Ações de Moro contra Greenwald remontam à ditadura

O colunista Gilvandro Filho, do Jornalistas Pela Democracia, afirma que "o anúncio de que a Polícia Federal irá investigar uma suposta venda de mandato do ex-deputado Jean Wyllys ao seu suplente, hoje titular, David Miranda (PSOL-RJ), é algo que tem a cara do extinto DOPS e o cheiro podre dos porões da ditadura militar"

Moro fez o Brasil viver à margem da lei
Moro fez o Brasil viver à margem da lei (Foto: REUTERS/Leonardo Benassatto)

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas Pela Democracia - O anúncio de que a Polícia Federal irá investigar uma suposta venda de mandato do ex-deputado Jean Wyllys ao seu suplente, hoje titular, David Miranda (PSOL-RJ), é algo que tem a cara do extinto DOPS e o cheiro podre dos porões da ditadura militar. O cerco tem como meta a expulsão do país do jornalista Glenn Greenwald, proprietário do The Intercept Brasil e marido de Miranda. 

A PF é subordinada ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, alvo das denúncias do TIB. Quando ainda era juiz encarregado de decidir o destino dos acusados da Operação Lava Jato, Moro e os procuradores federais capitaneados pelo encarregado da força-tarefa da operação, Deltan Dallagnoll, teriam trocado figurinhas para definir agendas e estratégias de acusação cujo alvo era o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Continuando a sessão “Quer que eu desenhe?”, lembremos que Lula era o favorito em todas as pesquisas para ganhar a eleição presidencial de 2018. Não um leve favoritismo, mas um favoritismo absoluto. Coisa de fatura definida no primeiro turno. O antídoto anti-Lula prescrito pelo Doutor Moro foi o recrudescimento do golpe de 2016, com a perseguição ao ex-presidente, chegando ao momento máximo de sua prisão e, consequentemente, sua saída definitiva da corrida presidencial.

Para fechar, o resultado dessa mandinga jurídica foi o caminho aberto para a vitória de um candidato bisonho e despreparado, inacreditável em sua mente preconceituosa, violenta e pequena. Um candidato que fez uma campanha baseada em fakenews e que teve o ápice de sua singularidade em um atentado até hoje mal explicado; com isto, o candidato fez sua campanha de casa, não foi a debates e não se expôs. Um candidato lotado de defeitos, mas, pelo menos, com a virtude da gratidão para com os amigos. Jair Bolsonaro, reconhecido, chamou o grande arquiteto de sua vitória presidencial para ser o seu ministro da Justiça.

Este ministro da Justiça, que saiu da condição de algoz dos opositores do seu agora chefe, vinha tendo um comportamento bem diferente da ousadia do super-herói cívico com que lhes batizaram aliados e organizações marchadoiras e senhores e senhoras panelísticos. Estava quietinho. Não fosse um estranho pacote anti-crime que não conseguiu emplacar no Congresso, ninguém lembraria de sua existência. E continuaria assim, convenientemente. Mas tinha um Intercept Brasil no caminho. No meio do caminho tinha um Intercept Brasil. E Moro foi flagrado com a boca na botija. Coisas de meses ou anos atrás. Mas, presepadas historicamente relevantes e criminosamente decisivas para que tenhamos esse balacobaco governamental que temos hoje.

E Moro se perdeu. As duas aparições dele no Congresso foram catastróficas. Talvez com assessores políticos mais espertos, ele tivesse dado um jeito de nem aparecer. Mas foi. E não conseguiu responder nada. Repetiu chavões. E foi massacrado. Na Câmara foi chamado de “juiz ladrão” e saiu enxotado. Em sua defesa, ganhou umas passeatas no domingo, dos marchadores de sempre. Sua estatura política, que já não era de grande substância, desmoronou. Sem trocadilho.

A saída de Moro para rebater o The Intercept Brasil é forçar a expulsão do dono do site. Da mesma forma como era juiz encarregado de um caso e insuflou a acusação ditando-lhe ações e influindo do processo, agora ele usa o aparato policial que domina por dever de ofício para se livrar de uma acusação da qual não consegue se safar. Comportamento que lembra tempos idos que não podem voltar, em que mentiras cabeludas viravam verdades autoritariamente indiscutíveis com o respaldo oficial e dos oficiais. Qualquer coincidência pode não ser apenas mera semelhança.

Mais ditadura, impossível.

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