Amigos do rei e inimigo dos trabalhadores

Apesar de todo o dinheiro que o município possui, nós professores convivemos com atrasos de salários, atrasos que vão completar quatro anos em junho

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Inacreditavelmente, alguns quadros apresentam sérias dificuldades, dificuldades estas que podem custar muito caro. Uma é a de não entender a gravidade do momento que vivemos. Outra é não aprender com a história recente.

Por gravidade do momento não quero falar da necessidade de isolamento social etc. A covid é uma doença séria, mas seu estrago se torna ainda maior porque se instalou em um corpo social que já padecia. Negar que o neoliberalismo debilitou a saúde pública e que por isso é corresponsável pelas dezenas de milhares de mortes tem tanta força científica quanto dizer que a Terra é plana. Com relação à história recente, é preocupante que alguns quadros do PT insistam em práticas que já mostraram resultados ruins.

Isso pode parecer abstrato, mas é uma introdução necessária para tratar do que vem ocorrendo no PT de Duque de Caxias. 

O município possui a segunda maior receita do Rio de Janeiro e a 17ª do Brasil, muito à frente de Sorocaba, Joinville ou Santos. O PIB per capita de Caxias é de R$ 46 mil. Mas sua população vive em condições miseráveis. 40% vive com menos de meio salário mínimo. A mortalidade infantil no município é maior do que em 63 dos 92 municípios do Rio de Janeiro. Em Caxias morrem mais crianças do que em outras 2.100 cidades do Brasil. Em Duque de Caxias, nem uma escola tem ar-condicionado, em muitas, nem ventilador. Muitos de nossos alunos não têm calçado. Em algumas escolas do município, há goteiras e o teto cai sobre as cabeças dos alunos e dos professores (isso é real, não é força de expressão). Não custa lembrar, estamos falando de uma das cidades mais ricas do Brasil.

Apesar de todo o dinheiro que o município possui, nós professores convivemos com atrasos de salários, atrasos que vão completar quatro anos em junho. Não temos calendário de pagamento, o prefeito paga quando quer. Depois que o prefeito implementou o escalonamento, muitos dos trabalhadores recebem com mais de vinte dias de atraso. A situação dos aposentados é muito pior. Repito, essa realidade vai completar o quarto aniversário em junho. Não quero me alongar, quem quiser entre na página do SEPE (Sindicato de Professores) e poderá ler os relatos de assédio moral, ver as fotos do descaso.

Quem responde por essa calamidade chama-se Washington Reis. Homem forte de Eduardo Cunha, Reis ficou ao lado do carrasco da presidenta Dilma até o fim, foi um dos únicos a votar contra a cassação do herói dos Bolsonaro e dos manifestoches. Para quem não se lembra, Washington Reis foi à Brasília doente para votar pelo golpe – pelo menos ele alegou estar doente para poder furar a fila e ser o primeiro a votar pela derrubada da presidenta.

Desde que assumiu, Reis escolheu os servidores públicos como inimigos. Dentre os servidores, a categoria que ele mais combate é do magistério. Ou seja, Washington Reis é maior inimigo da educação de Duque de Caxias. O prefeito se nega a receber a direção do sindicato. A categoria não tem reajuste salarial desde sua posse, em janeiro de 2017. Não bastasse, nos primeiros meses de governo, o prefeito desmontou o outrora exemplar plano de carreira da educação e cassou as licenças sindicais.

Isso seria o suficiente para deixar claro que só há um lugar possível para o PT em Duque de Caxias: na oposição. Isso bastaria para impedir que, mesmo em pensamento, algum quadro do partido cogitasse se aliar Washington Reis, final, não resta dúvida, trata-se de um inimigo da classe trabalhadora.

Para não deixar ninguém com dúvida, WR foi puxar o saco de Jair Bolsonaro. O irresponsável que ocupa a Presidência nem tinha sentado na cadeira, mas o canalha que ocupa a prefeitura pegou uma escola que tinha acabado de ficar pronta e resolveu batizar o colégio com o nome do pai do palhaço: Percy Bolsonaro. Restava óbvio: Washington Reis não é apenas um golpista, é um aliado dos fascistas.

