A santidade política de Casaldáliga é um incômodo

A santidade política de Casaldáliga, na sua dimensão ambiental-social-econômica, deita raízes na Igreja Primitiva. Não se trata de dar comida ou roupa pontualmente para um pobre, mas romper com as injustiças estruturais de uma sociedade e criar outro tipo de sociedade

Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

A santidade política de Casaldáliga, na sua dimensão ambiental-social-econômica, deita raízes na Igreja Primitiva. Não se trata de dar comida ou roupa pontualmente para um pobre, mas romper com as injustiças estruturais de uma sociedade e criar outro tipo de sociedade. Por isso, foi um teólogo, um místico, um pastoralista e um profeta da linha dos cristãos libertários. A vida de Casaldáliga se insere na moldura maior do anúncio de Jesus, isto é, a justiça e a misericórdia (Mateus 23,23).  

Em primeiro, Pedro era um místico, mas um místico político. Foi ele quem trouxe a categoria espiritual da “noite escura” do mundo subjetivo de Teresa D’Ávila e João da Cruz para a dimensão social: “a longa noite escura do neoliberalismo”. E ele buscava uma madrugada para essa longa noite.

Segundo, Pedro era um revolucionário convicto e explícito. Apoiou a revolução Nicaraguense, Cubana e todas as insurreições na América Latina e Central, a exemplo de El Salvador. Como dizia ele, sou movido por “amor de revolução”. Portanto, era um homem do aqui e agora da história. 

Terceiro, quando amaldiçoava todas as cercas, Pedro era contra a propriedade privada, sobretudo da terra, da água e dos chamados bens comuns. Os Movimentos Populares Socioambientais acrescentam aí a educação, saúde, energia e alimentos. Por isso Pedro gostava tanto dos índios, também por sua dimensão de um socialismo primevo. Ele sabia que, um bem comum privatizado, não é mais um bem comum. 

Quarto, e por consequência, Pedro era socialista convicto. Uma vez, em conversa particular, dizendo que vivia com um salário mínimo, que nas suas viagens mal tinha dinheiro para comprar um bolo e um refrigerante, me disse: “não estamos preparados para viver socialisticamente”. Sim, reconheci, desse jeito eu também não estou, nunca estive. 

Por fim, Pedro era avesso a todo ritualismo romano da liturgia, com aquelas mitras, báculos, indumentárias, todas originadas da Idade Média e extemporâneas ao nosso mundo. Nunca vestiu esses adereços e preferiu seu chapéu de palha, sua roupa simples, suas sandálias, que caiam bem em um ambiente tão quente como o Araguaia. Assim também era Dom José Rodrigues, bispo aqui de Juazeiro da Bahia. Para completar, decidiu não ir mais às Visitas Ad Limina, onde os bispos se apresentam diante do Papa a cada cinco anos. 

Sim, sem perder a ternura jamais, a santidade política de Pedro é um incômodo, inclusive para mim. Pior, ou melhor, tudo em nome do Deus que ele acreditava, o Deus de Jesus de Nazaré, aquele crucificado e ressuscitado há uns dois mil anos.  

Esses dias a esperança inabalável de Pedro ancorou às margens do Araguaia. 

O conhecimento liberta. Saiba mais

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247