A terceira tentação de Jesus

Qual é o limite entre a loucura, a sanidade e a falta de caráter? Insanos e maus caráteres estão protagonizando uma cena de onde o Brasil agoniza, mergulhado em toda espécie de maus sentimentos

(Foto: Rovena Rosa/ABR)

“Tenho apenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado.” 

E Deltan Dallagnol leva-nos a conhecer a terceira tentação.

“O demônio Lhe disse: Se Tu és Filho de Deus, joga-Te daqui para baixo. Por que a escritura diz: Deus ordenará a teus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado. ... Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra. Mas Jesus respondeu: A Escritura diz: Não tente o Senhor teu Deus.” (Mateus 4: 9,12)

Estaríamos tratando sobre Jesus ou, em última análise, Deus.

Qual é o limite entre a loucura, a sanidade e a falta de caráter? 

Insanos e maus caráteres estão protagonizando uma cena de onde o Brasil agoniza, mergulhado em toda espécie de maus sentimentos. Aprendemos lições inesquecíveis porque estamos dentro das páginas dos livros de história, daqueles dias trágicos das nações do mundo que por vezes caem. 

Insanos e maus caráteres atingem destaque e convencem uma parcela significativa da população de que estão capacitados para produzir resultados, estes sempre carregados de ideias violentas, de um conservadorismo fora do tempo e deixando claros os desejos de subserviência aos norte-americanos.

O contato com essa energia de trevas e a reprodução cega de ideias grotescas por alguns seguidores abre um foço entre as pessoas, dificultando o diálogo. E quando alguém considera razoável uma sugestão escatológica do presidente como forma de cooperação com a Amazônia, resta um desânimo e a descrença de que seja possível alcançar o bom-senso e a essência humana em alguns humanos brasileiros.

Sim, não é somente loucura. 

Sim, tem uma imensa carga de calculismos, ambições e desvios de finalidade.

Tem sido frequentes as discussões sobre a insanidade de Bolsonaro e agora avançamos para se Deltan é louco. As ambições desse pessoal da Lava Jato, que claramente estava se consolidando como partido, eram pontuadas pelos progressistas há algum tempo. Agora, com a Vaza Jato, tudo fica claro. Deltan, entre diálogos com pares e consigo mesmo, reflete sobre as possibilidades de se lançar a uma candidatura. Um pretenso religioso batista utiliza Jesus e Deus para limpar suas egocêntricas e financeiras ambições. Talvez, como uma forma de colocar um tom messiânico na obstinação por ganhos e enriquecimento.

Não somente a forma como Deltan se apresenta, entre o astuto oportunista religioso que subverte todas as regras de civilização em nome de um projeto pessoal, mas também a conexão com um público específico que aceita resultados almejados a qualquer custo, intrigam os menos razoáveis democratas. Uma exposição cruel de valores que talvez não preponderem, mas existem em número suficiente para gerar os estragos e os prejuízos que a Lava Jato e Bolsonaro são capazes de produzir.

De outro lado, é paralisante a convivência com o inexpressivo apreço da maioria da população que é inerte diante da entrega das riquezas nacionais, que despreza a Constituição Federal e que não se movimenta nem em proteção da democracia.

É possível que tenhamos um misto de muitas questões nessa personalidade doentia de Deltan. Uma delas está na educação recebida por uma determinada parcela da população, que é socializada para exercer o poder a qualquer custo. Sabemos que a entrada de Deltan no Ministério Público é imersa num processo de arbitrariedade produzido com a troca de favores entre seu pai e pares do judiciário. Sabemos que a família Dallagnol é envolvida com grilagem de terras. Os discursos meritocráticos e a religião dão a liga que alivia as mentes pesadas de uma falta de coerência para aqueles que querem se apresentar como modelos de retidão e higienizadores da sociedade.

“Todos na L J apoiariam a decisão.”

A casa grande reunida, em nome de Deus, tem um projeto de poder. São os mesmos das fotos dos chás beneficentes, das doações solidárias, da solidariedade que submete o pobre e que nunca estaria presente no debate que gesta políticas sociais. Inclusive, não há notícias, até o momento, de qualquer diálogo que os defina como servidores cientes do papel discricionário que pauta a atuação fiel do Ministério Público às garantias constitucionais.

Não satisfeitos com os poderes de que disfrutam, planejavam a criação do PLJ – Partido da Lava Jato, com representação em todos os estados. E tudo parece muito natural!

Sim, também é a triste Era na qual tudo é natural.

De tudo isso, o que importa é que as instituições continuam funcionando, funcionando para manter os pobres sob os sapatos. Nenhuma ilegalidade cometida por Deltan Dallagnol, Sérgio Moro, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, tem qualquer perspectiva real de punição. A única certeza é de que a arbitrariedade segue forte, com sinais insuficientes de retomada da trajetória democrática. 

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