A voz do gesto: Semiótica e política no livro de Mario Milani

O livro “A voz do gesto” de Mario Milani, com prefácio do ex-presidente, vai nos contar os bastidores da campanha do Lula

www.brasil247.com - Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista coletiva em São Paulo 22/08/2022
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista coletiva em São Paulo 22/08/2022 (Foto: REUTERS/Carla Carniel)


Por Milton Alves

No final dos anos 80, o governo José Sarney naufragava nas ondas da impopularidade, com uma inflação sideral e um tsunami grevista, que sacudia o país. Em 1988, o Partido dos Trabalhadores (PT) elegia a nordestina Luiza Erundina para a prefeitura de São Paulo, após um massacre do Exército, às vésperas do pleito, contra trabalhadores grevistas na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda [RJ], vitimando fatalmente três operários e ferindo dezenas.     

É nesse contexto, de ofensiva das lutas sociais e marcado por uma nova Constituição, promulgada em outubro de 1988, que o Brasil teria a primeira eleição presidencial direta, depois de quase 30 anos, em 1989.

A eleição para presidente da República reuniu na disputa personalidades políticas relevantes da vida nacional como Leonel Brizola [PDT], Ulisses Guimarães [PMDB], Mario Covas [PSDB], Aureliano Chaves [PFL], Paulo Maluf [PDS], Roberto Freire [PCB], Guilherme Afif [PL], o protofascista Enéas Carneiro [Prona], entre outros.

Na eleição de 1989 dois projetos políticos antagônicos polarizaram o eleitorado: de um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, uma liderança sindical surgida nas greves do ABC paulista no final dos anos setenta. Lula participou ativamente dos movimentos pela redemocratização e tinha sido eleito deputado federal em 1986 com a maior votação [mais de 600 mil votos] até então obtida por um candidato à Câmara dos Deputados. De outro, Fernando Collor de Mello [PRN], prometendo uma “caçada aos marajás” e a modernização neoliberal do estado brasileiro. Governador de Alagoas eleito pelo PMDB em 86, Collor era representante de uma tradicional oligarquia política, e foi membro da Arena e do PDS — legendas de apoio aos governos militares.

A campanha foi bastante acirrada, Collor apelou para o anticomunismo, atraindo os setores conservadores apavorados com o crescimento eleitoral de Lula. O candidato da Frente Brasil Popular [PT, PSB e PCdoB] praticamente triplicou seu número de eleitores no segundo turno, mas Collor venceu a disputa com 53% dos votos válidos contra 47% de Lula.

Uma campanha criativa e de massas em 1989

A campanha de Lula adotou o slogan “Sem Medo de Ser Feliz” que rapidamente empolgou a militância, um refrão do jingle cantado por Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, e sempre acompanhado de um coro de atores e atrizes do primeiro time da Rede Globo.

Além disso, a campanha fez uma paródia da vinheta da Globo com a “Rede Povo”, que diariamente no horário eleitoral abordava o dia a dia da disputa eleitoral com humor e seriedade programática — uma composição que funcionou até o fim.

Um outro elo da engrenagem da criativa e eficiente propaganda do candidato petista foi o popular gesto com as mãos que faz um “L”. Uma criação do jornalista e publicitário paranaense Mario Milani, que apresentou a ideia no Encontro Nacional do PT, realizado em São Paulo, ainda no período pré-eleitoral.

Aprovado pelo comando da campanha, o gestual ganhou vida nas diversas atividades de rua e na propaganda eleitoral, nos comícios, nas passeatas, nas caravanas do candidato pelo país, nas panfletagens nas fábricas e bairros. Um sucesso instantâneo em 1989, e que criou uma poderosa e duradoura marca das campanhas petistas usada até hoje. E que se transformou em símbolo e código identitário da militância do PT.

Durante a vigília pela liberdade de Lula, encarcerado injustamente pela odiosa operação Lava Jato em Curitiba, o gestual foi intensamente repetido por milhares de pessoas e personalidades internacionais em visita ao líder petista. A marca do L foi divulgada em todo o mundo, facilitada pelo alcance dos aplicativos nas redes sociais.

O livro “A voz do gesto” de Mario Milani, com prefácio do ex-presidente Lula, vai nos contar os bastidores desse caso, uma feliz e eficaz combinação entre semiótica e propaganda política.

Neste sábado (27), no Nina Comida e Arte, às 19h, o autor fará o lançamento da obra. Escrevi um texto para o livro. Aqui só é um aperitivo. Recomendo “A Voz do Gesto”.

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