A superficialidade do debate político

Ocorre que o debate público brasileiro é, hoje, assustadoramente superficial. Ele tem o seu foco habilmente desviado para questões ora secundárias, ora meramente pitorescas

Desde a redemocratização, num movimento progressivo, os cidadãos brasileiros têm se habituado a debater a política com muito mais frequência. Esse debate é saudável e necessário. A contraposição de ideias, a dialética que traz posições diametralmente opostas temperadas por certos consensos e concertações é antídoto contra o pensamento único, que tantos desastres causou ao longo da história. Esse debate tem que ser diuturnamente estimulado.

Ocorre que o debate público brasileiro é, hoje, assustadoramente superficial. Ele tem o seu foco habilmente desviado para questões ora secundárias, ora meramente pitorescas.

Muitos brasileiros têm empregado a totalidade de sua "energia cívica" para criticar a corrupção. Até mesmo o Conselheiro Acácio ficaria constrangido diante da obviedade: a denúncia, o combate, o inconformismo com a corrupção são imperativos (e que bom seria se esse esperneio contra a corrupção fosse equânime com relação aos diversos grupos políticos). Muitos outros, ainda, restringem suas críticas ao folclore político. Dedicam horas de seus dias a ridicularizar frases infelizes (ou supostamente infelizes) de políticos. Desperdiçam o produto de suas mitocôndrias encefálicas para rir dos "escorregões" (ou supostos "escorregões") dos mandatários. Como exemplo, lembro da efetivamente infeliz frase da presidente no tocante às "metas": milhões de "homens-hora" foram alocados na tarefa de repercutir esse deslize e, ainda, produzir diversas peças humorísticas internet afora (algumas realmente muito divertidas).

O problema é que esse debate é insuficiente, improdutivo, e mascara o que deveria efetivamente ser discutido, explicado e compreendido. Não estou aqui, claro, a pregar que se ignore a corrupção ou que se abstraia momentos folclóricos dos políticos. Afirmo, isso sim, que isso tudo deveria ser secundário diante do real "tradeoff" ao qual a maioria dos cidadãos nem sequer sabem que estão sujeitos: a contraposição dos dois grandes modelos, dos dois grandes projetos de Estado, contraposição esta que é primordial não só nestas terras, em que se plantando tudo dá, mas ao redor do globo.

De forma bastante esquemática, esses dois modelos podem ser classificados como segue:

1) O modelo "neoliberal", que tem como características principais o aumento da desigualdade econômica e social entre as pessoas (com a progressiva concentração de recursos nas mãos de pequenos grupos, em detrimento de bilhões de pessoas progressivamente pauperizadas) e o enfraquecimento do Estado, especialmente em seu papel regulador e fiscalizador;

2) O modelo "redistributivo" ou "compensatório", que procura, por meio de políticas públicas, mitigar as evidentes mazelas do modo de produção capitalista.

Ao longo de algumas décadas após a Segunda Guerra, boa parte do mundo seguiu o segundo modelo, especialmente (mas não apenas) a Europa. Esse movimento atingiu seu ápice com o "Welfare State" ("Estado de Bem-Estar Social") que caracterizou alguns países nórdicos. Os horrores da guerra haviam despertado na consciência humana a necessidade de se olhar para "o outro". Esse modelo entrou em declínio no início da década de 1980, época em que Margaret Thatcher (Primeira-Ministra britânica) e Ronald Reagan (Presidente dos EUA) comandaram uma dramática inflexão rumo ao neoliberalismo, espalhando mundo afora a lógica do desmonte de todas as redes de proteção social. A crise de 2008 (da qual o mundo, parece, não deve se livrar tão cedo) trouxe uma importante reflexão a respeito dessas duas propostas de Estado. Por um lado, o pensamento neoliberal, para, supostamente, combater a crise, impingiu aos governos dos países europeus a adoção de medidas que não tiveram resultado algum além de agravar a própria crise. Por outro, os cidadãos europeus têm reagido cada vez mais contra essas medidas - e o crescimento de partidos e grupos políticos e sociais mais radicais à esquerda (Syriza, Podemos, o novo trabalhismo britânico) é sinal eloquente.

No Brasil, especificamente, nos anos pós-redemocratização, depois de um começo trôpego com Sarney, Collor e Itamar, tivemos o predomínio, durante a maior parte da década de 1990 e início da década seguinte, do modelo neoliberal, capitaneado por Fernando Henrique Cardoso. A partir de 2003, com a eleição de Lula, houve uma inflexão, e o modelo neoliberal foi, ainda que apenas parcialmente, abandonado em prol de um Estado mais redistributivo, protagonista. Abstraídas as paixões e os ódios políticos (tolices que, infelizmente, contaminam o debate público brasileiro opacificando a racionalidade), uma comparação até relativamente rápida entre indicadores econômicos e, principalmente, sociais entre os governos de Fernando Henrique e os governos de Lula e o primeiro governo de Dilma são francamente favoráveis a estes últimos. Só mesmo a paixão e o ódio exacerbados podem cegar as pessoas a ponto de não compreenderem isso.

O início do segundo governo Dilma trouxe, surpreendentemente, uma nova inflexão, no sentido oposto. Dilma, provavelmente "seduzida" pelas ideias do novo Ministro da Fazenda (Joaquim Levy), que, oriundo da cúpula de um dos maiores bancos privados brasileiros, não é propriamente um cidadão preocupado com o aspecto social, passou a adotar medidas claramente neoliberais. O malfadado "ajuste fiscal" é exemplo ululante: por um lado, procura ajustar contas públicas em detrimento, entre outras coisas, de políticas sociais, e, por outro, não só não ataca o cerne do desajuste, que é a pornográfica remuneração de rentistas via dívida pública como também alimenta essa farra por meio da elevação da taxa SELIC a patamares absurdos. Cada ponto percentual de elevação da SELIC representa mais do que o dobro da "economia" que Dilma pretende fazer por meio de medidas, repito, socialmente reprováveis além de economicamente pífias.

É claro que há muita gente que discorda desse diagnóstico, e, repito, esse debate é fundamental. Todas as opiniões são legítimas, e, muitas vezes, dessa dialética nasce o consenso. O problema (e agora retorno ao âmago deste artigo) é que milhões brasileiros dedicam toda a sua energia a ridicularizar a presidente que fala em estocar vento ou a vociferar contra a corrupção e nem sequer tangenciam a questão central (muitas vezes nem sequer imaginam que ela exista).

Há um longo caminho para a consolidação da plena cidadania no Brasil. Uma das principais ferramentas é a Educação (lato sensu) - única forma de os cidadãos deixarem de tratar o debate político como um "Fla-Flu" ou como um programa humorístico e passarem a compreender o que está efetivamente em jogo.

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