Amazônia, um lugar para se ir antes de morrer

"Todo brasileiro deveria ter o direito de conhecer a Amazônia antes de morrer. Só assim saberiam do que fala o mundo, pelo que brigam os preservacionistas e o que defendemos", escreve a jornalista Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia, em meio à devastação da floresta incentivada por Jair Bolsonaro

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Todo brasileiro deveria ter o direito de conhecer a Amazônia antes de morrer. Só assim saberiam do que fala o mundo, pelo que brigam os preservacionistas e o que defendemos. Tive o privilégio de me embrenhar naquela selva seis vezes. A primeira, quando me vi diante de tamanha exuberância, chorei, tal o impacto que aquela visão me proporcionou. Fui invadida por sons, cheiros e uma variedade tamanha de verdes que não dei conta de olhar para tudo o que precisava ser visto. Em silêncio, como se em visita a uma imensa catedral, deixei que as lágrimas pingassem pelas águas escuras do igarapé. Foi uma forma de rezar. A minha maneira de agradecer.

Voltei outras cinco vezes. A primeira impressão foi assim, estonteante e silenciosa. A mais marcante, no entanto, foi no ano de 1996. O governo havia instituído a área de 11.137 km² da localidade de Mamirauá como reserva ambiental. Um ponto de convergência de vários estudiosos para observar e elaborar técnicas de preservação, manejo e sustentabilidade para aquela imensidão.  

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, como foi denominada, fica localizada no estado do Amazonas, na região do médio Solimões. É uma área protegida e compõe o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Trata-se da maior reserva florestal do Brasil dedicada exclusivamente à preservaçã da várzea amazônica.

Fui a trabalho, pela Revista Manchete, que queria ser a primeira a veicular imagens da nova reserva. Assim que desembarquei em Manaus comprei o jornal “A Crítica”, biscoitos e água. Em companhia do fotógrafo Fernando Cussate, segui até a cidade de Tefé, orgulhosa por sermos a primeira equipe escalada para explorar o santuário. Depois de bater um prato de peixe com pirão e farinha amarela, alugamos uma traineira para um trajeto de seis horas. O plano era chegar ao final do dia, em torno das 18h. Fui lendo as notícias, enquanto o motor da máquina de Fernando competia com o “tó-tó-tó” da traineira, deslumbrado que estava com o espetáculo que passava por sua lente.

De repente não víamos margem. Lancei o olhar à toda volta e era água por todos os lados. Não havia coletes-salva-vidas a bordo e senti um aperto no coração. Escureceu e a reserva não chegava. Perguntei ao barqueiro quanto faltava e por que eu não ouvia mais o barulho do motor. “Quebramos, moça. Estamos à deriva”.  

- E só agora o senhor me fala?

- Não tinha jeito mesmo, então não tinha o que falar...

Pânico. A lógica da gente simples é assim mesmo. Nada de estresse. Solução!

- É muito fundo aqui? - Uns trinta metros...

- Mas tem alguns bancos de areia lá pelo meio...

- O senhor tem aí algum bambu, algum mastro, algo que a gente possa usar para empurrar o barco até a margem?

- Tem lá embaixo um cabo, mas não sei se vai dar não. Aqui no meio é mais seguro... Nas margens tem o perigo de onça e sucuri...

- Nem morta que fico à deriva no meio desse mundo de água nessa casquinha.  

Desci até o porão da traineira. Eu e Fernando encontramos o tal cabo e o trouxemos para cima. Havia querosene no motor. A esta altura tínhamos sido levados para um ponto em que já se avistava a outra margem, muito distante. Os mosquitos formavam nuvens em torno do barco. Aproveitei para pegar uma lata com um pouco do querosene e trouxe para o convés. Por sorte Fernando fumava e tinha um isqueiro. Fiz uma tocha com algumas folhas de “A Crítica”, para espantar os invasores. Felicidade. Havia vários bancos de areia e conseguimos atolar o barco na margem. Os biscoitos e a água foram o nosso jantar.  

Não dormi. Uma família de jacaré dava lambadas na borda do barco, fazendo-o sacolejar como se enfrentasse um mar tormentoso. Do outro lado, um cardume de boto rosa mergulhava assanhadamente, provocando marolas que nos colocava em risco de irmos parar na boca dos jacarés. Assim foi a noite, a ouvir todos os sons da floresta e mais os gritos alegres dos botos em lazer.

Exausta, me sentei no convés sobre o resto de “A Crítica” que não queimou, e tirei um cochilo. Os primeiros raios do amanhecer me despertaram. Quando abri os olhos me vi diante de um dos maiores espetáculos da terra. A silhueta da selva em negro era iluminada por uma bola alaranjada gigantesca e a água era um tapete prata. Podia-se caminhar sobre ele, pensei. Não sei se viverei para ver outra manhã igual aquela em minha vida. Quando olhei para o lado, o fotógrafo, Fernando, estava tão atordoado com o que assistíamos, que não ousou levantar a máquina para fotografar. Apenas mirava. Ficou assim uns minutos até que começou com o “teschlak, teschlak” da câmera, a eternizar aquilo que hoje esse governo teima em destruir. Não podemos deixar.   

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