Amazônia sob ameaça de intervenção estrangeira

O jornaista Ribamar Fonseca alerta para o momento crítico da Amazônia legal brasileira. Ele diz: "se nada mudar os americanos terão, finalmente, o que sempre ambicionaram: a Amazônia. O presidente Bolsonaro, que confessou sua paixão por Donald Trump, anunciou recentemente que pretende entregar a eles a exploração das riquezas desta imensa região de cinco milhões de quilômetros quadrados, cujo desmatamento, após a sua posse, já atingiu índices alarmantes."

Se nada mudar os americanos terão, finalmente, o que sempre ambicionaram: a Amazônia. O presidente Bolsonaro, que  confessou sua paixão por Donald Trump,  anunciou recentemente que pretende  entregar a eles a exploração das riquezas desta imensa região de cinco milhões de quilômetros quadrados, cujo desmatamento, após a sua posse, já atingiu índices alarmantes. Não apenas os brasileiros, mas o mundo inteiro não esconde a sua preocupação com a política ambiental do capitão-presidente que, sem uma base científica, contesta os números do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os quais revelam um acelerado processo de destruição da floresta amazônica. A situação é tão grave, considerando os riscos para a vida em nosso planeta – a floresta amazônica, segundo os cientistas,  é responsável pela maior absorção do carbono – que o pesquisador  Stephen M. Walt, professor da Universidade de Harvard, em artigo na revista americana “Foreign Policy”, aventou a possibilidade de uma intervenção militar internacional para salvar a região da sanha destruidora de Bolsonaro. Para ele, é só uma questão de tempo até que as lideranças mundiais façam “o que for necessário” para estancar a fúria devastadora da Amazônia, incentivada pelo novo presidente brasileiro. 

Embora o desmatamento tenha sido acelerado após a posse de Bolsonaro, conforme comprovado pelo Inpe, a verdade é que a advertência do pesquisador americano não reflete apenas uma preocupação com a região mas representa, também, uma nova ameaça de internacionalização da Amazônia, uma região cobiçada pelos estrangeiros desde o século XVI, quando ingleses, holandeses e franceses tentaram invadi-la. Possuindo a maior bacia de água doce do mundo e uma das maiores reservas minerais do planeta, a região amazônica tem sido alvo ao longo dos anos de pesquisas clandestinas de vários países, especialmente dos Estados Unidos, através de “missões religiosas” e “missões científicas” que contrabandearam amostras de minérios e de plantas. Em 1993 os americanos, que conhecem a área melhor que os brasileiros, inclusive com o mapeamento da localização dos minérios, tentaram patentear a nossa biodiversidade. E sob o pretexto de que a Amazônia é o “pulmão do mundo” e, portanto, de importância vital para a sobrevivência do planeta, volta e meia alguém sugere uma invasão desta imensa área que, para os americanos, é “patrimônio da Humanidade” e, para outros, “terra de ninguém”, já que o governo brasileiro nunca deu a ela a devida atenção. 

A ameaça de internacionalização da Amazônia que, apesar das evidências, muita gente ainda considera fantasia, é antiga, uma realidade que só não vê quem não quer. Já em 1853, por exemplo, o governo americano enviou ao Congresso um projeto sobre a área que, entre outras coisas, alertava para o fato do lugar ser “uma região que, se aberta à indústria do mundo, ali se achariam fundos inexauríveis de riquezas”. Em outra época, um tenente da marinha daquele país, Mattnew Fontaine Maury, defendeu a tese de que a Amazônia era uma extensão natural do Mississipe e, portanto, “deveria ser uma dependência dos Estados Unidos”. E acrescentou: “É o paraíso das matérias primas, aguardando a chegada de raças fortes e decididas para ser conquistado científica e economicamente”. Por sua vez, o chefe do órgão central de informação das forças armadas norte-americanas, Patrick Hughes, afirmou não faz muito tempo: “Caso o Brasil resolva fazer uso da Amazônia de forma que ponha em risco o meio ambiente dos Estados Unidos temos de estar prontos para interromper esse processo imediatamente”. Em 1960 o futurólogo Herman Kahn, do Instituto Hudson, propôs a criação de um grande lago na região, com a construção de várias barragens, para, segundo ele, facilitar os investimentos estrangeiros naquela área.

