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Alex Solnik

Alex Solnik, jornalista, é autor de "O dia em que conheci Brilhante Ustra" (Geração Editorial)

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Ah, se Bolsonaro fosse Jacinda

"O que está acontecendo no Brasil não é normal. As 368.479 mortes aqui e as 26 na terra de Jacinda representam a diferença entre a conduta de uma autoridade que apostou na imunidade de rebanho por contágio, estimulando a contaminação e outra que optou por estimular o lockdown e o isolamento social", esrcreve Alex Solnik

Ah, se Bolsonaro fosse Jacinda (Foto: Divulgação)

Ele espalhou desinformação; ela a combateu. Ele dividiu a população; ela uniu. Ele falou com desprezo sobre milhares de vidas; ela lamentou cada uma das 26 mortes”.

Ele é Jair Bolsonaro, presidente do Brasil. Ela é Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia.

No país dele, já foram infectados 13.832.455 habitantes e 368.479 morreram de covid-19.

No país dela, foram registrados, desde o início da pandemia até hoje 2.235 casos e 26 mortes.

Sim, 26. Não 26 mil. Apenas 26.

Essa é a informação mais chocante da matéria “Uma vida sem covid”, hoje, na Folha, assinada por Luísa Pécora, jornalista brasileira que mora na Nova Zelândia e sente, em relação aos brasileiros, “culpa de sobrevivente”.

Mas – dirão os mais atilados – calma lá: você está comparando um país de 210 milhões de habitantes com outro de apenas 5 milhões.

Tudo bem. O Brasil tem 40 vezes a população da Nova Zelândia. Vamos, então, multiplicar 26 mortos por 40 para saber quantos mortos haveria no Brasil se a presidente fosse Jacinda Ardern: dá 1040.

Vamos também considerar que a área do Brasil é muito maior e a população muito mais pobre. Ainda assim é inaceitável que o número de mortes seja 300 vezes maior.

Vamos fazer outra conta.

O Rio de Janeiro tem 6,7 milhões de habitantes, um pouco mais que a Nova Zelândia. Já registrou 563.926 casos e 17.535 mortes.

Em Brasília, dos 3 milhões de habitantes, 343.111 já pegaram covid e 5.912 morreram.

O que está acontecendo no Brasil não é normal. As 368.479 mortes aqui e as 26 na terra de Jacinda representam a diferença entre a conduta de uma autoridade que apostou na imunidade de rebanho por contágio, estimulando a contaminação e outra que optou por estimular o lockdown e o isolamento social.

Os amigos neozelandeses de Luísa querem saber duas coisas quando falam com ela: se sua família está em segurança no Brasil e “como Bolsonaro conseguiu se eleger”.

Ela defende “vacinação em massa e impeachment” e transmite um conselho de Jacinda Ardern:

“Sejam fortes e sejam generosos”.

Exigir que presidente do Brasil seja brasileiro nato não é garantia de que a população será protegida de forma adequada pelo estado.

Duvido que, se fosse presidente do Brasil, Jacinda Ardern seria menos cuidadosa com os brasileiros que com os neozelandeses.

E provocaria tantos danos quanto um brasileiro nato está provocando.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.