A selfie e a meritocracia

"Viva a imagem horizontal, viva a foto democrática, viva o lugar onde cabem todos sorrindo. A selfie vertical é quase bolsonarista", escreve Miguel Paiva

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(Foto: Miguel Paiva)


Pode parecer muito louca essa comparação, mas essa mania de hoje de só tirar foto ou selfie na vertical tem a ver com a mudança dos tempos. Mesmo que caiba mais de uma pessoa na foto é uma captura de imagem restrita, uma pessoa ao centro e o que está em volta. A foto antigamente era horizontal, ou na melhor das hipóteses, quadrada como previa o filme 6X6 das famosas câmeras Rolleiflex que revelavam a sua enorme ingratidão. Fotos de grupos, de famílias, foto de escola, de paisagem sobretudo, eram horizontais. Cabia mais gente, era mais democrático e revelador, sem trocadilhos. 

Hoje tudo é vertical. Cabe um e olhe lá, como na vida que eles estão tentando implantar. Vertical como a sociedade. Caibo eu porque sou melhor. Entra aqui nesse cantinho, mas a foto é minha. E foi a selfie, cujo próprio nome denuncia, que estabeleceu esse formato como padrão. Sempre fui contra como sempre fui contra a meritocracia. Para as fotos verticais você tem que fazer um enorme esforço para que caibam todos e alguém sempre fica de fora ou desfocado. Para que caibam mais é preciso respeitar um posicionamento em que um fica à frente do outro, é claro. Faz parte do esquema. Na horizontal estavam todos na mesma linha, com as mesmas chances de aparecer bem na foto.

A selfie vertical como diz o nome, novamente, é egoísta. As que são tiradas com ídolos, atletas ou cantores colocam você na frente do adorado. É você e depois, ele ou ela. Pelo menos na foto você é mais importante. Vem primeiro e ninguém mais ousa entrar.

Na vida de hoje, nesse mundo egoísta e neoliberal onde a meritocracia tenta comandar e acaba impondo suas regras tudo o que é coletivo, grupal, institucional ou comportamental dá lugar ao vale – tudo, ao sou mais eu, ao salve-se quem puder. 

Tudo é registrado pelo celular na posição vertical. Os stories do Insta e do Face além do Tik-Tok, são verticais. O celular é naturalmente vertical, mas você ainda pode girar a tela para ter uma imagem cinemascope...ih, acho que ninguém sabe mais o que é isso. A grande conquista tanto do cinema quanto da fotografia foi a amplitude, a panorâmica, a tela inteira e abrangente que levava para ter a sensação de estar ali naquela paisagem. Enfim, o cinemascope. Hoje, para vc se sentir na imagem tem que ter só você e olhe lá. 

Viva a imagem horizontal, viva a foto democrática, viva o lugar onde cabem todos sorrindo. A selfie vertical é quase bolsonarista, arriscaria eu, mas como não quero provocar convido a todos aqueles que usam a foto vertical e que não são bolsonaristas que a cada tanto fotografem na horizontal. Além de tudo é mais repousante, de novo sem trocadilhos.

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