As manifestações de americanos influentes, que refletem o enorme interesse pela Amazônia, não param por aí. Mais recentemente, em 2000, o jornalista e ecologista Al Gore, vice do presidente Bill Clinton, deu uma declaração surpreendente: “Os brasileiros pensam que a Amazônia é deles. Não é. Ela pertence a todos nós”. Ele chegou, inclusive, a sugerir a criação de um consórcio internacional, com a participação das grandes nações, para administrar a região. Suas declarações tiveram eco na Inglaterra, onde a primeira ministra Margareth Thatcher disse que os países subdesenvolvidos deveriam pagar suas dívidas com seus territórios, e na França, o então presidente, François Mitterrand, afirmou que “o Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia”. Como é fácil perceber, esta imensa região vive sob permanente ameaça de intervenção estrangeira, mas na prática os americanos já a ocupam há muito tempo, de forma clandestina ou através de Ongs. Hoje são mais de 500 Ongs, entre nacionais e estrangeiras, operando na área sob os mais diferentes pretextos, dos quais o mais usado é a “preservação dos índios”. 

No final da década de 60 uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados fez uma ampla investigação sobre a presença estrangeira na Amazônia e concluiu que cerca de 20 milhões de hectares já estavam em poder de estrangeiros. O relator da CPI, deputado-brigadeiro Haroldo Velloso, que ficou famoso na rebelião de Aragarças, alertou para o fato de que essas terras formavam um verdadeiro cinturão, isolando a área do resto do país. Nenhuma providência foi tomada pelo governo à época e o relatório da comissão foi engavetado. A ocupação, na verdade, tem se processado sutilmente. O milionário americano Daniel Ludwig comprou uma área de 600 mil hectares, entre os Estados do Pará e Amapá, para a plantação de gmelina arbórea, destinada à produção de celulose, o Projeto Jari.  Ele chegou a construir uma cidade no meio da floresta amazônica, em Monte Dourado, com casas pré-fabricadas dotadas até de calefação, e importou uma fábrica de celulose do Japão que, apesar do tamanho – tinha a altura de um prédio de dez andares – foi montada em duas enormes balsas que vieram navegando daquele país até o local do Projeto, arrastadas por um rebocador. Aquela imensa área, segundo comentários è época, abrigava em seu subsolo grandes riquezas, o verdadeiro motivo da sua compra pelo milionário americano. A plantação de gmelina para a produção de celulose seria apenas uma cortina de fumaça. 

As denúncias sobre a ação clandestina de estrangeiros na Amazônia, mais precisamente de americanos, é antiga. O deputado paraense Benedito Monteiro chegou a ser preso no período do regime militar por ter feito algumas denúncias. Ele teria, inclusive, fotos de aviões militares norte-americanos em pistas de pouso clandestinas mas todo o seu material foi apreendido na época pelas forças de segurança. Os governos brasileiros posteriores à ditadura tomaram algumas providências de proteção da região, inclusive com a instalação de bases militares e do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), com o uso de satélites, mas há suspeitas de que as informações coletadas passariam pelo Pentágono antes de chegarem ao Brasil, porque a empresa americana que forneceu os equipamentos é a mesma que trabalha para as forças armadas dos Estados Unidos. O fato é que o número de militares brasileiros na região é insuficiente para garantir a integridade do território amazônico, cuja soberania depende muito dos amazônidas que vivem nos lugares mais remotos dessa imensa área. Sem uma política voltada para a região, cujos principais órgãos de desenvolvimento – a Sudam e o Banco da Amazônia – foram sucateados ao longo do tempo, a área estará sob permanente ameaça de internacionalização, sobretudo agora, no governo Bolsonaro, que pretende entregá-la oficialmente aos Estados Unidos, ao qual tornou o Brasil submisso. 

A ausência de nacionalistas sobretudo nas Forças Armadas, que tem se mantido em silêncio diante das ações entreguistas de Bolsonaro, especialmente em relação à privatização da Petrobrás e pré-sal e à entrega da base espacial de Alcântara, é motivo de preocupação, porque se nada for feito para impedir essa loucura poderemos ter em breve uma nova Guantânamo no Maranhão, além de bases militares americanas espalhadas pelo território amazônico. Ninguém está preocupado com a nossa soberania? A esperança é que o Congresso Nacional, que terá de ser consultado conforme determina a Constituição, possa interromper o processo entreguista, rejeitando os projetos nesse sentido do capitão-presidente. A entrega de Alcântara, já tentada anteriormente pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, foi barrada uma vez no Parlamento pelo saudoso deputado Waldir Pires, que impediu a sua votação até a posse do presidente Lula, que sepultou a pretensão de FHC. Agora, no entanto, ninguém pode prever o que fará esse Congresso, o mesmo que acaba de aprovar em segundo turno a reforma da Previdência, considerada pelos especialistas danosa aos interesses dos trabalhadores. Afinal, com R$ 2 bilhões para emendas dos deputados tudo é possível... 

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