Em abril de 2019, o Diretório Municipal do PT expulsou o vereador traidor Júnior Uios. O vereador do partido vinha votando com WR em toda sua violenta pauta contra os trabalhadores. Na falta de expressão melhor, vamos deixar claro: era bizarro! Um vereador do PT votando para retirar direitos dos trabalhadores, para cassar licenças sindicais. Você que está lendo consegue imaginar o custo disso na base da categoria, no dia a dia na sala dos professores?

No mesmo mês, o DM do PT Caxias resolveu que teria candidato próprio na eleição para prefeitura. Resgatando sua história, o PT Caxias decidiu que seu pré-candidato é um sindicalista, Aluizio Júnior, presidente do Sindicato Nacional dos Moedeiros. Decisão reafirmada em janeiro de 2020. 

Mas em março, o DM passou por uma turbulência. No dia 10, a executiva reafirmou a pré-candidatura de Aluizio Júnior, mas o site “Agenda do Poder”, informou que o “PT decide apoiar a reeleição de Washington Reis em Caxias”. Ao que parece, esse site tem apenas um anunciante: a prefeitura de Maricá. A matéria traz uma foto com o ex-deputado federal Celso Pansera. Curiosa e coincidentemente, desde janeiro de 2020, Celso Pansera é o presidente do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM). 

Em 11 de março, a Executiva Municipal emitiu uma nota na qual afirmou que foi pega de surpresa com a informação de que um grupo minoritário que compõe a direção plantou a notícia falsa de que o PT Caxias apoiaria a reeleição de Washington Reis. Na nota, a Executiva reafirma que o partido teria candidato próprio, sendo o companheiro Aluizio Júnior o pré-candidato, e que as alianças partidárias seriam construídas com os partidos que são de oposição ao prefeito.

Mas nada é tão ruim que não possa piorar.

Em 25 de março, em plena quarentena, Washington Reis enviou uma mensagem à Câmara de Vereadores na qual propõem acabar com o que ele ainda não havia destruído do plano de carreira do magistério. O nome disso é canalhice, e para essas canalhices, WR sempre contou com Nivan Almeida, o líder do governo na Câmara desde a posse de WR. Ou seja, todas as arbitrariedades e perversidades que o prefeito fez o fez com a cumplicidade do Nivan.

Qual não foi a surpresa do petista de caxienses quando se descobriu que havia no sistema um pedido de filiação ao PT de ninguém menos que Nivan Almeida?

Obviamente, tratava-se de uma jogada rasteira para levar o PT Caxias para dentro do governo do fascista Washington Reis. Uma canalhice sem tamanho.

Felizmente, o diretório agiu rápido e, por 26 a 1, recusou a filiação. Tratava-se de uma questão de sobrevivência. 

Os que participaram da manobra frustrada operam numa lógica que não tem mais espaço. Votos fisiológicos e clientelistas e alguns cargos na máquina pública acabam cobrando um preço muito caro porque a militância não aceita.

Uma aliança com Washington Reis é perigosa por várias razões. Ele representa tudo que está na raiz da crise brasileira. Ele é um fundamentalista religioso que comete a irresponsabilidade de dizer que a solução para o coronavírus é rezar. Ele representa o neoliberalismo que vê na pandemia uma oportunidade de esfolar ainda mais a classe trabalhadora. Ele representa o autoritarismo, que se nega a dialogar os sindicatos. Ele é aliado de primeira hora do Bolsonaro.

Como eu e muitos outros petistas que atuam em Caxias temos dito: fazer uma aliança com Washington Reis é o mesmo que fechar o PT na cidade. Recusar o Nivan e o WR é uma questão de sobrevivência. Quem pensa diferente, ou não está entendendo nada do que está acontecendo ou quer acabar com o partido.

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