dos pais do neoliberalismo é outro. Com a renda básica, corre-se o risco de esvaziamento do Estado e das necessárias políticas públicas para o equilíbrio social.

Com renda básica, pague-se a escola privada (de má qualidade) em vez de fortalecer a escola pública. Com renda básica, pague-se o plano de saúde (de má qualidade) em vez de fortalecer programas como o SUS.

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Talvez seja esta razão que explique o fato de governos de esquerda não colocarem o pé no acelerador quando a proposta vem à tona. 

O que transforma uma sociedade não é apenas a renda básica, mas também políticas públicas, como financiamento a pequenos produtor, programas como a construção de cisternas, a eletrificação e a digitalização acessíveis a todos. Na verdade, são políticas que geram renda.

O Bolsa Família, por exemplo, uma versão imperfeita do rede básica, contribuiu com 14% do conjunto de ações que levaram o Brasil a deixar o Mapa da Fome, como disse a ex-ministra Tereza Campello, em entrevista à TV 247.

Infelzimente, depois dos governos de Michel Temer e Bolsonaro, o Brasil voltou àquela condição infame.

Programas de geração de empregos, valorização do salário mínimo, financiamento do pequeno agricultor, luz para todos e o cisternas tiveram peso maior.

O que o Bolsa Família proporcionou é desprezível? Óbvio que não, mas o Estado tem um papel muito maior se o que se pretende é alcançar a justiça e a consequente paz sociais.

Suplicy tem o direito e, coerente com sua biografia, o dever de lutar com todas as suas forças pela implantação da renda básica, mas deve compreender que há outras propostas igualmente justas que podem e precisam ser consideradas.

Ademais, a forma como introduziu o tema no evento de divulgação do programa de governo de Lula e Alckmin nesta terça-feira foi equivocada. 

Sem que fosse essa a sua intenção, abriu as portas para oportunistas, como Ciro Gomes, que usou o episódio para desgastar a chapa que hoje reúne as melhores condições para derrotar Bolsonaro e seu projeto fascista.

Basta olhar a repercussão na rede social para concluir que foi um equívoco. Ganhou também o apoio de bolsonaristas, que, na esmagadora maioria, nunca votou nele e até zomba de suas ações em defesa dos mais fracos, como colocar o próprio corpo em defesa de sem teto, dos famélicos e presos vítimas de massacre.

Lembrou o atacante Oseias, que, quando era do Palmeiras, marcou um golaço contra, num jogo diante do rival Corinthians.

Suplicy, como disse, merece respeito e deveria ser honrado como um dos puxadores de votos, não para a Assembleia Legislativa de São Paulo, mas para a Câmara Federal. Também deveria ter lugar de honra nos debates sobre a elaboração de um programa de governo inclusivo.

Erraram também aqueles que não levaram em consideração a biografia de Suplicy na constituição de grupos de trabalho para a elaboração do programa de governo, e não deram a ele o prestígio devido. 

Porém, experiente como é, Suplicy não deveria colocar em risco uma campanha difícil que está sendo travada, que vai muito além do voto na urna.

Suplicy é um grande quadro, mas sua ansiedade em relação ao projeto de renda básica da cidadania não faz bem a ninguém, exceto aos adversários do projeto de inclusão social, que, a rigor, são seus adversários também.

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